terça-feira, 19 de junho de 2012
Ed Mort e o Strip Tease Inesquecível
Mort. Ed Mort. Detetive particular. Está na plaqueta.
Durante meses ninguém entrara no meu escri – “escritório” é
uma palavra grande demais para descrevê-lo - a não ser cobradores, que eram
expulsos sob ameaças de morte ou coisa pior.
Eu estava pensando no meu jantar da noite passada - isto é,
em nada - quando ele entrou. Típico coroa bem sucedido. Terno de cinco mil
dólares. Sapato cromo-alemão. Cheiro de perfume importado misturado ao tabaco
de um puro cubano. Com sua voz rouca, ele disparou:
- Seu trabalho é encontrar uma mulher... A mais sedutora e
inebriante fêmea que já existiu neste mundo...
- Você tem uma foto dela, eu suponho...
- Não! Ela nunca se deixou fotografar por ninguém. Mas vou
dar alguns dados que o ajudarão a achá-la...
- Claro... Vá falando que eu tomo nota...
- Ela é alta, com uma cintura tão estreita que parece se
quebrar quando anda. Seu traseiro é sinuoso como o deu uma cascavel. Seus
braços são longos e seus dedos são graciosos e intermináveis. Sua voz é
profunda e suave, e tem um quê de sussurro. Uma coisa secreta e intensa, que
faz a gente perder o controle...
Comecei a escrever enquanto ele falava. A Bic falhou algumas
vezes. Mas sou bom de memória. Guardei as informações mais relevantes.
- Tome, detetive. Aqui está uma lista dos bares que ela
freqüenta. Se você for neles, cedo ou tarde vai encontrá-la...
- Acredito que a garota seja esse avião que você me diz, mas
vou precisar de mais informações: cor dos olhos, da pele, descrição do rosto...
pois existem mulheres lindas nas versões ruiva, morena, loira, negra ou
oriental... você entende?
- Sim, mas não posso lhe dar nada disso, detetive! Ela usa
meias de seda preta, um lenço púrpura e um chapéu, além de luva nas mãos,
óculos de sol negros como a noite e um cachecol para ocultar o rosto... Se a
encontrar, amarre-a e trague-a até mim. Em troca, receberá R$ 150 mil reais, em
espécie, no ato. Como adiantamento, fique com estes R$ 15 mil.
O homem abriu o paletó. Sacou um bolo de notas de R$ 100,00.
As notas estavam presas num elástico. Nunca vi um cardume tão grande de
Garoupas. Nem no Discovery Channel. Achei que eram falsas. Mas o cheiro e a
textura eram perfeitos. Não pude conter um sorriso.
- Só mais uma coisa: se ela te oferecer um strip-tease, NÃO
ACEITE, compreendido?
Lá estava eu. Sozinho. Com um bolo de dinheiro cheiroso nas
mãos. E R$ 135 mil reais dançando embaixo do meu nariz. Excelente combustível
para iniciar minha busca por esta belezinha. Comecei a busca nesta mesma noite.
Fui ao Moroc, ao Alexis, ao Zorba e ao Empire. Várias vezes pensei ter
encontrado esse diamante em forma de mulher. Mas não era. É claro que ganhar
esta grana não seria fácil. Então comecei a oferecer dinheiro em troca de
informação. O Sr. Almeida, dono do Empire, falou:
- Suspeito que aquele ricaço lunático te contratou. Ele
seria capaz de qualquer coisa para prendê-la numa jaula e impedir sua fuga.
- O senhor sabe o que aconteceu?
- Dizem que Melissa fez um strip-tease para ele e, em
seguida, fizeram amor loucamente. Ele, com todo o dinheiro do mundo, jamais
sentiu uma paixão tão ardente por uma mulher antes daquela noite...
- Mas ela é tão boa assim?
- Rapaz... Os felizardos que puderam roçar em sua pele nua,
dizem que não se pode deixá-la por mais de dez segundos... Mas infelizmente, barmens
não estão no cardápio dela...
A porta do bar se abre. Meias de seda preta. Lenço púrpura.
Chapéu. Luva nas mãos. Óculos de sol negros como a noite. Cachecol. Melissa.
Não há um único homem no salão que não olhe para a garota.
Ela se aproxima do balcão. Pede um Dry Martini. Me aproximo.
Lanço um olhar insinuante. Tenho um certo charme rude, não nego. Sou violento.
Sorrio para o lado. Uso costeletas. Másculo. Peço um uísque. Nacional. Old
Eight. Sem gelo. Dou uma talagada. Ponho a mão no bolso. Finjo ter uma arma.
Sou direto:
- Escute, Melissa... Você e eu vamos sair daqui...
Discretamente... Não quero ter que descarregar o tambor em teu lindo corpo...
- Imagino quem tenha mandado me buscar... Tudo bem...
Vamos... Não podemos deixá-lo esperando...
Sua voz rouca e sexy envolveu-me como o canto de uma sereia.
De fato, ao se levantar do banco, a curva de sua cintura quase se quebrou com o
primeiro passo. Suas costas ficaram tensas. Parecia um animal selvagem.
Saímos do bar. Luzes e neon. Prostitutas e viciados nas
calçadas. Cheiro de fumaça de ônibus. Seguimos por meia quadra até o meu Verona
92. Azul Royal. Finalmente resgatado do estacionamento por onde esteve nos
últimos cinco anos. Ordeno:
- Entre no carro, milady...
- Escute... Você não prefere vir comigo até aquele beco
antes? E... com a música que vem dos bares, me ver dançar só para você, o
strip-tease mais incrível que jamais imaginou?
Levei um tempo para dizer algo. Olhei para aquele corpo
escultural. De cima até embaixo. Creio que minha voz saiu trêmula feito
gelatina.
- Me disseram... que você sempre tenta enganar com esse...
truque... Vem cá. Quero ver se você não tem uma arma escondida.
- Pode me revistar, detetive. Tudo o que vai encontrar são
as curvas do meu corpo embaixo destes panos.
Meu Deus. Que curvas eram aquelas?
Minhas mãos percorriam suas costas, braços, seios, cintura, bumbum,
coxas, pés. E a cada toque, ela gemia. Lascivamente. Provocando meu desejo.
Despertando minha libido. E a curiosidade também.
- Tudo bem. Vamos para o beco. Mas vou manter minha Magnum
apontada e engatilhada na tua direção. Sem gracinhas, ok?
A missão já estava quase concluída. Então porque não
desfrutar um pouco dos segredos ocultos embaixo de todos aqueles panos?
Ela foi na frente. Fui mirando seu magnífico rebolado.
Apoiei-me numa lixeira vazia. Ela ficou embaixo de um ponto de luz. Disse:
- Detetive... ah... consegue perceber... a magia que vem da
música?
A bela começou a dançar. Sensualmente. De costas para mim.
- De um dos bares... vem a salsa...
Seu lenço púrpura foi ao chão.
- ...de outro, o bolero...
Lá se foram o cachecol e o chapéu.
- ...e de outro, ainda, um blues...
Admito. Meu pequeno orgulho estava empolgado. Chegava a
doer.
- ...essa mistura de ritmos...
Ela já havia sacado o chapéu. E estava desabotoando o casaco
negro.
- ...me deixa louca!
Ela abriu o casaco. Mas não havia nada por baixo. Esfreguei
meus olhos. Estava escuro. Ela sacou as luvas. E as meias de seda. Também não
havia nada por baixo. A mulher era transparente. Invisível. Inacreditável, eu
sei. Ou um grande truque. Sei lá!
Quando a última peça veio ao solo, lá estava eu. Sozinho.
Num beco escuro. Diante de várias peças de roupas femininas. Como um travesti
desleixado. Incrédulo, perguntei:
- Mas onde foi que a cadela se meteu?
- Aqui, idiota! Adeus!
A mulher-invisível me deu um pé na bunda. Literalmente. E
desapareceu. Nunca mais ninguém ouviu falar de Melissa na noite carioca. Dizem
que o ricaço mudou-se para Paris. Obviamente, não me pagou o restante. Mas
sobrou o suficiente para comprar um pedaço de parmesão para Voltaire. O ratão
albino que subloca um canto da minha sala.
Mort. Ed Mort. Está na plaqueta.
P.S.: Espero que a Consuelo goste desta pequena homenagem ao nosso eterno mestre Veríssimo!


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