sexta-feira, 29 de junho de 2012
Cadeia Alimentar - Parte III
O demônio acena para mim do outro lado da pista de dança.
Não importa quantas vezes eu venha aqui: a música parece sempre a mesma para
mim agora. Sentada na mesma boate em outra noite de quinta-feira sem sentido,
eu já nem me importo mais se o som é New Wave, Old Wave, Gótico, Industrial ou
outra mistura horrorosa de Tecno com Dance – já não consigo mais
diferenciá-las. Os mesmos ritmos pulsantes sacodem as janelas revestidas de
preto da casa noturna, os mesmos corpos jovens e esguios se contorcem sob a
ribombante batida da música e, mais uma vez, eu finjo beber minha cerveja
aguada, olhando para a massa de carne suada diante de mim com doses iguais de
luxúria e piedade.
O preto ainda está na moda (como sempre) e então eu me sento
em um canto, com uma minissaia de couro preto comprimindo desconfortavelmente
as minhas coxas atrofiadas. Quando olho para o espelho não é mais um manto de
escuridão que me cerca, obviamente. É um visual completamente novo, não muito
diferente daquele que eu costumava apresentar a cada noite durante milhares de
noites em minha inexorável escalada rumo aos 30 anos de vida. Mas agora eu
também posso brincar de ser Barbie. Eu aprendi a moldar a minha carne para me
disfarçar como uma delas. E até estou usando minha calcinha da sorte!
Eu não entendo mais a última moda, mas com um pensamento
posso fazer com que os outros acreditem que o meu visual É o auge da moda! Já
dominei os segredos desta simples e patética ordem social. Um universitário
atraente e estúpido passeia pela minha frente. Eu sorrio. Eu libero a
instintiva “simpatia” que pulsa em meu atrofiado coração, e ele pára de passar
por mim. Como um animal, ele é atraído por desespero e desejo, liberalmente
misturados com a bebida e o êxtase. Eu conheço esses sentimentos bem, até
demais, e reflito-os de volta para ele.
Ken puxa uma cadeira e senta ao lado da minha imitação de
Barbie. Ele não se preocupa com os pensamentos que estão em minha mente, os
sentimentos que estão em meu coração, ou mesmo quem eu sou. Posso sentir a vida
pulsando através dele. Alguma quantidade de seu precioso sangue está se
acumulando dentro de suas cuecas neste exato momento.
Eu jogo uma cantada, mas a música é tão alta que ele não
escuta. Apenas finge uma risada. Sentei, assisti e aprendi essa rotina ao longo
dos anos. Com um cambalear calculado, me levanto sobre minhas botas “vou te
derrubar e te matar”, e me preparo para conduzi-lo ao beco próximo ao
estacionamento da boate, para um pouco de diversão.
Diversão para mim, é claro. E para o meu amado demônio.
Depois de todo o meu sofrimento, miséria e desespero, agora
conheço o verdadeiro significado deste lugar. Existem milhares de boates como
essa. Elas estão abertas toda semana, e eu repito os mesmos movimentos, noite
após noite, mês após mês, ano após ano. Já passei dos 30 há muito, muito tempo
atrás, e francamente não estou nem aí!
Eu finalmente me conheço, sei o que sou verdadeiramente, e
finalmente entendo que eu sou o topo da cadeia alimentar!


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