Cadeia Alimentar - Parte III


O demônio acena para mim do outro lado da pista de dança. Não importa quantas vezes eu venha aqui: a música parece sempre a mesma para mim agora. Sentada na mesma boate em outra noite de quinta-feira sem sentido, eu já nem me importo mais se o som é New Wave, Old Wave, Gótico, Industrial ou outra mistura horrorosa de Tecno com Dance – já não consigo mais diferenciá-las. Os mesmos ritmos pulsantes sacodem as janelas revestidas de preto da casa noturna, os mesmos corpos jovens e esguios se contorcem sob a ribombante batida da música e, mais uma vez, eu finjo beber minha cerveja aguada, olhando para a massa de carne suada diante de mim com doses iguais de luxúria e piedade.

O preto ainda está na moda (como sempre) e então eu me sento em um canto, com uma minissaia de couro preto comprimindo desconfortavelmente as minhas coxas atrofiadas. Quando olho para o espelho não é mais um manto de escuridão que me cerca, obviamente. É um visual completamente novo, não muito diferente daquele que eu costumava apresentar a cada noite durante milhares de noites em minha inexorável escalada rumo aos 30 anos de vida. Mas agora eu também posso brincar de ser Barbie. Eu aprendi a moldar a minha carne para me disfarçar como uma delas. E até estou usando minha calcinha da sorte!

Eu não entendo mais a última moda, mas com um pensamento posso fazer com que os outros acreditem que o meu visual É o auge da moda! Já dominei os segredos desta simples e patética ordem social. Um universitário atraente e estúpido passeia pela minha frente. Eu sorrio. Eu libero a instintiva “simpatia” que pulsa em meu atrofiado coração, e ele pára de passar por mim. Como um animal, ele é atraído por desespero e desejo, liberalmente misturados com a bebida e o êxtase. Eu conheço esses sentimentos bem, até demais, e reflito-os de volta para ele.

Ken puxa uma cadeira e senta ao lado da minha imitação de Barbie. Ele não se preocupa com os pensamentos que estão em minha mente, os sentimentos que estão em meu coração, ou mesmo quem eu sou. Posso sentir a vida pulsando através dele. Alguma quantidade de seu precioso sangue está se acumulando dentro de suas cuecas neste exato momento.

Eu jogo uma cantada, mas a música é tão alta que ele não escuta. Apenas finge uma risada. Sentei, assisti e aprendi essa rotina ao longo dos anos. Com um cambalear calculado, me levanto sobre minhas botas “vou te derrubar e te matar”, e me preparo para conduzi-lo ao beco próximo ao estacionamento da boate, para um pouco de diversão.

Diversão para mim, é claro. E para o meu amado demônio.

Depois de todo o meu sofrimento, miséria e desespero, agora conheço o verdadeiro significado deste lugar. Existem milhares de boates como essa. Elas estão abertas toda semana, e eu repito os mesmos movimentos, noite após noite, mês após mês, ano após ano. Já passei dos 30 há muito, muito tempo atrás, e francamente não estou nem aí!

Eu finalmente me conheço, sei o que sou verdadeiramente, e finalmente entendo que eu sou o topo da cadeia alimentar!

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Cadeia Alimentar - Parte II


A última semana é um borrão de lembranças sensoriais e flashbacks brutais. Ondas de dor lancinante, fome intensa e recorrente, e a resignação anestésica com a metamorfose de meu corpo. Eu daria qualquer coisa para já ter feito 30 anos. Ao invés disso, meu corpo está preso nesta morte-em-vida: minhas unhas pontudas estarão sempre com o mesmo tamanho, o ninho de ratos que é o emaranhado de meus cabelos estará sempre com o mesmo comprimento patético, e meu rosto vai estar esmagado da mesma forma todas as manhãs. Eternamente.

Após uma semana de espasmos, rastejando e lambendo o sangue do chão, após uma eternidade sendo incapaz de me afastar daquele horror dentro do espelho, eu finalmente acordei em um outro lugar. Algum lugar subterrâneo, com água corrente e o distinto odor de urina. Tremendo, eu me levanto sobre meus pés deformados, equilibro-me nos saltos agora quebrados e inúteis, e me cubro com o cobertor de lã que meu demônio deixou para mim. Estou sinceramente agradecida pela melhora. A blusa de seda e a minissaia da sorte ainda estão comigo, para me lembrarem de quem eu era, mas a suntuosa carne que me fazia ser reconhecida como “fêmea” já se atrofiou quase toda. Eu não sei mais o que sou. Mais uma vez, com o canto dos olhos, eu percebo que o demônio está me olhando sem ser visto. E está tão frio. Tão gelado.

Um rato corre para longe de mim, indiferente à minha presença, e por um momento eu posso sentir a energia e a vida pulsando dentro dele. Os nervos se contorcem, seu sangue pulsa, e a fome cresce dentro de mim novamente. Não é fome de carne, ou mesmo de sangue, mas de vida, para que eu possa continuar animando esta casca atrofiada que é o meu corpo. Intuitivamente meu corpo se agacha para que eu libere uma onda de piedade e misericórdia do fundo do meu coração atrofiado. A pequena criatura pára no seu caminho, olha para mim e então corre para cima de meu ombro, para arrastar seu pêlo coberto de feridas e crostas em mim.

Meus dentes são afiados e rápidos. A bile fria e nauseante obstrui minha garganta. Minha mandíbula estremece, e eu devolvo o que sobrou da carcaça do animal ao turvo e agitado rio de fezes que flui ao meu lado. À distância, eu sinto a aprovação do meu criador. Acabei de passar no primeiro teste. “A vida é uma merda”, penso reflexivamente. “Mas agora estou morta”.

O demônio nunca aparece para mim. Ele apenas me conduz, como naquela primeira noite na boate. Eu não tenho idéia do porquê. Talvez ele tenha toda a eternidade diante de si e isso o entretenha. Talvez tenha planos para mim. A maior parte do tempo ele não parece se preocupar se eu serei morta ou se meu corpo trôpego vai apenas parar de se mover por completo, mas me olha cuidadosamente, como um pai cruel e exigente. Talvez eu seja um elemento descartável em algum de seus planos, mas isso não importa. A maior parte da minha atenção está focalizada em memorizar os caminhos nestes túneis subterrâneos, escondendo-me dos passos acima do solo e planejando novas maneiras de conseguir sangue. Eu sei que, se eu falhar, meu demônio me matará. Se não ele, então qualquer ser humano que me encontrasse com certeza iria querer me matar.

Mas esta noite estou de volta em minha antiga área de caça. Chega de sangue de rato. Eu subi na cadeia alimentar. Eu me agacho nas sombras de um beco, contando quantos passos de distância me separam do bueiro atrás de mim (caso eu precise fugir). As sombras me envolvem – com um pensamento eu consigo enrolar camadas de escuridão em torno de mim, como eu fazia com o cobertor de lã que joguei fora há uma semana. Eu me agacho como um animal, como uma fera, como o monstro que sou, e mais uma vez, através de camadas e mais camadas de dor, eu abro meu coração negro com sentimentos de “necessidade”, “piedade” e “misericórdia”. Parece que eu tenho um certo talento para isso!

No intervalo de uma batida do coração (pelo menos do meu ponto de vista, já que o meu não bate mais), um tolo tagarelante que vagava pela rua, a cerca de 15 metros de distância pedindo esmolas, está olhando para dentro do beco. Há minutos atrás, ele estava lançando impropérios às pessoas que passavam por ali. As pessoas vivas, felizes e que respiram, passam bruscamente por ele, como se fosse invisível. De certo modo, projetar uma onda de “simpatia” não exige muito esforço. Ele cambaleia em direção ao meu esconderijo, provavelmente imaginando porque pensou que poderia haver algo de útil por aqui, abandonando completamente todos os seus instintos sensatos.

A escuridão me cerca e meus dentes são rápidos. Eu abro meu caminho para o interior de seu pescoço, seu peito, e subo ainda mais na cadeia alimentar. Eu estou fria. Tão gelada. Mas enquanto seu sangue e sua vida fluem pela minha garganta, sou preenchida pelo calor, mamando em seu pescoço até que o saco de carne fedida cai sem vida.

Um animal tem que matar para sobreviver, e se aprendi alguma coisa nas últimas semanas, foi isso: certamente não sou mais humana. Sou muito menos e muito mais!

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Cadeia Alimentar - Parte I


A música parece sempre a mesma para mim agora. Sentada na mesma boate em outra noite de quinta-feira sem sentido, eu já nem me importo mais se o som é New Wave, Old Wave, Gótico, Industrial ou outra mistura horrorosa de Tecno com Dance – não consigo nem mais diferenciá-las. Os mesmos ritmos pulsantes sacodem as janelas revestidas de preto da casa noturna, os mesmos corpos jovens e esguios se contorcem sob a ribombante batida da música e, mais uma vez, eu cuido da minha cerveja aguada, olhando para a massa de carne suada diante de mim como já fiz em tantas noites passadas. Noites demais para se contar.

O preto ainda está na moda – como sempre – então eu me sento em um canto, com a minissaia de couro preto comprimindo desconfortavelmente as minhas coxas. Quando eu era mais jovem como as outras garotas na pista de dança esta noite, minhas pernas eram meu maior patrimônio. Agora eu só tenho um... bem, vocês sabem. Uma bunda enorme aquecendo um banquinho desconfortável!

Balanço meus pés para frente e para trás dentro de um par de saltos do tipo “derrube-me e me possua”, tomando outro gole de cerveja. Quando eu era mais jovem, noites como esta pareciam grandes aventuras. Agora, é claro, estou à beira dos 30 e a piada ficou velha, assim como eu. Meu turno da manhã, processando cheques no banco em mais uma “maldita-manhã-de-sexta” está a apenas seis horas de distância. Posso sentir um cronômetro marcando o tempo como uma bomba-relógio dentro de mim. O tempo está acabando, querida. O tempo está acabando.

Sorrio enquanto outro cara passa...

Espero que ele se vire e volte...

Talvez espere que ele não o faça!

Onde foi que eu errei?

Não me entenda mal, conseguir companhia por algumas poucas horas não é o problema. Uma vez que você reduz as suas expectativas o suficiente, tudo é possível. Mas as milhares de noites de quinta-feira (ou sexta, sábado, domingo, segunda...) que eu imaginava estarem à minha frente quando eu tinha 15 acabaram! Não importa qual seja o padrão para ir a uma boate – eu sou uma pária, pela idade e pela aparência, caçando aquilo que eu consigo pegar na base da pirâmide social, perto do final da cadeia alimentar. Eu não posso mais competir com as “Barbies” impossivelmente magras que me cercam...

Barbie e suas amigas estão usando muito preto esta noite – divulgando o estilo retro que abandonei quando eu tinha 17. Talvez esteja na moda de novo e eu nem mesmo saiba. Oh, Deus! Será que estou tão velha assim? É tão visível assim? Não... Não atrás da máscara que eu uso! Minha maquiagem está imaculadamente perfeita – uma cuidadosa mistura de branco pálido com o batom preto da própria Morte. Meu cabelo está arrumado do mesmo jeito que o de uma rainha gótica, das quais as crianças daqui nem devem se lembrar mais. Eu também estou usando minha calcinha da sorte, apesar de sua sorte ter se esgotado há muito, muito tempo atrás. Quando eu começo a suar por causa do calor e da energia desesperada da boate, percebo que chegou aquela hora da semana quando vou para a pista de dança e uso a única habilidade negociável que ainda possuo.

Eu danço.

Uma vez que o movimento começa, minhas dúvidas desaparecem. Eu não ligo para quão pretensiosa é a rotina de realizar as mesmas poses toda semana pela milésima vez em mais uma boate idiota. Eu esqueço das rodopiantes nuvens de angústia adolescente que me cercam. A música que penetra em meu crânio soa vagamente industrial, mas eu sequer paro para pensar no que realmente é. Eu só espero que alguém venha e me leve para longe de tudo isso, e é melhor que ele venha fazer isso imediatamente. Se minha dança não funcionar, sei como a noite vai acabar: vou cambalear até minha casa para cuidar de meus gatinhos, lerei as partes picantes de outro romance erótico e sonharei com meu suicídio.

Por piedade: alguém acabe com isso!

Com o canto dos olhos percebo que meus movimentos realmente conjuraram alguém. Cabelos pretos, calças pretas, camisa de uma banda que eu não consigo identificar e botas lindas “de morrer”. Ele atravessa a pista de dança, diretamente até onde estou, desfilando pela boate como se realmente pertencesse àquele meio, apesar do pequeno ankh de prata que traz pendurado em seu pescoço. Há quanto tempo aquilo saiu de moda? E ainda por cima está usando óculos escuros aqui dentro.

Perdedor!

Igualzinho a mim!

Ele passa por um garoto magricelo cheio de pose, e repentinamente vira de costas para mim para dar um susto no “mauricinho”. O moleque pula para trás, derrubando sua bebida enquanto corre para a porta. Sim, eu conheço esse tipo. Ele acha que é o “Amante Infernal”, mas eu acho que ele está levando a brincadeira gótica longe demais. Como se eu pudesse falar alguma coisa...

Mas... perdedor ou não... até que ele é bonitinho...

Algumas Barbies tentam chamar sua atenção, mas ele age como se soubesse que estou olhando para ele. “Noite de amor piedosa?”, penso comigo. Mas chega: ele está vindo na minha direção. Minha dança do desespero continua, mesmo sem que eu saiba qual música está tocando (como se isso importasse). Oh, Deus, deve ser a noite do flashback – estão tocando “Tin Omen” de novo. Ele faz pose na minha frente e lança sua cantada. Eu sequer consigo ouvi-lo; apenas rio e continuo dançando. Ele é bonito o suficiente para matar o tempo até que eu tenha que voltar para casa. Que casa? Eu não ligo mais porque já estou zonza – tanto pelas bebidas caras quanto pelo meu “Amante Infernal” na minha frente. De pé ao meu lado. Me segurando. Sou fácil demais e nem ligo!

Pouco tempo depois, nós saímos da pista de dança. Dois drinques e um redemoinho de músicas ruins depois, ele está me levando para fora, e eu sigo seus passos. Qualquer coisa para sair desse lugar. As paixões que senti com tanta intensidade há 10 anos atrás começam a ressurgir agora, mas elas não me surpreendem mais. Eu já passei por esta dança muitas vezes, seguindo os mesmos movimentos uma vez mais, demonstrando que permito que ele me guie até o seu carro.

Oh, um carro esporte! Como estou surpresa...

Eu rio e tropeço com o tempo calculado enquanto me abaixo até o banco do carro, cambaleando sobre meus saltos. O cinto de segurança estala no lugar, e eu ajusto minha minissaia preta para obter o máximo de efeito. Momentos depois ele se senta no banco do motorista, e eu deixo tudo correr do modo mais rápido. Não preciso mais do cinto de segurança... ele já me prendeu... e sou tomada por um curto de adrenalina enquanto ele se reclina para beijar meu pescoço, me imprensando contra o banco de couro. Apertando com muita força.

É um sonho. Rapidamente seguido de um pesadelo. Estou sangrando!

Sinceramente, não consigo me lembrar do que aconteceu depois. Penso que senti algo que deveria ser no mínimo erótico nos minutos seguintes. Talvez tenha sido medo intenso, a rendição à uma força avassaladora ou pelo menos dor. Eu só me sinto anestesiada. Assim deve ser melhor. Eu me lembro de uma quantidade horrível de sangue. Sangue até demais, jorrando pelo rosto do meu amante, sobre seus lábios, sobre meus lábios? Eu não sei. Algo horrível aconteceu, porque me lembro de ter olhado para o seu rosto em um dado momento, quando ele já não era mais tão terrivelmente lindo...

Talvez seja minha mente que o tenha reconstruído como algo horrendo. Após sairmos da boate, sua colônia tinha um odor muito pior do que o habitual. De qualquer modo, era impossível tolerar aquele cheiro. Depois de ter começado, o Amante Infernal se foi, deixando-me com um demônio agachado sobre meu corpo inconsciente. Minha mente se lembra dele como se fosse algo saído de um daqueles filmes muito antigos. Pele cinza, dentes afiados, unhas compridas e o fedor de esgoto. Ele fedia como uma coisa morta, fria e trêmula. Ou será que isso vinha de mim? Ou isso sou eu agora?

Meus olhos estão fechados e o chão de concreto debaixo de mim é muito duro. Tão frio. Tão gelado. Minhas entranhas parecem ter atrofiado, minha pele coça terrivelmente, e minha garganta está seca e... sedenta! Luzes brilhantes piscam ao meu redor. Então eu cometo o pior erro da minha vida. Um erro muito pior do que ter sentado no banco de passageiro daquele carro esporte...

Eu abro meus olhos!

Sabe, quando eu tinha 14 anos, costumava sonhar com o vampiro Lestat vindo e me levando para longe de tudo. Você poderia dizer pelo modo como estava vestida ontem a noite que eu fantasiava sobre vampiros, e meu Amante Infernal provavelmente percebeu isso. Não me admira então sua cantada ter sido tão bem ensaiada. Eu nunca havia sonhado que seria deste jeito...

Diante de mim está um espelho perfeito, com seis metros de largura. Minhas coxas grossas são o menor dos meus problemas agora. Meu cabelo negro como um corvo, que de modo algum se comportava como eu queria, é agora uma massa imunda e emaranhada, caindo aos tufos. Meus dentes, que eram como pérolas e que eu escovava fielmente quatro vezes por dia, apodreciam diante dos meus olhos. Camadas de pele apodreciam, tornando-se lentamente algo parecido com a carapaça de um réptil. Quantas vezes eu olhei para meu rosto procurando pela menor imperfeição ou espinha? Algo bastante discutível para se fazer agora...

A inútil blusa de seda que eu vestia (a sei lá quanto tempo) agora se enrolava ao redor de um peito escavado, e minhas pernas se atrofiavam dentro da minissaia de couro. Meus olhos afundaram em suas órbitas.

Então eu percebo que não estou mais respirando.

O rosto que eu estava acostumada a encarar todas as manhãs, tardes e noites, cuja menor das falhas era parte integrante da minha identidade, se foi. Se meu nariz era pequeno demais ou se meus lábios eram muito grossos, e todas as malditas dicas de maquiagem que acumulei ao longo dos meus anos de adolescência, tudo isso era irrelevante agora! Repentinamente, me senti uma besta por ter gasto tanto tempo com minha vaidade, porque não importava o quão mal eu estava de manhã ao acordar – aquilo era infinitamente melhor que a coisa escavada, escamosa, com olhos fundos e boca larga que eu via agora, no espelho diante de mim...

Eu não sou mais eu. Eu não posso mais ser eu mesma. Eu tenho que me tornar outra pessoa. Porque se não fizer isso, ficarei completa e delirantemente louca!

O demônio de que me lembro, agachado sobre meu corpo, não foi fruto da minha imaginação. Era real. E eu posso ver no espelho que ele se aproxima por trás de mim, mas estou fraca demais para me virar. Eu quero odiar. Cuspir na sua cara horrenda. Ou pelo menos resistir. Mas então a primeira onda de dor banha meu corpo.

E o pesadelo continua...

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Camões e a Crise na Zona da Euro!

                                I


As sarnas de barões todos inchados
Eleitos pela plebe lusitana
Que agora se encontram instalados
Fazendo o que lhes dá na real gana
Nos seus poleiros bem engalanados,
Mais do que permite a decência humana,
Olvidam-se do quanto proclamaram
Em campanhas com que nos enganaram!

                                II

E também as jogadas habilidosas
Daqueles tais que foram dilatando
Contas bancárias ignominiosas,
Do Minho ao Algarve tudo devastando,
Guardam para si as coisas valiosas
Desprezam quem de fome vai chorando!
Gritando levarei, se tiver arte,
Esta falta de vergonha a toda a parte!

                              III

Falem da crise grega todo o ano!
E das aflições que à Europa deram;
Calem-se aqueles que por engano
Votaram no refugo que elegeram!
Que a mim mete-me nojo o peito ufano
De crápulas que só enriqueceram
Com a prática de trafulhice tanta
Que andarem à solta só me espanta.

                             IV

E vós, ninfas do Coura onde eu nado
Por quem sempre senti carinho ardente
Não me deixeis agora abandonado
E concedei engenho à minha mente,
De modo a que possa, convosco ao lado,
Desmascarar de forma eloquente
Aqueles que já têm no seu gene
A besta horrível do poder perene!


      Luiz Vaz Sem Tostões - Texto anônimo, recebido por e-mail

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Amor nos tempos dos Grilhões...


Era um sonho dantesco... o tombadilho,
Tinir de ferros... estalar do açoite...

Legiões de homens negros como a noite, 
Horrendos a dançar...

Negras mulheres, levantando às tetas 

Magras crianças, cujas bocas pretas 
Rega o sangue das mães: 
Outras, moças... mas nuas, assustadas, 
No turbilhão de espectros arrastadas, 
Em ânsia e mágoa vãs.

Um de raiva delira, outro enlouquece... 

Outro, que de martírios embrutece, 
chora e dança, ali.

Senhor Deus dos desgraçados! 

Dizei-me vós, Senhor Deus! 
Se é loucura... se é verdade 
Tanto horror perante os céus...

Quem são estes desgraçados 

Que não encontram em vós 
Mais que o rir calmo da turba

Dize-o tu, severa musa, 

Musa libérrima, audaz!

São os filhos do deserto 

Onde a terra esposa a luz. 
Onde voa em campo aberto 
A tribo dos homens nus...

São os guerreiros ousados, 

Que com os tigres mosqueados 
Combatem na solidão...
Homens simples, fortes, bravos...
Hoje míseros escravos 
Sem ar, sem luz, sem razão...

Lá nas areias infindas, 

Das palmeiras no país,
Nasceram crianças lindas,
Viveram moças gentis...
Passa um dia a caravana 
Quando a virgem na cabana 
Cisma das noites nos véus...
...Adeus! ó choça do monte!...
...Adeus! palmeiras da fonte!...
...Adeus! amores... adeus!...

Senhor Deus dos desgraçados! 

Dizei-me vós, Senhor Deus! 
Se é loucura... se é verdade 
Tanto horror perante os céus...

Ó mar, por que não apagas 

de tuas vagas 
De teu manto este borrão? 
Astros! noite! tempestades! 
Rolai das imensidades! 
Varrei os mares, tufão!...

E existe um povo que a bandeira empresta 

P'ra cobrir tanta infâmia e covardia!... 
E deixa-a transformar-se nessa festa 
Em manto impuro de bacante fria!...
Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta, 
Que impudente na gávea tripudia?!...

Auriverde pendão de minha terra, 

Que a brisa do Brasil beija e balança,

Antes te houvessem roto na batalha, 

Que servires a um povo de mortalha!...

...Mas é infâmia demais...

Da etérea plaga
Levantai-vos, heróis do Novo Mundo... 
Andrada! arranca este pendão dos ares! 
Colombo! fecha a porta de teus mares!

O Navio Negreiro, de Castro Alves




Não me lembro direito...

Neste momento, não vem a noção de tempo e nem de espaço...

Lembro-me apenas dos fatos!

Mas uma coisa é certa: se me lembro dos fatos é porque presenciei tudo no passado... ou será que acontecerá no futuro?

Lembro-me da boca salgada pela maresia e das costas lanhadas pela tempestade. Lembro-me também do desembarque, engolindo água; e do meu corpo boiando com as águas, arrastando folhas, conchas, areia...

Lembro-me do choro das crianças e dos corpos flutuando sem vida, tingindo de vermelho as ondas que me empurravam para a costa, enquanto peixes famintos os devoravam...

E, apesar de tanto horror, não posso me esquecer da incrível beleza dos coqueirais, nem dos arrecifes que formavam piscinas naturais! Não dá para esquecer a floresta exuberante, o mangue e a areia fina, quente e branca que acariciava meus pés...

Acho que foi assim que cheguei ao Novo Mundo!

Nua... exausta... faminta... assustada... encantada... aliviada!

Lembro-me de ter sido levada até um vilarejo, de casas simples e ruas de pedras brutas, iluminadas por tochas acesas, onde ocorria uma grande feira livre...

Lembro-me daquela fartura de alimentos, do cheiro gostoso das frutas, e dos olhares daqueles senhores bem trajados, admirando meu corpo negro, despido de roupas e de vergonha...

Tenho que confessar que gostei...

Pela primeira vez em minha vida, fui tratada como uma princesa, sendo cortejada por dezenas de compradores. Mas a minha satisfação não se refletia no rosto de Aysha. Seu olhar transmitia um misto de ódio e angústia, prestes a explodir numa combustão repentina...

Ela era uma garota muito bonita. Tinha mãos grandes, pernas grossas, bumbum enorme, seios fartos e cintura minúscula, com lábios carnudos e feições delicadas. Mas era seu olhar que me impressionou. Parecia uma leoa, selvagem e imponente, capaz de abater sua presa em segundos...

Apesar do contraste, um único comprador escolheu nós duas.

Era um senhor de mais ou menos cinqüenta anos, bem trajado, com fartos bigodes brancos e um semblante neutro, acompanhado por um assistente baixinho e asqueroso, com rosto que lembrava um rato. Nosso novo dono ordenou:

- Vista as duas e vamos embora, Nicolau...

- Sim, senhor Joaquim! O senhor fez uma boa escolha!

- É claro que fiz... vamos!

Nicolau cobriu nossos corpos com túnicas negras e nos levou até sua carroça, onde permanecemos por umas duas horas, sacolejando entre galinhas d’angolas e frutas frescas. Eles permitiram que nos alimentássemos com duas suculentas goiabas.

Durante a viagem, tentei conversar com ela:

- Oi... meu nome é Malika... E o seu?

- Me chamam Aysha...

- Prazer, Aysha! Não se sente contente por ter sido escolhida por um bom homem?

- De onde vim, não tinha o costume de ser tratada assim...

- Mas estamos sendo bem tratadas...

- Você sabe o que eu quero dizer...

Não consegui arrancar mais nenhuma palavra dela por cinco dias!

O Senhor Joaquim nunca encostou a mão em nós. De fato, em sua mansão, não éramos tratadas como escravas. Apesar de ter obrigações a cumprir, tudo era compensado por muitas mordomias.

Fomos compradas para trabalhar atuando em peças teatrais para um público selecionado. Simplesmente a elite! Capitães, Coronéis, Fazendeiros...

Semanalmente, encenávamos peças gregas, permeadas de muito sexo explícito e humor!

Eu representava meu papel e era prazeroso para mim!

Sentia que era desejada por aqueles homens poderosos!

E invejada por suas mulheres branquelas sem-graça!

Mas Aysha não sentia a mesma coisa. Ela chegou a passar mal e nos fez cancelar dois espetáculos...

O Senhor Joaquim ficou furioso como eu nunca tinha visto, e disse que se ela não melhorasse seu desempenho, iria ser trancada e abandonada dentro de um formigueiro!

Uma bela manhã, na senzala, perguntei se ela enxergava o fato de muitas escravas implorarem para estar no lugar dela. Ela não respondeu com palavras, mas seu olhar disse tudo. Eu insisti:

- Me diz, Aysha, porque toda esta angústia? Toda essa tristeza?

Para minha surpresa, pois estava acostumada a ser ignorada por ela, desta vez Aysha respondeu:

- Se você enxergasse as coisas como eu enxergo, talvez entenderia...

- E como você enxerga?

- Vou lhe responder com outra pergunta: o que é o amor para você?

Não pude conter uma gargalhada...

- O amor é uma piada sem graça! Vivo muito bem sem isso! E para você, o que é o amor, hein? Me diz o que é o amor...

- Respondo-lhe depois... Antes, peço que busque lá em seu âmago, a imagem da primeira pessoa que vem à sua cabeça...

Fiz o que ela mandou. Fechei meus olhos e pensei na primeira pessoa... A imagem surgiu com tanta clareza quanto o real. Era um lindo jovem negro, careca e musculoso, com um sorriso maravilhoso, usando roupas de caçador e empunhando uma lança afiada, emanando uma luz intensa...

Somente depois de alguns segundos sua luz clareou minha memória e me fez lembrar quem era... Uma pessoa muito importante para mim no passado... Permaneci em transe, mas consegui esboçar algumas palavras trêmulas:

- R-res...ponda-me... o... que é... o amor...

Aysha segurou minha mão direita e a levou até seu seios, ordenando:

- Toque-me!

- M-mas... o que... você... está... fazend...

Meu corpo estremeceu, num súbito voejar de sentimentos e extasiantes sensações ao sentir meus pêlos pubianos eriçando sobre a minha pele, como se fossem pequenas árvores prestes a serem arrancadas do solo úmido e quente por uma forte ventania...

Ainda com os olhos fechados, vi meu gozo rodopiar incessantemente dentro de minha grutinha...

Suas mãos inquietas enroscaram em meus cabelos, assim como sua língua percorria meu corpo, me bebendo toda, me deixando zonza de tanto prazer...

Senti algo estranhamente diferente do que sentia durante as relações sexuais mecânicas que mantinha com meus amos...

Senti algo verdadeiro!

Senti que podia olhar e ir adiante!

Senti que podia ir além e que o infinito é só o começo!

Enfim, senti minhas pernas fraquejando... e meu corpo sendo tomado por tremores incontroláveis, enquanto meu sexo escorria um líquido farto por minhas coxas...

Ainda ofegante, vi Aysha se afastar de mim, limpando sua boca com as costas das mãos, e dizendo friamente:

- Isto, Malika... é o amor!

Me senti atordoada e permaneci calada o resto do dia. Fiquei sem entender o que Aysha havia feito comigo.

Ao anoitecer, encontrávamos no camarim, nos preparando para o show daquela noite. Angustiada como sempre, disse que não iria atuar de novo.

- Não diga isso, Aysha... Você é muito estranha, sabia? O que fez comigo pela manhã? Sinto-me mal até agora!

- Apenas te mostrei o que realmente penso e sinto... Não suporto viver dessa maneira! De onde vim, não existem pessoas vendendo outras como mercadorias! Não há comércio de sexo! As pessoas vivem livremente para fazer o que quiser! O contato com a natureza fazia de nós pessoas mais humanas!

- Foi lá com seu povo que você aprendeu tudo o que sabe sobre o amor?

- Claro! Aqui as pessoas tratam o prazer como um elemento isolado! Lá, o prazer é visto como mero coadjuvante, intimamente ligado ao amor!

Naquele exato momento, o Senhor Joaquim e o seu assistente Nicolau entraram no camarim. Pelo visto, estava muito bravo...

- Andem logo vocês duas... Estamos com a casa cheia e o show está atrasado!

Aysha se levantou da cadeira e falou:

- Eu não atuarei hoje, Senhor Joaquim... Desculpe...

Ela não devia ter dito aquilo, pois o Senhor Joaquim não estava num dos seus melhores dias. Ele agarrou os cabelos dela, puxando-os como se fossem rédeas, e bradou:

- Ora, sua vadia! Não me faça perder a paciência contigo!

Em seguida, esbofeteou seu rosto, a ponto de deixar a marca de seus dedos em suas bochechas. Nunca vi tanto ódio no olhar de Aysha!

Ajudei-a a ficar em pé, e nós duas fomos para o palco, onde os outros atores já nos aguardavam. Aysha permanecia em silêncio, fulminando o Sr. Joaquim com seu mais assustador olhar ferino...

O mestre de cerimônias anunciou:

- E COMEÇA AGORA O MAIOR ESPETÁCULO DE TODOS OS TEMPOS! VEJAM, SENHORAS E SENHORES, A GUERRA DE TRÓIA!!!

As cortinas se abriram e lá estávamos todos nós, representando soldados gregos e troianos, empunhando espadas e bordunas...

Neste momento, o Sr. Joaquim, sentado no seu trono no centro do palco, interpretando o Rei Xerxes, percebeu o grande erro que cometera, ao dar uma espada verdadeira para Aysha...

Rápida como um leopardo, minha amiga correu em direção dele com a espada em punho, e num movimento perfeito, cravou a lâmina afiada nas entranhas de nosso dono. Antes de morrer, Joaquim ainda tentou segurar suas próprias vísceras, mas era tarde... Não havia nada a ser feito!

Aysha tentou usar a mesma espada outra vez, mas a arma prendeu-se nos ossos da costela de seu algoz, e ela não teve forças para sacá-la, antes que as lanças afiadas dos seguranças do teatro trespassassem seu lindo corpo em oito pontos diferentes...

Desesperada, me levantei e abracei o que restou de Aysha...

Seu sangue quente banhou meu corpo...

E minhas lágrimas lavaram seu rosto bonito...

As cortinas se fecharam...

E o público aplaudiu de pé... por vários minutos...

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Decadência...


Lembro-me daqueles dias...

Lembro-me do êxtase... do delírio... do frenesi da multidão...

Aquilo me alimentava, sabe?

Sentia-me forte! Indestrutível! Tive o mundo aos meus pés!

Bah, quanta inocência! É assim que vejo hoje...

Se não fosse esta merda toda, eu não estaria aqui, tentando escrever canções sem sentido e transando com putas decadentes...

Meus amigos não eram ambiciosos...

Fazíamos apenas um som de garagem, sabe?

Mas eu... Ah, eu queria mais! Muito mais do que isso!

Queria deixar São Gabriel... Queria deixar o Rio Grande do Sul!

Queria correr o mundo!

Foi então que ela apareceu...

Como um anjo! Um anjo maldito!

Carro importado. Perfume importado. Tailleur importado. Cabelos curtos, dourados, perfeitamente alinhados, emoldurando um rosto angelical. Seios pequenos, bumbum grande. Ótima combinação anatômica! Seu sorriso iluminou a pista da Clocks – única casa noturna de São Gabriel.

Mas eram aqueles olhos...

Cara, não sei dizer mas... Havia algo de estranho naqueles olhos!

Depois do nosso show, a loira nos convidou para tomar tequila. Foi a primeira vez que experimentei o néctar asteca! Na época, eu tinha apenas 17 anos, e além de cerveja, só havia experimentado vodka ruim...

Não preciso dizer que minha cabeça rodou já no primeiro “shot”...

Não preciso dizer que aquele não foi o único “shot” da noite...

Bebemos... e bebemos... e bebemos...

Depois disso, tudo se passou em flashes...

Me lembro de estar na pista da Clocks beijando aquela loira...

Depois me lembro de estar no banco de trás de um carro em movimento, sendo agarrado por outras duas loiras seminuas...

E também me lembro de estar deitado num quarto de motel, com uma morena escultural, rebolando em meu pau, gemendo baixinho, enquanto arranhava meu peito...

Não sei como, mas acordei deitado em minha cama, ainda na casa dos meus pais, com uma puta dor de cabeça!

Ainda hoje me lembro daquela ressaca braba!

Vomitei tudo o que havia no meu estômago, além de tomar todos os analgésicos que haviam em casa, mas nada funcionou!

Foram três dias enfurnado em meu quarto escuro...

Mas ao sair do casulo, percebi que algo havia mudado!

A rádio local estava tocando a nossa música... e os comentários dos ouvintes era o melhor possível!

Nossa fama se espalhou rápido pelas cidades vizinhas, e em menos de um mês, estávamos tocando em Porto Alegre...

Depois vieram Florianópolis, Curitiba, São Paulo, Rio de Janeiro, Nova York, Londres, Manchester, Amsterdã, Tóquio, Pequim e Sidney!

Tudo cresceu repentinamente!

Luzes, glamour!

O sucesso veio rápido, fulminante, inebriante!

Mulheres! Multidões!

Foi divertido... enquanto durou...

E durou tão pouco!

A sombra daquela loira estava sempre ao meu lado...

Lembrando-me do acordo que assinei naquela maldita noite!

Hoje, sou apenas um velho bêbado, a espera do inevitável...

Logo ela estará aqui novamente...

O anjo maldito!

Para cobrar a minha dívida...

Bem... hora do show!

Levanto-me lentamente da cama, para não acordá-la. Calço os chinelos e visto a bermuda. Vou até a cozinha do minúsculo apartamento.

Entre pratos sujos e panelas com resto de comida da semana passada, encontro Emanuele. Ou simplesmente Manú. Minha faca de churrasco predileta. Cabo de madeira escura, lâmina de aço inoxidável perfeitamente afiada, capaz de fatiar uma costela na brasa com a mesma facilidade com que passo manteiga nos cacetinhos da padaria da esquina!

Volto para o quarto e vejo que Thábata ainda está dormindo...

Cara, como odeio estes nomes, sabia?

Tá na cara que esta nordestina não se chama “Thábata”. Deve ser “Maria do Perpétuo Socorro” ou algo do gênero! Mas como dificilmente conseguiriam ser sexy com seus nomes de batismo, decidem usar nomes como “Thábata”, “Jennifer” ou “Suellen”...

Baixinha, atarracada, cabelos cacheados pintados de loiro platinado, olhos castanhos e pentelhos pretos, além é claro da barriguinha de verme, denunciando ter passado fome por vários anos antes de decidir ir para a esquina e se transformar em “Thábata”...

Devia ter sido uma menina bonita, com um corpão, já que até hoje, tem uma bunda grande e seios fartos. Mas o tempo foi cruel com ela, e tudo o que é “grande”, acaba amolecendo... criando estrias e celulites...

Para mim ainda está bom... mas há duas horas atrás, enquanto fodia a cadela, não pude deixar de rir ao ver o “efeito terremoto” sobre a pele, a cada estocada!

Opa, ela está acordando...

Com a maquiagem borrada e o cheiro de perfume barato, elas conseguem ficar ainda mais feias...

Mas são úteis...

- Olá, princesa... dormiu bem?

- Oi, amor... O que faz acordado? Ainda é madrugada...

Inegavelmente, o show deve continuar...

- Thábata... precisamos conversar...

Todas as noites são iguais...

As dez da noite, abro a primeira garrafa de uísque nacional barato...

A meia-noite, começa o show em alguma casa noturna que promove uma “festa flashback”, relembrando os meus velhos sucessos...

As duas da manhã, termino a segunda garrafa de uísque e empilho a 30ª lata de cerveja sobre a mesa. Dou um “tiro” para acordar...

As duas e meia, circulo pela cidade, a procura de outra “Thábata”...

As três e meia, elas dormem, com o rabo ainda melado...

As quatro, eu me levanto, pego a Emanuele, e volto para o quarto...

Para a nossa “conversa”...

As quatro e dez, elas gritam, tentando fugir...

As quatro e doze, elas gritam de dor, quando a lâmina começa a dilacerar sua carne...

As quatro e quinze, elas morrem...

As quatro e meia, seus corpos estão embalados em pequenas porções, devidamente acomodadas em minha geladeira...

Este foi o meu acordo com a loira...

Uma alma impura por dia... em troca da minha!

Assim devo pagar...

Eternamente...

Por ter sido tão inocente...

É, meu caro...

A boa vida tem seu preço!

Mas devo confessar...

Até que eu gosto disto, sabia?



I can't get no satisfaction
I can't get no satisfaction
'Cause I try and I try and I try and I try
I can't get no
I can't get no

When I'm drivin' in my car
And that man comes on the radio
He's tellin' me more and more
About some useless information

Supposed to fire my imagination
I can't get no, oh, no, no, no
Hey, hey, hey, that's what I say

I can't get no satisfaction
I can't get no satisfaction

'Cause I try and I try and I try and I try
I can't get no
I can't get no

When I'm watchin' my TV
And that man comes on to tell me
How white my shirts can be
But he can't be a man 'cause he doesn't smoke
The same cigarettes as me

I can't get no, oh, no, no, no
Hey, hey, hey, that's what I say

I can't get no satisfaction
I can't get no girl reaction
'Cause I try and I try and I try and I try

I can't get no
I can't get no

When I'm ridin' round the world
And I'm doin' this and I'm signing that
And I'm tryin' to make some girl
Who tells me baby better come back later next week
'Cause you see I'm on losing streak

I can't get no, oh, no, no, no
Hey, hey, hey, that's what I say
I can't get no, I can't get no

I can't get no satisfaction
No satisfaction, no satisfaction, no satisfaction
I can't get no


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Encontro Marcado


Sob o silêncio das três horas, o velho Assassino sentiu que a Morte viria buscá-lo naquela madrugada.

Seu coração estava disparado, mas não era medo.

Era ansiedade.

Saltou da cama e foi até o guarda-roupa, vestir seu melhor terno. Em seguida, abriu a janela devagar e deixou que o frio da noite entrasse em seu quarto, como faria um hóspede gentil.

A cidade de Redruth, coberta de névoa, dormia tranqüila, ninada por uma dúzia de estrelas. Mas no horizonte, viu uma nuvem carregada flutuando sob as montanhas.

Pensou em voz alta:

- Será que Ela virá antes da neve?

Uma voz meiga, que não era de homem ou de mulher, sussurrou:

- A neve não virá esta noite...

O Assassino olhou para o outro extremo do quarto, onde uma figura esguia lhe observava em silêncio, silhuetada contra a janela e o céu noturno.

Parecia um ser humano prateado, sem qualquer roupa, com traços masculinos e femininos (mas nenhum indício de seu sexo), completamente careca e um rosto sem boca, nariz ou orelhas. Apenas um par de olhos grandes e pastosos como um peixe morto.

- Eu estava esperando por você... Esperei por muito tempo!

A criatura metálica perguntou:

- E quem seria eu?

O velho Assassino sentou-se na cama com dificuldades. Prosseguiu:

- Quando eu era jovem, sonhava com você... Na minha infância, sobre o cadáver da minha mãe, você veio a mim e me olhou em silêncio. Eu persegui sua sombra pelo mundo! Pelos cemitérios e campos... Nos becos das metrópoles e nas aldeias remotas... Dentro da noite e sob as chuva, segui teu rastro... Mas foi no calor de meu primeiro assassinato, quando senti seu hálito em meu rosto, é que te reencontrei... meu belo Anjo da Morte! Finalmente, partiremos juntos...

A criatura olhou-o com ternura. Uma vela iluminou-lhe o rosto pálido.

- Por que me procurou, se estive ao seu redor o tempo todo? Quando a solidão lhe assombrou, não fiz-lhe companhia? E quando o amor voltou-lhe as costas, minhas asas não lhe serviram de refúgio? E nas horas de embriaguez, no sol poente, não conversamos em silêncio tantas vezes? Somos íntimos, caríssimo! Fui sua sombra e seu espelho... E, a partir desta noite, estarei diante de ti para sempre, para que não tenhas que me buscar mais...

O Assassino ouviu atento cada palavra proferida no quarto escuro, mas espantou-se. “A Morte não iria levá-lo”? Balbuciando, questionou-a:

- M-mas... meu Anjo da Morte...

- Não! Não sou a Morte, meu caro amigo... Meu nome foi, é e sempre será LOUCURA!!!

HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA!!!!

O Assassino agarrou-se ao travesseiro e chorou...

Era o seu primeiro choro desde a morte da mãe...

Pela janela aberta, viu que os primeiros flocos de neve caiam devagar sobre Redruth... 

Mas ele sabia que não estava nevando...

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Pedagogia das Calçadas


São Paulo, a maior metrópole da América Latina, tem muitas faces. Às vezes perigosa. Freqüentemente emocionante. Sempre eterna em sua beleza. Pelo menos, esta é a visão dos moradores dos Jardins, que vivem suas vidas em palacetes suspensos, tão seguros quanto seus veículos blindados, que desfilam pela Rua Oscar Freire, admirando suas vitrines imponentes e sonhando com a aquisição de caríssimos produtos supérfluos – essenciais para suas vidas vazias...

Mas foi ali, naquelas calçadas niveladas e arborizadas, onde os postes sequer mostram sua fiação, entre restaurantes, cafés e as principais marcas internacionais, que uma insólita aula de português aconteceu.

Waldinéia, ou simplesmente Néia, estava sentada em um dos bancos de concreto olhando para uma calça jeans, toda rasgada, mas que custava R$ 5.000,00. As elegantes senhoras, habitués daquele ambiente, fuzilavam-na com o olhar. Néia sentia-se como uma célula cancerígena durante uma sessão de radioterapia...

Desde menina, Néia sempre trabalhou em casa de família. Era uma excelente cozinheira. Nunca se importou em acordar com as galinhas e enfrentar horas de coletivo, cruzando a metrópole até chegar às mansões mais requintadas da Zona Sul paulistana...

Quando era jovem, suas curvas avantajadas de mulata renderam-lhe diversos “agrados” dos patrões e seus filhos, incapazes de assumi-la publicamente perante uma sociedade hipócrita (uma negra? Empregada?), mas interessados em freqüentar seu quartinho na calada da madrugada...

Mas o tempo passou, suas curvas se foram (juntamente com os seus dentes), e tudo que restou foi uma velha negra, analfabeta e obesa, com muitas pústulas pelo corpo, inviabilizando seu trabalho.

E mesmo com os programas sociais do governo, Néia sabia que viver em São Paulo era muito caro – e dependia das migalhas dos endinheirados, sempre ávidos a colaborar com as classes menos favorecidas... desde que estes se mantivessem longe de suas vidas perfeitas!

Este foi o erro de Néia...

Mendigar na elegantíssima Oscar Freire?

Mas não foi através da truculência policial que nossa heroína fora atacada... Pelo menos, não desta vez!

Uma elegante senhora, vestida como sósia da “Super Nanny”, conduzia um grupo de vinte garotinhas encantadoras – todas loirinhas, gordinhas, entre oito e nove aninhos, vestidas com sapatinhos pretos, meias brancas na altura das canelinhas roliças, saias xadrez, blusinhas brancas (com o distintivo de um elegante colégio particular bordado sobre o peito) e cabelos presos para trás.

Este “exército” marchava veloz pelas calçadas, contemplando o luxo, quando a sua “capitã” ergue as mãos, exigindo a parada imediata das pequenas. Todos os quarenta e dois olhos se voltam para aquela mulher negra, vestindo roupas sujas, emanando um cheiro asqueroso, invadindo um território onde obviamente não era bem vinda, e tomando para si um banco, ao lado de uma caneca de metal enferrujada com alguns trocados e segurando um cartaz, onde dizia:

TENHA PIEDADE DESTA POBRE INFELIZ. EU DEIXI O HOSPITAU DI MANHA DISPOIS DE UMA OPERAÇÃO DE TUBERCULOSE. TÔ FAMINTA E NUM TENHU DINHEIRU PRÁ COMPRAR O MENOR BOCADO DE COMIDA. ALÉM DO MAIS, TÔ DESEMPREGADA E ANGUSTIADA. AJUDE COM QUALQUER TROCADO. QUE DEUS O BENÇOE.

A “capitã” ajeitou os óculos fundo de garrafa e respirou fundo. Ordenou:

- Senhoritas, queiram ler atentamente a redação que vemos aqui...

As meninas se aglomeraram diante do cartaz, lendo em silêncio por alguns minutos. Quando as primeiras terminaram, a elegante senhora as indagou solenemente:

- Então, senhoritas? Algum comentário?

- Eu, madame!

- Está cheio de erros, madame!

- Eu! Eu sei, madame!

- Madame, não está escrito corretamente!

A professora respira fundo e continua:

- Senhoritas, na verdade, este cartaz é um insulto! Uma pedra no lago da Língua Portuguesa! Se Camões o lê-se, certamente voltaria correndo para seu próprio túmulo! Sofia, o correto é “eu deixi o hospitau esta manha” ou “eu deixei o hospital esta manhã”?

- O correto é “eu deixei o hospital esta manhã”, madame!

- Muito bem, Sofia! “Eu deixei” é o pretérito perfeito do verbo “deixar”, mas quem pode me dizer o que é o pretérito perfeito?

- É o tempo verbal que indica já ter passado a ação do verbo!

- Muito bem, Josy! Hummmm... que tal um pequeno exercício para a senhora? Conjugue “estar faminta” no presente do subjuntivo, por favor...

Néia, assustada, olhou para os lados. Não viu ninguém. Então perguntou:

- Q-quem, madame? E-eu?

- Sim, a senhora! Vamos!

- Er... deixa ver... o presente... do subjuntivo... é... ah, sim... é mais do que perfeito... quer dizer... “eu estaria faminta”? ou... “ele estaria faminto”... ou ainda “nós estamos famintos”?

- Oh, meu Deus! Que lástima! Uma resposta desta merece um Chapéu de Burro enfiado na cabeça da senhora!

- CHAPÉU DE BURRO, CHAPÉU DE BURRO!!! (todas as garotas em côro).

- NÃO!!! NÃO!!! CHAPÉU DE BURRO NÃO!!! Por favor... por favor... A culpa não é minha... Eu tava doente... Ontem me operaram... Uma ferida horrível...

- Horrível é este seu texto! Que prazer maldoso a senhora sente em torturar a língua pátria? Nós vivemos em uma sociedade de comunicação, onde a sintaxe de sua mensagem, deve ser o diapasão da eficácia que desejas auferir! Nada impede que a senhora use aforismos, fórmulas concisas fortes, cáusticas como um grito! Poderia ser “Eu não tenho dinheiro” ou “Estou com fome”. Poderia ainda bailar com a delicadeza da rima dos versos alexandrinos... Maria Cláudia, dê-nos uma idéia geral de como você redigiria seu cartaz...

- Madame, que tal: “Senhoras e senhores, desta pobre criatura tenham piedade. No hospital, ainda ontem, sofri cirurgia de severa gravidade”?

- Delicioso, Maria Cláudia! Como disse o poeta: “Seja qual for o assunto, agradável ou que oprima, é sempre mister expressá-lo em rima”. Uma bela lição!

- Madame, se eu virar mendiga, cometerei os mesmos erros gramaticais?

- De forma alguma, Anne Cecille... Vamos em frente... Antes, porém, passe-me este cartaz, por obséquio!

Após a passagem do pequeno exército, tudo o que restou naquele banco foi uma velha negra, obesa e desdentada, chorando copiosamente, profundamente envergonhada da própria ignorância.

Alguns minutos depois, um outro transeunde tentou consolá-la:

- Coitadinha... Chorando porque está com fome e frio, jogada à rua da amargura?

Néia, esfregando os olhos inchados com as mãos sujas, respondeu, aos soluços:

- N-não... senhor... É que... sniff... de novo... ich... tirei nota baixa em redação!

E apontou para seu cartaz, onde a Madame escreveu em letras garrafais:

REDIJA UM CARTAZ MELHOR SE QUISER NOSSA CARIDADE!

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A chata rotina de Dona Lucimar, bibliotecária!


Biblioteca. Substantivo Feminino. Vem do grego “bibliothéke”. Para o Dicionário da Língua Portuguesa Michaelis, significa:

1. Coleção de livros, dispostos ordenadamente.
2. Livraria.
3. Edifício público ou particular onde se instalam grandes coleções de livros destinados à leitura de freqüentadores ou sócios.
4. Coleção de obras de um autor.
5. Coleção de obras sobre assuntos determinados.
6. Coleção de obras de um povo.
7. Estantes ocupadas por livros.

Guardar o conhecimento, a cultura e a produção científica da humanidade é uma tarefa difícil, pois o nascimento e a derrocada dos Impérios é uma constante cíclica ao longo da história. Nesse sentido, os mosteiros tiveram um papel fundamental – muito da cultura grega, romana, celta, nórdica e cristã da Antiguidade e da Era Medieval foi preservada pelo trabalho árduo e silencioso dos Monges Copistas, que literalmente “copiavam” e, deste modo, preservavam os textos antigos.

Mas a saga das bibliotecas antecede a própria história do livro! Começa quando a humanidade passou a dominar a escrita. As primeiras bibliotecas que se tem notícia foram chamadas de “minerais”, pois seus acervos eram constituídos de tabletes de argila. Depois vieram as bibliotecas “vegetais” e “animais”, onde eram guardados rolos de papiros e pergaminhos. Mais tarde, com o advento do papel, começaram as bibliotecas modernas.

Praticamente todas as grandes civilizações do passado tiveram suas bibliotecas – babilônios, assírios, egípcios, persas, chineses, árabes, gregos, romanos, celtas etc. Acredita-se que a biblioteca mais antiga seja a do Rei Assurbanipal (Século VII a.C.), cujo acervo era composto por placas de argila escritas em caracteres cuneiformes. Mas nenhuma foi tão famosa como a Biblioteca de Alexandria, que teria entre 40 e 60 mil manuscritos em rolos de papiro – ultrapassando 700 mil volumes! Não por acaso, figurou entre as sete maravilhas do mundo antigo...

Mas outras bibliotecas também tiveram grande importância, como as Bibliotecas Judaicas em Gaza; a de Nínive, na Mesopotâmia; e a Biblioteca de Pérgamo, que foi incorporada à de Alexandria antes de sua destruição.

Os gregos também possuíam bibliotecas, mas as mais importantes eram particulares de filósofos e teatrólogos. Só a partir do século XVI d.C. é que as bibliotecas realmente se transformam, abrindo suas portas aos cidadãos comuns, democratizando a informação e disseminando o conhecimento...

No Brasil, as duas bibliotecas maiores e mais famosas são a Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, fundada pela Família Real em 1.810; e a Biblioteca Mário de Andrade, em São Paulo, fundada em 1.925.

Ok, estou te enchendo o saco, com este papo que mais parece roteiro de documentário do canal Futura, né?

Pois é... são os “ossos do ofício” de uma bibliotecária!

Desde menina, sempre fui apaixonada por livros. Aos sete anos, devorava a coletânea de Monteiro Lobato sobre o Sítio do Pica Pau Amarelo! Aos doze, não perdia um único romance “Sabrina” em banca de jornal! Aos 17, apaixonei-me perdidamente por Pablo Neruda. E aos 20, tive orgasmos múltiplos lendo Álvares de Azevedo...

Então pensei: poxa, que outra profissão me permitiria viver agarrada aos livros, sem que ninguém viesse me encher o saco?

Resultado? Prestei biblioteconomia na UFRJ!

Durante quatro anos, diariamente deixei Madureira e seguia até a Praia Vermelha, fazendo os pouco mais de trinta quilômetros em duas ou três horas de trens e ônibus lotados, tentando chegar bem, para não passar vergonha perto das patricinhas da Zona Sul...

Sonhava em trabalhar na Biblioteca Nacional...

E agora, sete anos depois de formada, cá estou, morando com meus pais e trabalhando na biblioteca abandonada e sucateada da Escola Estadual de Ensino Supletivo Conde Afonso Celso, ainda em Madureira, com uma vista privilegiada... para a Favela São José e para o Mercadão!

Estou vivendo o sonho, não?

Como o meu computador foi roubado cinco vezes nos últimos dois anos, o Governador Sérgio Cabral desistiu de mandar outro, antes que o sistema de vigilância por câmeras (superfaturado, claro!) esteja instalado na Escola... Algo rápido! Não vai levar nem três anos...

Solução simples, não?

Também... para que serve esta merda de biblioteca, a não ser como motel para menores que matam aulas ou como “Dutch Coffee Shops”?

TRRRRRIIIIIIIIMMMMMMMMMM

Droga de telefone estridente...

Melhor atender logo, antes que toque outra vez!

- Olá, Dona Lucimar... como vai esta força?

- Oi, seu Armando! Estou ótima! E as crianças?

- O Pedrinho está bem... A Lica teve febre, mas está boa hoje...

- Que bom...

- Pois é... Bom... tenho uma encomenda urgente! Leve a Arte da Guerra, de Sun Tzu, para o Coronel Batista, até as 11 horas, na Rua Nilo Romero, nº 523, entendeu?

- Entendido! Coronel Batista, 11 horas...

- Exija o recibo, hein?

- Com certeza, senhor...

Sem colocar o telefone no gancho, disco outro número. Três toques.
Uma voz sonolenta do outro lado da linha:

- Alô...

- Chicão, vem depressa! Encomenda urgente!

- Ô, dona Lucimar! A essa hora? Num tá muito cedo não?

- Chicão, Chicão... Ainda vou receber uma encomenda para você...

- Calma! Já to indo! Num ta mais aqui em falou!

Quinze minutos depois, Chicão chega na biblioteca, ainda com remelas nos olhos inchados. Apesar das bebedeiras, ele é o nosso melhor entregador. Por sorte, já separei o livro de capa vermelha – assim, ninguém bagunça o meu acervo!

- Toma, Chicão! A Arte da Guerra, de Sun Tzu, para o Coronel Batista, na Rua Nilo Romero, nº 523...

- 523, é?

- É, Chicão! 523! E não se esqueça de pegar o recibo, hein?

- Pódeixá!

Quarenta e cinco minutos depois, o Chicão volta à biblioteca, trazendo uma caixa de papelão nas mãos.

Olho para o relógio e pergunto:

- Nossa, Chicão! Que demora, hein?

- Desculpe... estava difícil achar a casa...

- Mas e aí? Entregou?

Ele balançou a cabeça, afirmativamente.

- E o recibo?

O negão colocou a caixa em cima da minha mesa. Abri com cuidado. Dentro, havia a cabeça decepada do Coronel Batista, trazendo nos olhos pastosos todo o horror de quem presenciou sua própria morte...

Entreguei o cheque para Chicão, que o guardou no bolso e foi embora em silêncio. Já eu, fechei a caixa de papelão e fui até o freezer horizontal que havia nos fundos, para guardar o “recibo” até que o Sr. Armando venha buscá-lo.

Afinal, com o salário de funcionária pública, não dá para pagar as despesas de casa, não?

É... mais um dia de trabalho...

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