terça-feira, 19 de junho de 2012

A chata rotina de Dona Lucimar, bibliotecária!


Biblioteca. Substantivo Feminino. Vem do grego “bibliothéke”. Para o Dicionário da Língua Portuguesa Michaelis, significa:

1. Coleção de livros, dispostos ordenadamente.
2. Livraria.
3. Edifício público ou particular onde se instalam grandes coleções de livros destinados à leitura de freqüentadores ou sócios.
4. Coleção de obras de um autor.
5. Coleção de obras sobre assuntos determinados.
6. Coleção de obras de um povo.
7. Estantes ocupadas por livros.

Guardar o conhecimento, a cultura e a produção científica da humanidade é uma tarefa difícil, pois o nascimento e a derrocada dos Impérios é uma constante cíclica ao longo da história. Nesse sentido, os mosteiros tiveram um papel fundamental – muito da cultura grega, romana, celta, nórdica e cristã da Antiguidade e da Era Medieval foi preservada pelo trabalho árduo e silencioso dos Monges Copistas, que literalmente “copiavam” e, deste modo, preservavam os textos antigos.

Mas a saga das bibliotecas antecede a própria história do livro! Começa quando a humanidade passou a dominar a escrita. As primeiras bibliotecas que se tem notícia foram chamadas de “minerais”, pois seus acervos eram constituídos de tabletes de argila. Depois vieram as bibliotecas “vegetais” e “animais”, onde eram guardados rolos de papiros e pergaminhos. Mais tarde, com o advento do papel, começaram as bibliotecas modernas.

Praticamente todas as grandes civilizações do passado tiveram suas bibliotecas – babilônios, assírios, egípcios, persas, chineses, árabes, gregos, romanos, celtas etc. Acredita-se que a biblioteca mais antiga seja a do Rei Assurbanipal (Século VII a.C.), cujo acervo era composto por placas de argila escritas em caracteres cuneiformes. Mas nenhuma foi tão famosa como a Biblioteca de Alexandria, que teria entre 40 e 60 mil manuscritos em rolos de papiro – ultrapassando 700 mil volumes! Não por acaso, figurou entre as sete maravilhas do mundo antigo...

Mas outras bibliotecas também tiveram grande importância, como as Bibliotecas Judaicas em Gaza; a de Nínive, na Mesopotâmia; e a Biblioteca de Pérgamo, que foi incorporada à de Alexandria antes de sua destruição.

Os gregos também possuíam bibliotecas, mas as mais importantes eram particulares de filósofos e teatrólogos. Só a partir do século XVI d.C. é que as bibliotecas realmente se transformam, abrindo suas portas aos cidadãos comuns, democratizando a informação e disseminando o conhecimento...

No Brasil, as duas bibliotecas maiores e mais famosas são a Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, fundada pela Família Real em 1.810; e a Biblioteca Mário de Andrade, em São Paulo, fundada em 1.925.

Ok, estou te enchendo o saco, com este papo que mais parece roteiro de documentário do canal Futura, né?

Pois é... são os “ossos do ofício” de uma bibliotecária!

Desde menina, sempre fui apaixonada por livros. Aos sete anos, devorava a coletânea de Monteiro Lobato sobre o Sítio do Pica Pau Amarelo! Aos doze, não perdia um único romance “Sabrina” em banca de jornal! Aos 17, apaixonei-me perdidamente por Pablo Neruda. E aos 20, tive orgasmos múltiplos lendo Álvares de Azevedo...

Então pensei: poxa, que outra profissão me permitiria viver agarrada aos livros, sem que ninguém viesse me encher o saco?

Resultado? Prestei biblioteconomia na UFRJ!

Durante quatro anos, diariamente deixei Madureira e seguia até a Praia Vermelha, fazendo os pouco mais de trinta quilômetros em duas ou três horas de trens e ônibus lotados, tentando chegar bem, para não passar vergonha perto das patricinhas da Zona Sul...

Sonhava em trabalhar na Biblioteca Nacional...

E agora, sete anos depois de formada, cá estou, morando com meus pais e trabalhando na biblioteca abandonada e sucateada da Escola Estadual de Ensino Supletivo Conde Afonso Celso, ainda em Madureira, com uma vista privilegiada... para a Favela São José e para o Mercadão!

Estou vivendo o sonho, não?

Como o meu computador foi roubado cinco vezes nos últimos dois anos, o Governador Sérgio Cabral desistiu de mandar outro, antes que o sistema de vigilância por câmeras (superfaturado, claro!) esteja instalado na Escola... Algo rápido! Não vai levar nem três anos...

Solução simples, não?

Também... para que serve esta merda de biblioteca, a não ser como motel para menores que matam aulas ou como “Dutch Coffee Shops”?

TRRRRRIIIIIIIIMMMMMMMMMM

Droga de telefone estridente...

Melhor atender logo, antes que toque outra vez!

- Olá, Dona Lucimar... como vai esta força?

- Oi, seu Armando! Estou ótima! E as crianças?

- O Pedrinho está bem... A Lica teve febre, mas está boa hoje...

- Que bom...

- Pois é... Bom... tenho uma encomenda urgente! Leve a Arte da Guerra, de Sun Tzu, para o Coronel Batista, até as 11 horas, na Rua Nilo Romero, nº 523, entendeu?

- Entendido! Coronel Batista, 11 horas...

- Exija o recibo, hein?

- Com certeza, senhor...

Sem colocar o telefone no gancho, disco outro número. Três toques.
Uma voz sonolenta do outro lado da linha:

- Alô...

- Chicão, vem depressa! Encomenda urgente!

- Ô, dona Lucimar! A essa hora? Num tá muito cedo não?

- Chicão, Chicão... Ainda vou receber uma encomenda para você...

- Calma! Já to indo! Num ta mais aqui em falou!

Quinze minutos depois, Chicão chega na biblioteca, ainda com remelas nos olhos inchados. Apesar das bebedeiras, ele é o nosso melhor entregador. Por sorte, já separei o livro de capa vermelha – assim, ninguém bagunça o meu acervo!

- Toma, Chicão! A Arte da Guerra, de Sun Tzu, para o Coronel Batista, na Rua Nilo Romero, nº 523...

- 523, é?

- É, Chicão! 523! E não se esqueça de pegar o recibo, hein?

- Pódeixá!

Quarenta e cinco minutos depois, o Chicão volta à biblioteca, trazendo uma caixa de papelão nas mãos.

Olho para o relógio e pergunto:

- Nossa, Chicão! Que demora, hein?

- Desculpe... estava difícil achar a casa...

- Mas e aí? Entregou?

Ele balançou a cabeça, afirmativamente.

- E o recibo?

O negão colocou a caixa em cima da minha mesa. Abri com cuidado. Dentro, havia a cabeça decepada do Coronel Batista, trazendo nos olhos pastosos todo o horror de quem presenciou sua própria morte...

Entreguei o cheque para Chicão, que o guardou no bolso e foi embora em silêncio. Já eu, fechei a caixa de papelão e fui até o freezer horizontal que havia nos fundos, para guardar o “recibo” até que o Sr. Armando venha buscá-lo.

Afinal, com o salário de funcionária pública, não dá para pagar as despesas de casa, não?

É... mais um dia de trabalho...

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