quinta-feira, 21 de junho de 2012
Amor nos tempos dos Grilhões...
Era um sonho dantesco...
o tombadilho,
Tinir de ferros...
estalar do açoite...
Legiões de homens negros como a noite,
Horrendos a dançar...
Negras mulheres,
levantando às tetas
Magras crianças, cujas bocas pretas
Rega o sangue das mães:
Outras, moças... mas nuas, assustadas,
No turbilhão de espectros arrastadas,
Em ânsia e mágoa vãs.
Um de raiva delira, outro
enlouquece...
Outro, que de martírios embrutece,
chora e dança, ali.
Senhor Deus dos
desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus!
Se é loucura... se é verdade
Tanto horror perante os céus...
Quem são estes
desgraçados
Que não encontram em vós
Mais que o rir calmo da turba
Dize-o tu, severa musa,
Musa libérrima, audaz!
São os filhos do deserto
Onde a terra esposa a luz.
Onde voa em campo aberto
A tribo dos homens nus...
São os guerreiros
ousados,
Que com os tigres mosqueados
Combatem na solidão...
Homens simples, fortes, bravos...
Hoje míseros escravos
Sem ar, sem luz, sem razão...
Lá nas areias infindas,
Das palmeiras no país,
Nasceram crianças lindas,
Viveram moças gentis...
Passa um dia a caravana
Quando a virgem na cabana
Cisma das noites nos véus...
...Adeus! ó choça do monte!...
...Adeus! palmeiras da fonte!...
...Adeus! amores... adeus!...
Senhor Deus dos
desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus!
Se é loucura... se é verdade
Tanto horror perante os céus...
Ó mar, por que não apagas
de tuas vagas
De teu manto este borrão?
Astros! noite! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão!...
E existe um povo que a
bandeira empresta
P'ra cobrir tanta infâmia e covardia!...
E deixa-a transformar-se nessa festa
Em manto impuro de bacante fria!...
Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta,
Que impudente na gávea tripudia?!...
Auriverde pendão de minha
terra,
Que a brisa do Brasil beija e balança,
Antes te houvessem roto
na batalha,
Que servires a um povo de mortalha!...
...Mas é infâmia
demais...
Da etérea plaga
Levantai-vos, heróis do Novo Mundo...
Andrada! arranca este pendão dos ares!
Colombo! fecha a porta de teus mares!
O Navio Negreiro, de Castro Alves
Não me lembro direito...
Neste momento, não vem a noção
de tempo e nem de espaço...
Lembro-me apenas dos
fatos!
Mas uma coisa é certa: se
me lembro dos fatos é porque presenciei tudo no passado... ou será que
acontecerá no futuro?
Lembro-me da boca salgada
pela maresia e das costas lanhadas pela tempestade. Lembro-me também do
desembarque, engolindo água; e do meu corpo boiando com as águas, arrastando
folhas, conchas, areia...
Lembro-me do choro das
crianças e dos corpos flutuando sem vida, tingindo de vermelho as ondas que me
empurravam para a costa, enquanto peixes famintos os devoravam...
E, apesar de tanto
horror, não posso me esquecer da incrível beleza dos coqueirais, nem dos
arrecifes que formavam piscinas naturais! Não dá para esquecer a floresta
exuberante, o mangue e a areia fina, quente e branca que acariciava meus pés...
Acho que foi assim que
cheguei ao Novo Mundo!
Nua... exausta...
faminta... assustada... encantada... aliviada!
Lembro-me de ter sido
levada até um vilarejo, de casas simples e ruas de pedras brutas, iluminadas
por tochas acesas, onde ocorria uma grande feira livre...
Lembro-me daquela fartura
de alimentos, do cheiro gostoso das frutas, e dos olhares daqueles senhores bem
trajados, admirando meu corpo negro, despido de roupas e de vergonha...
Tenho que confessar que
gostei...
Pela primeira vez em
minha vida, fui tratada como uma princesa, sendo cortejada por dezenas de
compradores. Mas a minha satisfação não se refletia no rosto de Aysha. Seu
olhar transmitia um misto de ódio e angústia, prestes a explodir numa combustão
repentina...
Ela era uma garota muito
bonita. Tinha mãos grandes, pernas grossas, bumbum enorme, seios fartos e
cintura minúscula, com lábios carnudos e feições delicadas. Mas era seu olhar
que me impressionou. Parecia uma leoa, selvagem e imponente, capaz de abater
sua presa em segundos...
Apesar do contraste, um
único comprador escolheu nós duas.
Era um senhor de mais ou
menos cinqüenta anos, bem trajado, com fartos bigodes brancos e um semblante
neutro, acompanhado por um assistente baixinho e asqueroso, com rosto que
lembrava um rato. Nosso novo dono ordenou:
- Vista as duas e vamos
embora, Nicolau...
- Sim, senhor Joaquim! O
senhor fez uma boa escolha!
- É claro que fiz...
vamos!
Nicolau cobriu nossos
corpos com túnicas negras e nos levou até sua carroça, onde permanecemos por
umas duas horas, sacolejando entre galinhas d’angolas e frutas frescas. Eles
permitiram que nos alimentássemos com duas suculentas goiabas.
Durante a viagem, tentei
conversar com ela:
- Oi... meu nome é
Malika... E o seu?
- Me chamam Aysha...
- Prazer, Aysha! Não se
sente contente por ter sido escolhida por um bom homem?
- De onde vim, não tinha
o costume de ser tratada assim...
- Mas estamos sendo bem
tratadas...
- Você sabe o que eu
quero dizer...
Não consegui arrancar
mais nenhuma palavra dela por cinco dias!
O Senhor Joaquim nunca
encostou a mão em nós. De fato, em sua mansão, não éramos tratadas como
escravas. Apesar de ter obrigações a cumprir, tudo era compensado por muitas
mordomias.
Fomos compradas para
trabalhar atuando em peças teatrais para um público selecionado. Simplesmente a
elite! Capitães, Coronéis, Fazendeiros...
Semanalmente, encenávamos
peças gregas, permeadas de muito sexo explícito e humor!
Eu representava meu papel
e era prazeroso para mim!
Sentia que era desejada
por aqueles homens poderosos!
E invejada por suas
mulheres branquelas sem-graça!
Mas Aysha não sentia a
mesma coisa. Ela chegou a passar mal e nos fez cancelar dois espetáculos...
O Senhor Joaquim ficou
furioso como eu nunca tinha visto, e disse que se ela não melhorasse seu
desempenho, iria ser trancada e abandonada dentro de um formigueiro!
Uma bela manhã, na
senzala, perguntei se ela enxergava o fato de muitas escravas implorarem para
estar no lugar dela. Ela não respondeu com palavras, mas seu olhar disse tudo.
Eu insisti:
- Me diz, Aysha, porque
toda esta angústia? Toda essa tristeza?
Para minha surpresa, pois
estava acostumada a ser ignorada por ela, desta vez Aysha respondeu:
- Se você enxergasse as
coisas como eu enxergo, talvez entenderia...
- E como você enxerga?
- Vou lhe responder com
outra pergunta: o que é o amor para você?
Não pude conter uma
gargalhada...
- O amor é uma piada sem
graça! Vivo muito bem sem isso! E para você, o que é o amor, hein? Me diz o que
é o amor...
- Respondo-lhe depois...
Antes, peço que busque lá em seu âmago, a imagem da primeira pessoa que vem à
sua cabeça...
Fiz o que ela mandou. Fechei
meus olhos e pensei na primeira pessoa... A imagem surgiu com tanta clareza
quanto o real. Era um lindo jovem negro, careca e musculoso, com um sorriso
maravilhoso, usando roupas de caçador e empunhando uma lança afiada, emanando
uma luz intensa...
Somente depois de alguns
segundos sua luz clareou minha memória e me fez lembrar quem era... Uma pessoa
muito importante para mim no passado... Permaneci em transe, mas consegui
esboçar algumas palavras trêmulas:
- R-res...ponda-me...
o... que é... o amor...
Aysha segurou minha mão
direita e a levou até seu seios, ordenando:
- Toque-me!
- M-mas... o que...
você... está... fazend...
Meu corpo estremeceu, num
súbito voejar de sentimentos e extasiantes sensações ao sentir meus pêlos
pubianos eriçando sobre a minha pele, como se fossem pequenas árvores prestes a
serem arrancadas do solo úmido e quente por uma forte ventania...
Ainda com os olhos
fechados, vi meu gozo rodopiar incessantemente dentro de minha grutinha...
Suas mãos inquietas
enroscaram em meus cabelos, assim como sua língua percorria meu corpo, me
bebendo toda, me deixando zonza de tanto prazer...
Senti algo estranhamente
diferente do que sentia durante as relações sexuais mecânicas que mantinha com
meus amos...
Senti algo verdadeiro!
Senti que podia olhar e
ir adiante!
Senti que podia ir além e
que o infinito é só o começo!
Enfim, senti minhas
pernas fraquejando... e meu corpo sendo tomado por tremores incontroláveis,
enquanto meu sexo escorria um líquido farto por minhas coxas...
Ainda ofegante, vi Aysha
se afastar de mim, limpando sua boca com as costas das mãos, e dizendo
friamente:
- Isto, Malika... é o
amor!
Me senti atordoada e permaneci
calada o resto do dia. Fiquei sem entender o que Aysha havia feito comigo.
Ao anoitecer,
encontrávamos no camarim, nos preparando para o show daquela noite. Angustiada
como sempre, disse que não iria atuar de novo.
- Não diga isso, Aysha...
Você é muito estranha, sabia? O que fez comigo pela manhã? Sinto-me mal até
agora!
- Apenas te mostrei o que
realmente penso e sinto... Não suporto viver dessa maneira! De onde vim, não
existem pessoas vendendo outras como mercadorias! Não há comércio de sexo! As
pessoas vivem livremente para fazer o que quiser! O contato com a natureza
fazia de nós pessoas mais humanas!
- Foi lá com seu povo que
você aprendeu tudo o que sabe sobre o amor?
- Claro! Aqui as pessoas
tratam o prazer como um elemento isolado! Lá, o prazer é visto como mero
coadjuvante, intimamente ligado ao amor!
Naquele exato momento, o
Senhor Joaquim e o seu assistente Nicolau entraram no camarim. Pelo visto,
estava muito bravo...
- Andem logo vocês
duas... Estamos com a casa cheia e o show está atrasado!
Aysha se levantou da
cadeira e falou:
- Eu não atuarei hoje,
Senhor Joaquim... Desculpe...
Ela não devia ter dito
aquilo, pois o Senhor Joaquim não estava num dos seus melhores dias. Ele
agarrou os cabelos dela, puxando-os como se fossem rédeas, e bradou:
- Ora, sua vadia! Não me
faça perder a paciência contigo!
Em seguida, esbofeteou
seu rosto, a ponto de deixar a marca de seus dedos em suas bochechas. Nunca vi
tanto ódio no olhar de Aysha!
Ajudei-a a ficar em pé, e
nós duas fomos para o palco, onde os outros atores já nos aguardavam. Aysha
permanecia em silêncio, fulminando o Sr. Joaquim com seu mais assustador olhar
ferino...
O mestre de cerimônias
anunciou:
- E COMEÇA AGORA O MAIOR
ESPETÁCULO DE TODOS OS TEMPOS! VEJAM, SENHORAS E SENHORES, A GUERRA DE TRÓIA!!!
As cortinas se abriram e
lá estávamos todos nós, representando soldados gregos e troianos, empunhando
espadas e bordunas...
Neste momento, o Sr.
Joaquim, sentado no seu trono no centro do palco, interpretando o Rei Xerxes,
percebeu o grande erro que cometera, ao dar uma espada verdadeira para Aysha...
Rápida como um leopardo,
minha amiga correu em direção dele com a espada em punho, e num movimento
perfeito, cravou a lâmina afiada nas entranhas de nosso dono. Antes de morrer,
Joaquim ainda tentou segurar suas próprias vísceras, mas era tarde... Não havia
nada a ser feito!
Aysha tentou usar a mesma
espada outra vez, mas a arma prendeu-se nos ossos da costela de seu algoz, e
ela não teve forças para sacá-la, antes que as lanças afiadas dos seguranças do
teatro trespassassem seu lindo corpo em oito pontos diferentes...
Desesperada, me levantei
e abracei o que restou de Aysha...
Seu sangue quente banhou
meu corpo...
E minhas lágrimas lavaram
seu rosto bonito...
As cortinas se
fecharam...
E o público aplaudiu de
pé... por vários minutos...


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