sexta-feira, 29 de junho de 2012
Cadeia Alimentar - Parte II
A última semana é um borrão de lembranças sensoriais e
flashbacks brutais. Ondas de dor lancinante, fome intensa e recorrente, e a
resignação anestésica com a metamorfose de meu corpo. Eu daria qualquer coisa
para já ter feito 30 anos. Ao invés disso, meu corpo está preso nesta
morte-em-vida: minhas unhas pontudas estarão sempre com o mesmo tamanho, o
ninho de ratos que é o emaranhado de meus cabelos estará sempre com o mesmo
comprimento patético, e meu rosto vai estar esmagado da mesma forma todas as
manhãs. Eternamente.
Após uma semana de espasmos, rastejando e lambendo o sangue
do chão, após uma eternidade sendo incapaz de me afastar daquele horror dentro
do espelho, eu finalmente acordei em um outro lugar. Algum lugar subterrâneo,
com água corrente e o distinto odor de urina. Tremendo, eu me levanto sobre
meus pés deformados, equilibro-me nos saltos agora quebrados e inúteis, e me
cubro com o cobertor de lã que meu demônio deixou para mim. Estou sinceramente
agradecida pela melhora. A blusa de seda e a minissaia da sorte ainda estão
comigo, para me lembrarem de quem eu era, mas a suntuosa carne que me fazia ser
reconhecida como “fêmea” já se atrofiou quase toda. Eu não sei mais o que sou.
Mais uma vez, com o canto dos olhos, eu percebo que o demônio está me olhando
sem ser visto. E está tão frio. Tão gelado.
Um rato corre para longe de mim, indiferente à minha
presença, e por um momento eu posso sentir a energia e a vida pulsando dentro
dele. Os nervos se contorcem, seu sangue pulsa, e a fome cresce dentro de mim
novamente. Não é fome de carne, ou mesmo de sangue, mas de vida, para que eu
possa continuar animando esta casca atrofiada que é o meu corpo. Intuitivamente
meu corpo se agacha para que eu libere uma onda de piedade e misericórdia do
fundo do meu coração atrofiado. A pequena criatura pára no seu caminho, olha
para mim e então corre para cima de meu ombro, para arrastar seu pêlo coberto
de feridas e crostas em mim.
Meus dentes são afiados e rápidos. A bile fria e nauseante
obstrui minha garganta. Minha mandíbula estremece, e eu devolvo o que sobrou da
carcaça do animal ao turvo e agitado rio de fezes que flui ao meu lado. À distância,
eu sinto a aprovação do meu criador. Acabei de passar no primeiro teste. “A
vida é uma merda”, penso reflexivamente. “Mas agora estou morta”.
O demônio nunca aparece para mim. Ele apenas me conduz, como
naquela primeira noite na boate. Eu não tenho idéia do porquê. Talvez ele tenha
toda a eternidade diante de si e isso o entretenha. Talvez tenha planos para
mim. A maior parte do tempo ele não parece se preocupar se eu serei morta ou se
meu corpo trôpego vai apenas parar de se mover por completo, mas me olha
cuidadosamente, como um pai cruel e exigente. Talvez eu seja um elemento
descartável em algum de seus planos, mas isso não importa. A maior parte da
minha atenção está focalizada em memorizar os caminhos nestes túneis
subterrâneos, escondendo-me dos passos acima do solo e planejando novas
maneiras de conseguir sangue. Eu sei que, se eu falhar, meu demônio me matará.
Se não ele, então qualquer ser humano que me encontrasse com certeza iria
querer me matar.
Mas esta noite estou de volta em minha antiga área de caça.
Chega de sangue de rato. Eu subi na cadeia alimentar. Eu me agacho nas sombras
de um beco, contando quantos passos de distância me separam do bueiro atrás de
mim (caso eu precise fugir). As sombras me envolvem – com um pensamento eu
consigo enrolar camadas de escuridão em torno de mim, como eu fazia com o cobertor
de lã que joguei fora há uma semana. Eu me agacho como um animal, como uma
fera, como o monstro que sou, e mais uma vez, através de camadas e mais camadas
de dor, eu abro meu coração negro com sentimentos de “necessidade”, “piedade” e
“misericórdia”. Parece que eu tenho um certo talento para isso!
No intervalo de uma batida do coração (pelo menos do meu
ponto de vista, já que o meu não bate mais), um tolo tagarelante que vagava
pela rua, a cerca de 15 metros de distância pedindo esmolas, está olhando para
dentro do beco. Há minutos atrás, ele estava lançando impropérios às pessoas
que passavam por ali. As pessoas vivas, felizes e que respiram, passam
bruscamente por ele, como se fosse invisível. De certo modo, projetar uma onda
de “simpatia” não exige muito esforço. Ele cambaleia em direção ao meu
esconderijo, provavelmente imaginando porque pensou que poderia haver algo de
útil por aqui, abandonando completamente todos os seus instintos sensatos.
A escuridão me cerca e meus dentes são rápidos. Eu abro meu
caminho para o interior de seu pescoço, seu peito, e subo ainda mais na cadeia
alimentar. Eu estou fria. Tão gelada. Mas enquanto seu sangue e sua vida fluem
pela minha garganta, sou preenchida pelo calor, mamando em seu pescoço até que
o saco de carne fedida cai sem vida.
Um animal tem que matar para sobreviver, e se aprendi alguma
coisa nas últimas semanas, foi isso: certamente não sou mais humana. Sou muito
menos e muito mais!


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