sexta-feira, 29 de junho de 2012

Cadeia Alimentar - Parte I


A música parece sempre a mesma para mim agora. Sentada na mesma boate em outra noite de quinta-feira sem sentido, eu já nem me importo mais se o som é New Wave, Old Wave, Gótico, Industrial ou outra mistura horrorosa de Tecno com Dance – não consigo nem mais diferenciá-las. Os mesmos ritmos pulsantes sacodem as janelas revestidas de preto da casa noturna, os mesmos corpos jovens e esguios se contorcem sob a ribombante batida da música e, mais uma vez, eu cuido da minha cerveja aguada, olhando para a massa de carne suada diante de mim como já fiz em tantas noites passadas. Noites demais para se contar.

O preto ainda está na moda – como sempre – então eu me sento em um canto, com a minissaia de couro preto comprimindo desconfortavelmente as minhas coxas. Quando eu era mais jovem como as outras garotas na pista de dança esta noite, minhas pernas eram meu maior patrimônio. Agora eu só tenho um... bem, vocês sabem. Uma bunda enorme aquecendo um banquinho desconfortável!

Balanço meus pés para frente e para trás dentro de um par de saltos do tipo “derrube-me e me possua”, tomando outro gole de cerveja. Quando eu era mais jovem, noites como esta pareciam grandes aventuras. Agora, é claro, estou à beira dos 30 e a piada ficou velha, assim como eu. Meu turno da manhã, processando cheques no banco em mais uma “maldita-manhã-de-sexta” está a apenas seis horas de distância. Posso sentir um cronômetro marcando o tempo como uma bomba-relógio dentro de mim. O tempo está acabando, querida. O tempo está acabando.

Sorrio enquanto outro cara passa...

Espero que ele se vire e volte...

Talvez espere que ele não o faça!

Onde foi que eu errei?

Não me entenda mal, conseguir companhia por algumas poucas horas não é o problema. Uma vez que você reduz as suas expectativas o suficiente, tudo é possível. Mas as milhares de noites de quinta-feira (ou sexta, sábado, domingo, segunda...) que eu imaginava estarem à minha frente quando eu tinha 15 acabaram! Não importa qual seja o padrão para ir a uma boate – eu sou uma pária, pela idade e pela aparência, caçando aquilo que eu consigo pegar na base da pirâmide social, perto do final da cadeia alimentar. Eu não posso mais competir com as “Barbies” impossivelmente magras que me cercam...

Barbie e suas amigas estão usando muito preto esta noite – divulgando o estilo retro que abandonei quando eu tinha 17. Talvez esteja na moda de novo e eu nem mesmo saiba. Oh, Deus! Será que estou tão velha assim? É tão visível assim? Não... Não atrás da máscara que eu uso! Minha maquiagem está imaculadamente perfeita – uma cuidadosa mistura de branco pálido com o batom preto da própria Morte. Meu cabelo está arrumado do mesmo jeito que o de uma rainha gótica, das quais as crianças daqui nem devem se lembrar mais. Eu também estou usando minha calcinha da sorte, apesar de sua sorte ter se esgotado há muito, muito tempo atrás. Quando eu começo a suar por causa do calor e da energia desesperada da boate, percebo que chegou aquela hora da semana quando vou para a pista de dança e uso a única habilidade negociável que ainda possuo.

Eu danço.

Uma vez que o movimento começa, minhas dúvidas desaparecem. Eu não ligo para quão pretensiosa é a rotina de realizar as mesmas poses toda semana pela milésima vez em mais uma boate idiota. Eu esqueço das rodopiantes nuvens de angústia adolescente que me cercam. A música que penetra em meu crânio soa vagamente industrial, mas eu sequer paro para pensar no que realmente é. Eu só espero que alguém venha e me leve para longe de tudo isso, e é melhor que ele venha fazer isso imediatamente. Se minha dança não funcionar, sei como a noite vai acabar: vou cambalear até minha casa para cuidar de meus gatinhos, lerei as partes picantes de outro romance erótico e sonharei com meu suicídio.

Por piedade: alguém acabe com isso!

Com o canto dos olhos percebo que meus movimentos realmente conjuraram alguém. Cabelos pretos, calças pretas, camisa de uma banda que eu não consigo identificar e botas lindas “de morrer”. Ele atravessa a pista de dança, diretamente até onde estou, desfilando pela boate como se realmente pertencesse àquele meio, apesar do pequeno ankh de prata que traz pendurado em seu pescoço. Há quanto tempo aquilo saiu de moda? E ainda por cima está usando óculos escuros aqui dentro.

Perdedor!

Igualzinho a mim!

Ele passa por um garoto magricelo cheio de pose, e repentinamente vira de costas para mim para dar um susto no “mauricinho”. O moleque pula para trás, derrubando sua bebida enquanto corre para a porta. Sim, eu conheço esse tipo. Ele acha que é o “Amante Infernal”, mas eu acho que ele está levando a brincadeira gótica longe demais. Como se eu pudesse falar alguma coisa...

Mas... perdedor ou não... até que ele é bonitinho...

Algumas Barbies tentam chamar sua atenção, mas ele age como se soubesse que estou olhando para ele. “Noite de amor piedosa?”, penso comigo. Mas chega: ele está vindo na minha direção. Minha dança do desespero continua, mesmo sem que eu saiba qual música está tocando (como se isso importasse). Oh, Deus, deve ser a noite do flashback – estão tocando “Tin Omen” de novo. Ele faz pose na minha frente e lança sua cantada. Eu sequer consigo ouvi-lo; apenas rio e continuo dançando. Ele é bonito o suficiente para matar o tempo até que eu tenha que voltar para casa. Que casa? Eu não ligo mais porque já estou zonza – tanto pelas bebidas caras quanto pelo meu “Amante Infernal” na minha frente. De pé ao meu lado. Me segurando. Sou fácil demais e nem ligo!

Pouco tempo depois, nós saímos da pista de dança. Dois drinques e um redemoinho de músicas ruins depois, ele está me levando para fora, e eu sigo seus passos. Qualquer coisa para sair desse lugar. As paixões que senti com tanta intensidade há 10 anos atrás começam a ressurgir agora, mas elas não me surpreendem mais. Eu já passei por esta dança muitas vezes, seguindo os mesmos movimentos uma vez mais, demonstrando que permito que ele me guie até o seu carro.

Oh, um carro esporte! Como estou surpresa...

Eu rio e tropeço com o tempo calculado enquanto me abaixo até o banco do carro, cambaleando sobre meus saltos. O cinto de segurança estala no lugar, e eu ajusto minha minissaia preta para obter o máximo de efeito. Momentos depois ele se senta no banco do motorista, e eu deixo tudo correr do modo mais rápido. Não preciso mais do cinto de segurança... ele já me prendeu... e sou tomada por um curto de adrenalina enquanto ele se reclina para beijar meu pescoço, me imprensando contra o banco de couro. Apertando com muita força.

É um sonho. Rapidamente seguido de um pesadelo. Estou sangrando!

Sinceramente, não consigo me lembrar do que aconteceu depois. Penso que senti algo que deveria ser no mínimo erótico nos minutos seguintes. Talvez tenha sido medo intenso, a rendição à uma força avassaladora ou pelo menos dor. Eu só me sinto anestesiada. Assim deve ser melhor. Eu me lembro de uma quantidade horrível de sangue. Sangue até demais, jorrando pelo rosto do meu amante, sobre seus lábios, sobre meus lábios? Eu não sei. Algo horrível aconteceu, porque me lembro de ter olhado para o seu rosto em um dado momento, quando ele já não era mais tão terrivelmente lindo...

Talvez seja minha mente que o tenha reconstruído como algo horrendo. Após sairmos da boate, sua colônia tinha um odor muito pior do que o habitual. De qualquer modo, era impossível tolerar aquele cheiro. Depois de ter começado, o Amante Infernal se foi, deixando-me com um demônio agachado sobre meu corpo inconsciente. Minha mente se lembra dele como se fosse algo saído de um daqueles filmes muito antigos. Pele cinza, dentes afiados, unhas compridas e o fedor de esgoto. Ele fedia como uma coisa morta, fria e trêmula. Ou será que isso vinha de mim? Ou isso sou eu agora?

Meus olhos estão fechados e o chão de concreto debaixo de mim é muito duro. Tão frio. Tão gelado. Minhas entranhas parecem ter atrofiado, minha pele coça terrivelmente, e minha garganta está seca e... sedenta! Luzes brilhantes piscam ao meu redor. Então eu cometo o pior erro da minha vida. Um erro muito pior do que ter sentado no banco de passageiro daquele carro esporte...

Eu abro meus olhos!

Sabe, quando eu tinha 14 anos, costumava sonhar com o vampiro Lestat vindo e me levando para longe de tudo. Você poderia dizer pelo modo como estava vestida ontem a noite que eu fantasiava sobre vampiros, e meu Amante Infernal provavelmente percebeu isso. Não me admira então sua cantada ter sido tão bem ensaiada. Eu nunca havia sonhado que seria deste jeito...

Diante de mim está um espelho perfeito, com seis metros de largura. Minhas coxas grossas são o menor dos meus problemas agora. Meu cabelo negro como um corvo, que de modo algum se comportava como eu queria, é agora uma massa imunda e emaranhada, caindo aos tufos. Meus dentes, que eram como pérolas e que eu escovava fielmente quatro vezes por dia, apodreciam diante dos meus olhos. Camadas de pele apodreciam, tornando-se lentamente algo parecido com a carapaça de um réptil. Quantas vezes eu olhei para meu rosto procurando pela menor imperfeição ou espinha? Algo bastante discutível para se fazer agora...

A inútil blusa de seda que eu vestia (a sei lá quanto tempo) agora se enrolava ao redor de um peito escavado, e minhas pernas se atrofiavam dentro da minissaia de couro. Meus olhos afundaram em suas órbitas.

Então eu percebo que não estou mais respirando.

O rosto que eu estava acostumada a encarar todas as manhãs, tardes e noites, cuja menor das falhas era parte integrante da minha identidade, se foi. Se meu nariz era pequeno demais ou se meus lábios eram muito grossos, e todas as malditas dicas de maquiagem que acumulei ao longo dos meus anos de adolescência, tudo isso era irrelevante agora! Repentinamente, me senti uma besta por ter gasto tanto tempo com minha vaidade, porque não importava o quão mal eu estava de manhã ao acordar – aquilo era infinitamente melhor que a coisa escavada, escamosa, com olhos fundos e boca larga que eu via agora, no espelho diante de mim...

Eu não sou mais eu. Eu não posso mais ser eu mesma. Eu tenho que me tornar outra pessoa. Porque se não fizer isso, ficarei completa e delirantemente louca!

O demônio de que me lembro, agachado sobre meu corpo, não foi fruto da minha imaginação. Era real. E eu posso ver no espelho que ele se aproxima por trás de mim, mas estou fraca demais para me virar. Eu quero odiar. Cuspir na sua cara horrenda. Ou pelo menos resistir. Mas então a primeira onda de dor banha meu corpo.

E o pesadelo continua...

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