segunda-feira, 2 de julho de 2012

Presente de Grego


Patrícia e Maurício formavam um casal incrível. Se conheceram em Campos do Jordão, em uma festa na casa do filho do deputado estadual, e algumas taças de vinho tinto depois, estavam aos beijos na varanda, contemplando a lua cheia e o céu estrelado da Serra da Mantiqueira.

Três semanas (e dezenas de e-mails e mensagens de texto) depois, alteraram seus “status” nas redes sociais para “namorando”. Em seguida, vieram os planos para casamento, aquisição de um apartamento na zona oeste de SP, almoços e jantares em família, filmes da Anne Hathaway etc.

O sexo era muito bom, mas com o passar dos meses, inevitavelmente caiu na rotina. Eles já conheciam bem as posições, que seguiam um roteiro fixo pré-determinado, que se repetia todas as semanas – sempre nas noites de sábado. Ou seja: um tédio!

Certo dia, Patrícia estava em seu escritório, baixando os e-mails, quando uma promoção de um site de compras coletivas lhe chamou a atenção: um book sensual, com produção profissional e 50 fotos, por apenas R$ 75,00. Ela riu sozinha, pensando em si fazendo caras e bocas para o fotógrafo, como se fosse uma “atriz/modelo/participante de reality show”. Em seguida mandou o e-mail para sua “lixeira” virtual.

Mas por alguma razão, a imagem de seu irmão mais velho, passando horas e horas no banheiro, acompanhado de velhas Playboys escondidas embaixo do colchão de sua cama, voltou nítida à sua mente. Patrícia sabia que todo homem, desde a mais tenra idade, sonha em sair com uma “garota da capa”. E não seria um bom presente para seu namorado?

Não... Ela não teria coragem! Até porque tinha seus pneuzinhos...

Mas puxa... Estava tão barato... E ela amava tanto Maurício...

Por alguma razão, ela resgatou o e-mail da lixeira e decidiu verificar quais eram as condições da proposta. Viu que a sessão seria realizada num estúdio próximo ao escritório (mediante prévio agendamento), por um fotógrafo famoso de sub-celebridades e sua equipe de apoio, e que o álbum seria entregue em no máximo 30 dias.

Ou seja: próximo ao dia dos namorados...

Patrícia riu novamente. E decidiu comprar o “cupom”.

Em sua hora de almoço, decidiu ligar para o tal estúdio. Uma voz feminina lhe atendeu:

- Estúdio Photoart, boa tarde...

Ela respirou fundo antes de responder, hesitante.

- Er... B-boa tarde... Sou Patrícia e hoje pela manhã, comprei pelo Coala Urbano um book...

- Pois não, dona Patrícia. Acredito que a senhorita tenha lido os termos e condições da proposta, não?

- Er... sim!

- Muito bem... O Roger, nosso fotógrafo, está viajando para o Rio de Janeiro, mas na sexta-feira estará de volta. Podemos marcar para... as 18:00?

- Não pode ser na hora do almoço? Por volta do meio-dia?

- Desculpe... Este é o horário mais corrido! Na verdade, trabalhamos até as 17:00, mas como muitas meninas estão comprando o book, iremos fazer um plantão extra na sexta, para dar conta de entregar até o dia dos namorados... Pode ser?

- Ok, marcado então! Preciso ir com alguma roupa ou...

- Não, não... Nós temos tudo aqui: figurino, maquiagem, apoio... Só precisa trazer o comprovante de pagamento, ok?

- Certo, obrigada!

Patrícia desligou o telefone e sentiu seu coração batendo forte.

“Nossa! Já era quarta-feira! A sessão de fotos estava marcada!”

Não tinha como voltar a trás...

Precisando desabafar, ela ligou para sua melhor amiga e contou o que iria fazer. Marcela riu muito, mas elogiou a coragem da amiga.

“Eu não sei se faria, porque estou uma baleia, mas você é tão linda, Paty! O Mau-Mau vai ficar doido! Hahahahaha! E oh: quero ver as fotos, hein?”

O resto da semana foi um longo tormento para Patrícia...

Ela não comia ou dormia direito. Também não conseguia focar no trabalho. Suas inseguranças quanto ao corpo e também quanto à seriedade do estúdio eram evidentes... Já pensou se eles jogassem suas fotos na internet? Ai, ai...

Ela decidiu não ir...

Melhor assumir o prejuízo do que correr o risco de se passar por ridícula!

Depois decidiu ir...

Ela nunca fugiu de nenhum desafio que se propôs na vida!

Mas... desta vez... ela não iria...

Ou melhor... ela iria sim...

Ou não...

Ou... talvez?

Sexta-feira, 17:30, seu computador desligando...

Ela se olhou para o espelho formado pela tela negra à sua frente, e viu seus cabelos soltos, levemente ondulados, emoldurando um lindo rosto maquiado – lábios grossos pintados com batom vermelho, base, rouge, lápis nos olhos, cílios postiços, sombra escura, valorizando o tom esmeraldino de seus olhos. Viu também seu decote, revelando um belo par de seios altivos, praticamente saltando de seu vestido preto.

Ela decidiu ir.

Pegou sua bolsa pequena e, decidida, despediu-se dos colegas de trabalho, marchando com seus saltos altíssimos pelas calçadas irregulares do centro velho da capital paulista.

Duas quadras depois, Paty chegou ao endereço – um velho edifício comercial decadente, sem portaria ou vigilância. Ela ainda conferiu se era o prédio certo – mas na recepção vazia, uma placa de metal em preto e prata anunciava o Estúdio Photoart no seu 6º andar – sala 601.

Nunca um elevador demorou tanto!

Ela decidiu ir embora.

Mas assim que a porta se abriu, no sexto andar, revelando uma porta de vidro jateado, onde lia-se “Estúdio Photoart” com letras estilizadas; com uma sala de espera com um sofá em couro escuro em “L” e uma bancada em madeira, onde uma bela loira com cara de ninfa falando ao telefone; Patrícia decidiu encarar logo sua “missão”!

A loira siliconada desligou o telefone e, com um largo sorriso, correu para abrir a porta para Paty, ainda desconfortável e insegura – mas um pouco mais tranqüila pelo aspecto profissional do lugar.

- Patrícia, creio eu?

- Sim!

- Sou Rebeca, prazer... Fique a vontade, viu? O Roger já está preparando o cenário para as tuas fotos com o pessoal da iluminação e cenografia. É a tua primeira vez?

- Er...sim...

- Então relaxe um pouco, menina... Você tem um rosto lindo! Bem fotogênico! Quanto mais relaxada estiver, mais interessante ficará teu ensaio... Aceita um suco, talvez uma taça de champanhe?

- Ai... você tem algo mais... forte?

A loira sorriu...

- Temos vodka também... além de uísque e tequila...

- Aff... aceito uma dose de tequila... Por favor!

- Sente-se, fofa... volto já!

Patrícia não se sentou. Ficou andando em círculos pelo carpete, olhando para os quadros na parede, para o mobiliário moderno e tentando mapear mentalmente como seriam os cômodos do interior do estúdio.

Perdida em seus devaneios, tomou um verdadeiro susto, quando ouviu uma voz grossa chamando por teu nome:

- Patrícia?

Ela virou-se rápido na direção da voz de trovão, e viu um homem na casa de seus trinta anos, cabelos castanhos levemente desgrenhados, barba cerrada e olhos azuis, usando botas, jeans e camiseta azul lisa agarrada ao corpo, revelando músculos bem definidos em seus braços e abdômen. Tinha um sorriso lindo, com lábios grossos e covinhas nos cantos e no queixo, transpirando sensualidade.

Se Apolo tivesse um avatar, certamente seria algo parecido com ele!

- Desculpe se te assustei... Sou Roger, fotógrafo... Muito prazer!

- Ai, imagina... Sou Patrícia! O prazer é todo meu...

Eles trocaram beijinhos no rosto.

Nisso, Rebeca voltou com uma taça de Margarita (uma dose de tequila, três colheres de suco de limão, duas colheres de licor cointreau, dois cubos de gelo flutuando e, nas bordas do copo, sal e uma fatia de limão).

- Desculpe a demora... mas acho que caprichei!

Os três riram.

- Bom, Roger... vai com cuidado, viu? A Paty é virgem!

- Não acredito! Sendo tão linda assim? Nunca tirou fotos profissionais?

Patrícia riu, sem graça.

- Mas fique tranqüila, viu? Sou profissional e tenho experiência de mais de quinze anos, com modelos e amadoras. O importante é você ficar bem relaxada e a vontade... Imagine que não sou eu, mas teu namorado sortudo que está segurando a câmera...

“Como diabos ele sabe que tenho namorado? Ah... que burra! Claro que ele viu a aliança de prata na minha mão direita!”

- Confesso que estou nervosa, Roger...

- Pois então sente ali no sofá... tome seu drink... enquanto a Receba te faz uma massagem... Eu e o Marco estamos terminando o cenário lá no estúdio, e daqui a pouco venho te chamar para começarmos, ok?

- Ok, obrigada...

Patrícia sentou-se no sofá, segurando a taça com suas mãos trêmulas. Levou o líquido à boca e sorveu-o com delicadeza, deixando que o álcool e o sal fizessem seu miraculoso trabalho... Em seguida, sentiu os dedos longos de Receba apertando seus músculos dos ombros, totalmente retesados. Como um mantra, a loira repetia: “Relaxa, mulher!”

Paty percebeu que Rebeca tinha experiência em massagens relaxantes, e por tua cabeça, pensou que uma garota como aquela deveria fazer bicos como “massagista” nas clínicas dos arredores da Rua Augusta. Depois ficou sem graça, como se repreendendo-se pelo pensamento maldoso...

Mas a massagem era muito boa... Tão ou mais quanto a própria tequila...

Os minutos passaram lentamente... e em certo momento, Paty chegou a gemer baixinho, tamanho o prazer que sentira, enquanto a bebida chegava ao cérebro e fazia o mundo ao seu redor girar...

Ela nunca foi muito forte para a bebida!

Tão logo tomou o último gole da bebida, Patrícia fora levada para o estúdio, onde viu um sofá de couro branco, em frente a um fundo azul, com refletores acesos e algumas araras de roupas nos cantos. Três pessoas conversavam com Roger. O bonitão deixou-os e veio caminhando na direção de Paty, segurando uma câmera fotográfica profissional.

- Sente-se um pouco no sofá, sim? Por enquanto vamos tirar algumas fotos para testar a luz do ambiente, ok?

Ela assentiu com a cabeça, um pouco aliviada por não ter que se equilibrar em cima de seus saltos altos...

E o bonitão começou a clicar... e clicar... e clicar...

Ele girava pelo estúdio, apontando sua máquina para o rosto de Paty, um pouco tímida a princípio, mas que no fundo, estava adorando ser o centro das atenções...

Ela se lembrava das modelos nas revistas de seu irmão...

E começou a fazer “caras e bocas” sensuais... arrancando risos do fotógrafo... e da platéia que assistia ao ensaio!

- Ok, Paty... Normalmente eu peço para as meninas trocarem o figurino para a sessão de fotos, mas você está tão linda, que seria um desperdício tirar este vestido... Vamos começar assim mesmo, ok? E... para você ficar mais a vontade... vamos ficar só nós dois, certo?

- Tudo bem...

- Rebeca, pessoal... fiquem lá fora... Eu os chamo se precisar...

Os quatro “intrusos” deixam o lugar e a porta dupla se fecha. Ele diz:

- Muito bem, Patrícia... Antes de começarmos, quero saber um pouco mais sobre você... teu namorado... Vocês estão juntos a quanto tempo?

- Vamos completar quatro anos de namoro...

- Que delicia... e já pensam em se casar?

- Sim... assim que entregarem nosso apartamento, o que está previsto para daqui a oito meses...

- Muito bom... Ele é um rapaz de muita sorte...

- Obrigada! Eu acho...

- Eu tenho certeza!

Ele se aproximou da modelo, tocando-lhe o rosto suavemente, com a ponta dos dedos. Ela sentiu suas pernas tremerem ao primeiro toque.

- Mas e você, Roger? Tem namorada? Casado?

- Não, Paty... minha vida é muito corrida... viagens... trabalho... não tenho tempo para compromissos... além disso... o ciúmes, né? Conheço tantas mulheres lindas...

Ela sorriu novamente... sem graça...

- Bom, podemos começar? Qual a tua expectativa para este ensaio?

- Quero que seja algo intenso... para despertar o desejo do meu namorado...

- Hummmm... intenso? É a minha especialidade...

- Sim... mas nada vulgar, viu?

- Claro, linda... só... picante, certo?

- Hahahaha... sim!

- Muito bem... Ajeite-se no sofá... isso... com as pernas cruzadas...

E os cliques recomeçaram...

- Isso, meu bem... faça um biquinho... mande um beijo para teu namorado!

Ela ria... ele também...

E os flashes ecoavam pelo estúdio escuro como se fossem relâmpagos...

- Agora tire a sandália... abaixada... mostrando o decote... Sensual, bebê!

Ela gargalhava... e se soltava com a personagem “sexy”...

- Que pezinhos lindos... Agora fique em pé, sim?

- Assim?

- Não... fique de costas para mim... Isso! Agora ajeite o cabelo...

- Melhorou?

- Perfeito... mas empine um pouco mais teu bumbum...

Ela sentia que o vestido subiu um pouco mais... revelando quase toda a extensão de suas coxas...

- Agora vire-se para mim... isso... levantando um pouco mais o vestido...

Ela puxou demais... revelando um pouco da calcinha...

- Perfeito! Perfeito demais! Você devia ser modelo, Paty!

- Ah, fala sério...

Ela olhou para o jeans do fotógrafo, e percebeu sua “empolgação”, mesmo por baixo da calça... Nunca havia visto algo assim! Ele riu e falou:

- Ainda duvida, depois disso?

Ela ficou ruborizada.

E a sessão continuou... cada vez mais ousada...

Ele se aproximava cada vez mais da modelo, que por sua vez, revelava mais detalhes de sua anatomia...

E o destino das sandálias, da meia-calça, do vestido, do sutiã e da calcinha foi o mesmo: o chão branco do cenário...

Completamente nua... de quatro sob o sofá... ela continuava fazendo caras e bocas... provocando o fotógrafo... que também se livrou de suas roupas... revelando seu corpo sarado e sua pica duríssima, latejando...

Ela nunca havia visto algo daquele tamanho...

Mas certamente estava louca para provar...

Como uma gatinha, ela desceu do sofá e, engatinhando, foi até o fotógrafo, registrando cada “passo” com seus flashes e cliques sem fim...

Ela segurou aquele mastro rígido, enchendo-o de beijos, afagos e saliva, com sua língua rodopiando ao redor da cabeça vermelha e de suas veias saltadas pulsantes... Em seguida, tentou engolir a espada, que invadiu sua garganta e chegou a sufocá-la por instantes! Mas logo sua língua tratou de ajeitá-la, lubrificando o suficiente para facilitar o vai-e-vem...

Profissional como só ele, Roger continuou registrando em suas lentes cada segundo da deliciosa chupada que vinha recebendo da modelo...

Mas estava na hora de encerrar a sessão... Afinal, onde se ganha o pão, não se come a carne... Aliás... que carnes ela tinha!

Roger deixou sua câmera ainda ligada no chão, e tratou de levantar Paty, deixando-a levemente apoiada sobre o braço do sofá, com o bumbum empinado, prestes a ser currada como uma cadela...

E o fez, sem piedade ou remorso!

Patrícia gemia... urrava... gritava... rebolava...

Era algo novo! Nunca havia sentido algo tão grande... nem tão intenso!

Nunca havia sido chamada de “vadia”, “puta” ou “cadela”...

E nunca havia gozado tão rápido...

Nem tantas vezes...

As transas com Mau-Mau duravam uns 15 minutos... eram lentas... permeadas de beijos e carinhos...

Já Roger a tratava como uma prostituta, dando-lhe tapas no bumbum e apertando teus seios com força... brutalidade até! E os 15 minutos se transformaram em 20... 30... 40... 50 minutos... e nada do garoto parar!

Ela mesmo já estava dolorida, ardida e esfolada, com câimbra nos pés, pulsos e joelhos, quando finalmente ele parou...sacando a camisinha cheia de leite viscoso de um pau ainda duro!

Ela não acreditava no que via...

Achava que era coisa de “filme pornô”...

Mas nesta longa tarde-entrando-pela-noite, descobriu que podia ser real!

Exausta e ofegante, viu seu fotógrafo se levantando e vestindo suas roupas, com um sorriso de orelha a orelha...

- Muito bem, dona Patrícia... Acredito que as fotos ficaram ótimas! Você é linda, e, como disse, teu namorado é um rapaz de muita sorte... Se quiser, pode tomar um banho ali atrás... Vou pedir para Rebeca te providenciar um jantar adequado, ok? Mas se me permite, terei uma outra sessão de fotos agora as 19:00 horas... Espero que tenha aproveitado, e tenha uma boa tarde!

Patrícia nunca se sentiu tão suja e usada...

As palavras frias e impessoais ditas pelo fotógrafo não combinavam com o delicioso ato por eles praticado... Tão intenso... tão... picante!

Depois do banho, ela percebeu que outra menina já estava sobre o sofá – uma ruiva bonita, um pouco mais nova que ela, usando um short jeans minúsculo e um top vermelho, insinuando-se para as lentes do sorridente fotógrafo...

“Maldito fotógrafo!” – pensou.

Maurício adorou as fotos da namorada, encartadas num álbum elegante e um estojo de madeira caprichado. Quis saber detalhes de como foi a sessão de fotos e se a trataram com respeito. Ela sorriu e disse apenas:

- Ah, Roger é um fofo... Super profissional! Nem sequer olhou para mim!

Coitado do Mau-Mau...

Mas, como dizia os bons e velhos poetinhas: Toquinho & Vinícius:

“Pois é, amigo! Você que está aí, com a boneca do lado, crente que é o amo e senhor do “material”, pode estar redondamente enganado... No mais das vezes ela anda distante, num mundo lírico e confuso, cheio de aventura e magia... E você nem sequer toca sua alma!”

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sexta-feira, 29 de junho de 2012

Cadeia Alimentar - Parte III


O demônio acena para mim do outro lado da pista de dança. Não importa quantas vezes eu venha aqui: a música parece sempre a mesma para mim agora. Sentada na mesma boate em outra noite de quinta-feira sem sentido, eu já nem me importo mais se o som é New Wave, Old Wave, Gótico, Industrial ou outra mistura horrorosa de Tecno com Dance – já não consigo mais diferenciá-las. Os mesmos ritmos pulsantes sacodem as janelas revestidas de preto da casa noturna, os mesmos corpos jovens e esguios se contorcem sob a ribombante batida da música e, mais uma vez, eu finjo beber minha cerveja aguada, olhando para a massa de carne suada diante de mim com doses iguais de luxúria e piedade.

O preto ainda está na moda (como sempre) e então eu me sento em um canto, com uma minissaia de couro preto comprimindo desconfortavelmente as minhas coxas atrofiadas. Quando olho para o espelho não é mais um manto de escuridão que me cerca, obviamente. É um visual completamente novo, não muito diferente daquele que eu costumava apresentar a cada noite durante milhares de noites em minha inexorável escalada rumo aos 30 anos de vida. Mas agora eu também posso brincar de ser Barbie. Eu aprendi a moldar a minha carne para me disfarçar como uma delas. E até estou usando minha calcinha da sorte!

Eu não entendo mais a última moda, mas com um pensamento posso fazer com que os outros acreditem que o meu visual É o auge da moda! Já dominei os segredos desta simples e patética ordem social. Um universitário atraente e estúpido passeia pela minha frente. Eu sorrio. Eu libero a instintiva “simpatia” que pulsa em meu atrofiado coração, e ele pára de passar por mim. Como um animal, ele é atraído por desespero e desejo, liberalmente misturados com a bebida e o êxtase. Eu conheço esses sentimentos bem, até demais, e reflito-os de volta para ele.

Ken puxa uma cadeira e senta ao lado da minha imitação de Barbie. Ele não se preocupa com os pensamentos que estão em minha mente, os sentimentos que estão em meu coração, ou mesmo quem eu sou. Posso sentir a vida pulsando através dele. Alguma quantidade de seu precioso sangue está se acumulando dentro de suas cuecas neste exato momento.

Eu jogo uma cantada, mas a música é tão alta que ele não escuta. Apenas finge uma risada. Sentei, assisti e aprendi essa rotina ao longo dos anos. Com um cambalear calculado, me levanto sobre minhas botas “vou te derrubar e te matar”, e me preparo para conduzi-lo ao beco próximo ao estacionamento da boate, para um pouco de diversão.

Diversão para mim, é claro. E para o meu amado demônio.

Depois de todo o meu sofrimento, miséria e desespero, agora conheço o verdadeiro significado deste lugar. Existem milhares de boates como essa. Elas estão abertas toda semana, e eu repito os mesmos movimentos, noite após noite, mês após mês, ano após ano. Já passei dos 30 há muito, muito tempo atrás, e francamente não estou nem aí!

Eu finalmente me conheço, sei o que sou verdadeiramente, e finalmente entendo que eu sou o topo da cadeia alimentar!

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Cadeia Alimentar - Parte II


A última semana é um borrão de lembranças sensoriais e flashbacks brutais. Ondas de dor lancinante, fome intensa e recorrente, e a resignação anestésica com a metamorfose de meu corpo. Eu daria qualquer coisa para já ter feito 30 anos. Ao invés disso, meu corpo está preso nesta morte-em-vida: minhas unhas pontudas estarão sempre com o mesmo tamanho, o ninho de ratos que é o emaranhado de meus cabelos estará sempre com o mesmo comprimento patético, e meu rosto vai estar esmagado da mesma forma todas as manhãs. Eternamente.

Após uma semana de espasmos, rastejando e lambendo o sangue do chão, após uma eternidade sendo incapaz de me afastar daquele horror dentro do espelho, eu finalmente acordei em um outro lugar. Algum lugar subterrâneo, com água corrente e o distinto odor de urina. Tremendo, eu me levanto sobre meus pés deformados, equilibro-me nos saltos agora quebrados e inúteis, e me cubro com o cobertor de lã que meu demônio deixou para mim. Estou sinceramente agradecida pela melhora. A blusa de seda e a minissaia da sorte ainda estão comigo, para me lembrarem de quem eu era, mas a suntuosa carne que me fazia ser reconhecida como “fêmea” já se atrofiou quase toda. Eu não sei mais o que sou. Mais uma vez, com o canto dos olhos, eu percebo que o demônio está me olhando sem ser visto. E está tão frio. Tão gelado.

Um rato corre para longe de mim, indiferente à minha presença, e por um momento eu posso sentir a energia e a vida pulsando dentro dele. Os nervos se contorcem, seu sangue pulsa, e a fome cresce dentro de mim novamente. Não é fome de carne, ou mesmo de sangue, mas de vida, para que eu possa continuar animando esta casca atrofiada que é o meu corpo. Intuitivamente meu corpo se agacha para que eu libere uma onda de piedade e misericórdia do fundo do meu coração atrofiado. A pequena criatura pára no seu caminho, olha para mim e então corre para cima de meu ombro, para arrastar seu pêlo coberto de feridas e crostas em mim.

Meus dentes são afiados e rápidos. A bile fria e nauseante obstrui minha garganta. Minha mandíbula estremece, e eu devolvo o que sobrou da carcaça do animal ao turvo e agitado rio de fezes que flui ao meu lado. À distância, eu sinto a aprovação do meu criador. Acabei de passar no primeiro teste. “A vida é uma merda”, penso reflexivamente. “Mas agora estou morta”.

O demônio nunca aparece para mim. Ele apenas me conduz, como naquela primeira noite na boate. Eu não tenho idéia do porquê. Talvez ele tenha toda a eternidade diante de si e isso o entretenha. Talvez tenha planos para mim. A maior parte do tempo ele não parece se preocupar se eu serei morta ou se meu corpo trôpego vai apenas parar de se mover por completo, mas me olha cuidadosamente, como um pai cruel e exigente. Talvez eu seja um elemento descartável em algum de seus planos, mas isso não importa. A maior parte da minha atenção está focalizada em memorizar os caminhos nestes túneis subterrâneos, escondendo-me dos passos acima do solo e planejando novas maneiras de conseguir sangue. Eu sei que, se eu falhar, meu demônio me matará. Se não ele, então qualquer ser humano que me encontrasse com certeza iria querer me matar.

Mas esta noite estou de volta em minha antiga área de caça. Chega de sangue de rato. Eu subi na cadeia alimentar. Eu me agacho nas sombras de um beco, contando quantos passos de distância me separam do bueiro atrás de mim (caso eu precise fugir). As sombras me envolvem – com um pensamento eu consigo enrolar camadas de escuridão em torno de mim, como eu fazia com o cobertor de lã que joguei fora há uma semana. Eu me agacho como um animal, como uma fera, como o monstro que sou, e mais uma vez, através de camadas e mais camadas de dor, eu abro meu coração negro com sentimentos de “necessidade”, “piedade” e “misericórdia”. Parece que eu tenho um certo talento para isso!

No intervalo de uma batida do coração (pelo menos do meu ponto de vista, já que o meu não bate mais), um tolo tagarelante que vagava pela rua, a cerca de 15 metros de distância pedindo esmolas, está olhando para dentro do beco. Há minutos atrás, ele estava lançando impropérios às pessoas que passavam por ali. As pessoas vivas, felizes e que respiram, passam bruscamente por ele, como se fosse invisível. De certo modo, projetar uma onda de “simpatia” não exige muito esforço. Ele cambaleia em direção ao meu esconderijo, provavelmente imaginando porque pensou que poderia haver algo de útil por aqui, abandonando completamente todos os seus instintos sensatos.

A escuridão me cerca e meus dentes são rápidos. Eu abro meu caminho para o interior de seu pescoço, seu peito, e subo ainda mais na cadeia alimentar. Eu estou fria. Tão gelada. Mas enquanto seu sangue e sua vida fluem pela minha garganta, sou preenchida pelo calor, mamando em seu pescoço até que o saco de carne fedida cai sem vida.

Um animal tem que matar para sobreviver, e se aprendi alguma coisa nas últimas semanas, foi isso: certamente não sou mais humana. Sou muito menos e muito mais!

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Cadeia Alimentar - Parte I


A música parece sempre a mesma para mim agora. Sentada na mesma boate em outra noite de quinta-feira sem sentido, eu já nem me importo mais se o som é New Wave, Old Wave, Gótico, Industrial ou outra mistura horrorosa de Tecno com Dance – não consigo nem mais diferenciá-las. Os mesmos ritmos pulsantes sacodem as janelas revestidas de preto da casa noturna, os mesmos corpos jovens e esguios se contorcem sob a ribombante batida da música e, mais uma vez, eu cuido da minha cerveja aguada, olhando para a massa de carne suada diante de mim como já fiz em tantas noites passadas. Noites demais para se contar.

O preto ainda está na moda – como sempre – então eu me sento em um canto, com a minissaia de couro preto comprimindo desconfortavelmente as minhas coxas. Quando eu era mais jovem como as outras garotas na pista de dança esta noite, minhas pernas eram meu maior patrimônio. Agora eu só tenho um... bem, vocês sabem. Uma bunda enorme aquecendo um banquinho desconfortável!

Balanço meus pés para frente e para trás dentro de um par de saltos do tipo “derrube-me e me possua”, tomando outro gole de cerveja. Quando eu era mais jovem, noites como esta pareciam grandes aventuras. Agora, é claro, estou à beira dos 30 e a piada ficou velha, assim como eu. Meu turno da manhã, processando cheques no banco em mais uma “maldita-manhã-de-sexta” está a apenas seis horas de distância. Posso sentir um cronômetro marcando o tempo como uma bomba-relógio dentro de mim. O tempo está acabando, querida. O tempo está acabando.

Sorrio enquanto outro cara passa...

Espero que ele se vire e volte...

Talvez espere que ele não o faça!

Onde foi que eu errei?

Não me entenda mal, conseguir companhia por algumas poucas horas não é o problema. Uma vez que você reduz as suas expectativas o suficiente, tudo é possível. Mas as milhares de noites de quinta-feira (ou sexta, sábado, domingo, segunda...) que eu imaginava estarem à minha frente quando eu tinha 15 acabaram! Não importa qual seja o padrão para ir a uma boate – eu sou uma pária, pela idade e pela aparência, caçando aquilo que eu consigo pegar na base da pirâmide social, perto do final da cadeia alimentar. Eu não posso mais competir com as “Barbies” impossivelmente magras que me cercam...

Barbie e suas amigas estão usando muito preto esta noite – divulgando o estilo retro que abandonei quando eu tinha 17. Talvez esteja na moda de novo e eu nem mesmo saiba. Oh, Deus! Será que estou tão velha assim? É tão visível assim? Não... Não atrás da máscara que eu uso! Minha maquiagem está imaculadamente perfeita – uma cuidadosa mistura de branco pálido com o batom preto da própria Morte. Meu cabelo está arrumado do mesmo jeito que o de uma rainha gótica, das quais as crianças daqui nem devem se lembrar mais. Eu também estou usando minha calcinha da sorte, apesar de sua sorte ter se esgotado há muito, muito tempo atrás. Quando eu começo a suar por causa do calor e da energia desesperada da boate, percebo que chegou aquela hora da semana quando vou para a pista de dança e uso a única habilidade negociável que ainda possuo.

Eu danço.

Uma vez que o movimento começa, minhas dúvidas desaparecem. Eu não ligo para quão pretensiosa é a rotina de realizar as mesmas poses toda semana pela milésima vez em mais uma boate idiota. Eu esqueço das rodopiantes nuvens de angústia adolescente que me cercam. A música que penetra em meu crânio soa vagamente industrial, mas eu sequer paro para pensar no que realmente é. Eu só espero que alguém venha e me leve para longe de tudo isso, e é melhor que ele venha fazer isso imediatamente. Se minha dança não funcionar, sei como a noite vai acabar: vou cambalear até minha casa para cuidar de meus gatinhos, lerei as partes picantes de outro romance erótico e sonharei com meu suicídio.

Por piedade: alguém acabe com isso!

Com o canto dos olhos percebo que meus movimentos realmente conjuraram alguém. Cabelos pretos, calças pretas, camisa de uma banda que eu não consigo identificar e botas lindas “de morrer”. Ele atravessa a pista de dança, diretamente até onde estou, desfilando pela boate como se realmente pertencesse àquele meio, apesar do pequeno ankh de prata que traz pendurado em seu pescoço. Há quanto tempo aquilo saiu de moda? E ainda por cima está usando óculos escuros aqui dentro.

Perdedor!

Igualzinho a mim!

Ele passa por um garoto magricelo cheio de pose, e repentinamente vira de costas para mim para dar um susto no “mauricinho”. O moleque pula para trás, derrubando sua bebida enquanto corre para a porta. Sim, eu conheço esse tipo. Ele acha que é o “Amante Infernal”, mas eu acho que ele está levando a brincadeira gótica longe demais. Como se eu pudesse falar alguma coisa...

Mas... perdedor ou não... até que ele é bonitinho...

Algumas Barbies tentam chamar sua atenção, mas ele age como se soubesse que estou olhando para ele. “Noite de amor piedosa?”, penso comigo. Mas chega: ele está vindo na minha direção. Minha dança do desespero continua, mesmo sem que eu saiba qual música está tocando (como se isso importasse). Oh, Deus, deve ser a noite do flashback – estão tocando “Tin Omen” de novo. Ele faz pose na minha frente e lança sua cantada. Eu sequer consigo ouvi-lo; apenas rio e continuo dançando. Ele é bonito o suficiente para matar o tempo até que eu tenha que voltar para casa. Que casa? Eu não ligo mais porque já estou zonza – tanto pelas bebidas caras quanto pelo meu “Amante Infernal” na minha frente. De pé ao meu lado. Me segurando. Sou fácil demais e nem ligo!

Pouco tempo depois, nós saímos da pista de dança. Dois drinques e um redemoinho de músicas ruins depois, ele está me levando para fora, e eu sigo seus passos. Qualquer coisa para sair desse lugar. As paixões que senti com tanta intensidade há 10 anos atrás começam a ressurgir agora, mas elas não me surpreendem mais. Eu já passei por esta dança muitas vezes, seguindo os mesmos movimentos uma vez mais, demonstrando que permito que ele me guie até o seu carro.

Oh, um carro esporte! Como estou surpresa...

Eu rio e tropeço com o tempo calculado enquanto me abaixo até o banco do carro, cambaleando sobre meus saltos. O cinto de segurança estala no lugar, e eu ajusto minha minissaia preta para obter o máximo de efeito. Momentos depois ele se senta no banco do motorista, e eu deixo tudo correr do modo mais rápido. Não preciso mais do cinto de segurança... ele já me prendeu... e sou tomada por um curto de adrenalina enquanto ele se reclina para beijar meu pescoço, me imprensando contra o banco de couro. Apertando com muita força.

É um sonho. Rapidamente seguido de um pesadelo. Estou sangrando!

Sinceramente, não consigo me lembrar do que aconteceu depois. Penso que senti algo que deveria ser no mínimo erótico nos minutos seguintes. Talvez tenha sido medo intenso, a rendição à uma força avassaladora ou pelo menos dor. Eu só me sinto anestesiada. Assim deve ser melhor. Eu me lembro de uma quantidade horrível de sangue. Sangue até demais, jorrando pelo rosto do meu amante, sobre seus lábios, sobre meus lábios? Eu não sei. Algo horrível aconteceu, porque me lembro de ter olhado para o seu rosto em um dado momento, quando ele já não era mais tão terrivelmente lindo...

Talvez seja minha mente que o tenha reconstruído como algo horrendo. Após sairmos da boate, sua colônia tinha um odor muito pior do que o habitual. De qualquer modo, era impossível tolerar aquele cheiro. Depois de ter começado, o Amante Infernal se foi, deixando-me com um demônio agachado sobre meu corpo inconsciente. Minha mente se lembra dele como se fosse algo saído de um daqueles filmes muito antigos. Pele cinza, dentes afiados, unhas compridas e o fedor de esgoto. Ele fedia como uma coisa morta, fria e trêmula. Ou será que isso vinha de mim? Ou isso sou eu agora?

Meus olhos estão fechados e o chão de concreto debaixo de mim é muito duro. Tão frio. Tão gelado. Minhas entranhas parecem ter atrofiado, minha pele coça terrivelmente, e minha garganta está seca e... sedenta! Luzes brilhantes piscam ao meu redor. Então eu cometo o pior erro da minha vida. Um erro muito pior do que ter sentado no banco de passageiro daquele carro esporte...

Eu abro meus olhos!

Sabe, quando eu tinha 14 anos, costumava sonhar com o vampiro Lestat vindo e me levando para longe de tudo. Você poderia dizer pelo modo como estava vestida ontem a noite que eu fantasiava sobre vampiros, e meu Amante Infernal provavelmente percebeu isso. Não me admira então sua cantada ter sido tão bem ensaiada. Eu nunca havia sonhado que seria deste jeito...

Diante de mim está um espelho perfeito, com seis metros de largura. Minhas coxas grossas são o menor dos meus problemas agora. Meu cabelo negro como um corvo, que de modo algum se comportava como eu queria, é agora uma massa imunda e emaranhada, caindo aos tufos. Meus dentes, que eram como pérolas e que eu escovava fielmente quatro vezes por dia, apodreciam diante dos meus olhos. Camadas de pele apodreciam, tornando-se lentamente algo parecido com a carapaça de um réptil. Quantas vezes eu olhei para meu rosto procurando pela menor imperfeição ou espinha? Algo bastante discutível para se fazer agora...

A inútil blusa de seda que eu vestia (a sei lá quanto tempo) agora se enrolava ao redor de um peito escavado, e minhas pernas se atrofiavam dentro da minissaia de couro. Meus olhos afundaram em suas órbitas.

Então eu percebo que não estou mais respirando.

O rosto que eu estava acostumada a encarar todas as manhãs, tardes e noites, cuja menor das falhas era parte integrante da minha identidade, se foi. Se meu nariz era pequeno demais ou se meus lábios eram muito grossos, e todas as malditas dicas de maquiagem que acumulei ao longo dos meus anos de adolescência, tudo isso era irrelevante agora! Repentinamente, me senti uma besta por ter gasto tanto tempo com minha vaidade, porque não importava o quão mal eu estava de manhã ao acordar – aquilo era infinitamente melhor que a coisa escavada, escamosa, com olhos fundos e boca larga que eu via agora, no espelho diante de mim...

Eu não sou mais eu. Eu não posso mais ser eu mesma. Eu tenho que me tornar outra pessoa. Porque se não fizer isso, ficarei completa e delirantemente louca!

O demônio de que me lembro, agachado sobre meu corpo, não foi fruto da minha imaginação. Era real. E eu posso ver no espelho que ele se aproxima por trás de mim, mas estou fraca demais para me virar. Eu quero odiar. Cuspir na sua cara horrenda. Ou pelo menos resistir. Mas então a primeira onda de dor banha meu corpo.

E o pesadelo continua...

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quinta-feira, 21 de junho de 2012

Camões e a Crise na Zona da Euro!

                                I


As sarnas de barões todos inchados
Eleitos pela plebe lusitana
Que agora se encontram instalados
Fazendo o que lhes dá na real gana
Nos seus poleiros bem engalanados,
Mais do que permite a decência humana,
Olvidam-se do quanto proclamaram
Em campanhas com que nos enganaram!

                                II

E também as jogadas habilidosas
Daqueles tais que foram dilatando
Contas bancárias ignominiosas,
Do Minho ao Algarve tudo devastando,
Guardam para si as coisas valiosas
Desprezam quem de fome vai chorando!
Gritando levarei, se tiver arte,
Esta falta de vergonha a toda a parte!

                              III

Falem da crise grega todo o ano!
E das aflições que à Europa deram;
Calem-se aqueles que por engano
Votaram no refugo que elegeram!
Que a mim mete-me nojo o peito ufano
De crápulas que só enriqueceram
Com a prática de trafulhice tanta
Que andarem à solta só me espanta.

                             IV

E vós, ninfas do Coura onde eu nado
Por quem sempre senti carinho ardente
Não me deixeis agora abandonado
E concedei engenho à minha mente,
De modo a que possa, convosco ao lado,
Desmascarar de forma eloquente
Aqueles que já têm no seu gene
A besta horrível do poder perene!


      Luiz Vaz Sem Tostões - Texto anônimo, recebido por e-mail

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Amor nos tempos dos Grilhões...


Era um sonho dantesco... o tombadilho,
Tinir de ferros... estalar do açoite...

Legiões de homens negros como a noite, 
Horrendos a dançar...

Negras mulheres, levantando às tetas 

Magras crianças, cujas bocas pretas 
Rega o sangue das mães: 
Outras, moças... mas nuas, assustadas, 
No turbilhão de espectros arrastadas, 
Em ânsia e mágoa vãs.

Um de raiva delira, outro enlouquece... 

Outro, que de martírios embrutece, 
chora e dança, ali.

Senhor Deus dos desgraçados! 

Dizei-me vós, Senhor Deus! 
Se é loucura... se é verdade 
Tanto horror perante os céus...

Quem são estes desgraçados 

Que não encontram em vós 
Mais que o rir calmo da turba

Dize-o tu, severa musa, 

Musa libérrima, audaz!

São os filhos do deserto 

Onde a terra esposa a luz. 
Onde voa em campo aberto 
A tribo dos homens nus...

São os guerreiros ousados, 

Que com os tigres mosqueados 
Combatem na solidão...
Homens simples, fortes, bravos...
Hoje míseros escravos 
Sem ar, sem luz, sem razão...

Lá nas areias infindas, 

Das palmeiras no país,
Nasceram crianças lindas,
Viveram moças gentis...
Passa um dia a caravana 
Quando a virgem na cabana 
Cisma das noites nos véus...
...Adeus! ó choça do monte!...
...Adeus! palmeiras da fonte!...
...Adeus! amores... adeus!...

Senhor Deus dos desgraçados! 

Dizei-me vós, Senhor Deus! 
Se é loucura... se é verdade 
Tanto horror perante os céus...

Ó mar, por que não apagas 

de tuas vagas 
De teu manto este borrão? 
Astros! noite! tempestades! 
Rolai das imensidades! 
Varrei os mares, tufão!...

E existe um povo que a bandeira empresta 

P'ra cobrir tanta infâmia e covardia!... 
E deixa-a transformar-se nessa festa 
Em manto impuro de bacante fria!...
Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta, 
Que impudente na gávea tripudia?!...

Auriverde pendão de minha terra, 

Que a brisa do Brasil beija e balança,

Antes te houvessem roto na batalha, 

Que servires a um povo de mortalha!...

...Mas é infâmia demais...

Da etérea plaga
Levantai-vos, heróis do Novo Mundo... 
Andrada! arranca este pendão dos ares! 
Colombo! fecha a porta de teus mares!

O Navio Negreiro, de Castro Alves




Não me lembro direito...

Neste momento, não vem a noção de tempo e nem de espaço...

Lembro-me apenas dos fatos!

Mas uma coisa é certa: se me lembro dos fatos é porque presenciei tudo no passado... ou será que acontecerá no futuro?

Lembro-me da boca salgada pela maresia e das costas lanhadas pela tempestade. Lembro-me também do desembarque, engolindo água; e do meu corpo boiando com as águas, arrastando folhas, conchas, areia...

Lembro-me do choro das crianças e dos corpos flutuando sem vida, tingindo de vermelho as ondas que me empurravam para a costa, enquanto peixes famintos os devoravam...

E, apesar de tanto horror, não posso me esquecer da incrível beleza dos coqueirais, nem dos arrecifes que formavam piscinas naturais! Não dá para esquecer a floresta exuberante, o mangue e a areia fina, quente e branca que acariciava meus pés...

Acho que foi assim que cheguei ao Novo Mundo!

Nua... exausta... faminta... assustada... encantada... aliviada!

Lembro-me de ter sido levada até um vilarejo, de casas simples e ruas de pedras brutas, iluminadas por tochas acesas, onde ocorria uma grande feira livre...

Lembro-me daquela fartura de alimentos, do cheiro gostoso das frutas, e dos olhares daqueles senhores bem trajados, admirando meu corpo negro, despido de roupas e de vergonha...

Tenho que confessar que gostei...

Pela primeira vez em minha vida, fui tratada como uma princesa, sendo cortejada por dezenas de compradores. Mas a minha satisfação não se refletia no rosto de Aysha. Seu olhar transmitia um misto de ódio e angústia, prestes a explodir numa combustão repentina...

Ela era uma garota muito bonita. Tinha mãos grandes, pernas grossas, bumbum enorme, seios fartos e cintura minúscula, com lábios carnudos e feições delicadas. Mas era seu olhar que me impressionou. Parecia uma leoa, selvagem e imponente, capaz de abater sua presa em segundos...

Apesar do contraste, um único comprador escolheu nós duas.

Era um senhor de mais ou menos cinqüenta anos, bem trajado, com fartos bigodes brancos e um semblante neutro, acompanhado por um assistente baixinho e asqueroso, com rosto que lembrava um rato. Nosso novo dono ordenou:

- Vista as duas e vamos embora, Nicolau...

- Sim, senhor Joaquim! O senhor fez uma boa escolha!

- É claro que fiz... vamos!

Nicolau cobriu nossos corpos com túnicas negras e nos levou até sua carroça, onde permanecemos por umas duas horas, sacolejando entre galinhas d’angolas e frutas frescas. Eles permitiram que nos alimentássemos com duas suculentas goiabas.

Durante a viagem, tentei conversar com ela:

- Oi... meu nome é Malika... E o seu?

- Me chamam Aysha...

- Prazer, Aysha! Não se sente contente por ter sido escolhida por um bom homem?

- De onde vim, não tinha o costume de ser tratada assim...

- Mas estamos sendo bem tratadas...

- Você sabe o que eu quero dizer...

Não consegui arrancar mais nenhuma palavra dela por cinco dias!

O Senhor Joaquim nunca encostou a mão em nós. De fato, em sua mansão, não éramos tratadas como escravas. Apesar de ter obrigações a cumprir, tudo era compensado por muitas mordomias.

Fomos compradas para trabalhar atuando em peças teatrais para um público selecionado. Simplesmente a elite! Capitães, Coronéis, Fazendeiros...

Semanalmente, encenávamos peças gregas, permeadas de muito sexo explícito e humor!

Eu representava meu papel e era prazeroso para mim!

Sentia que era desejada por aqueles homens poderosos!

E invejada por suas mulheres branquelas sem-graça!

Mas Aysha não sentia a mesma coisa. Ela chegou a passar mal e nos fez cancelar dois espetáculos...

O Senhor Joaquim ficou furioso como eu nunca tinha visto, e disse que se ela não melhorasse seu desempenho, iria ser trancada e abandonada dentro de um formigueiro!

Uma bela manhã, na senzala, perguntei se ela enxergava o fato de muitas escravas implorarem para estar no lugar dela. Ela não respondeu com palavras, mas seu olhar disse tudo. Eu insisti:

- Me diz, Aysha, porque toda esta angústia? Toda essa tristeza?

Para minha surpresa, pois estava acostumada a ser ignorada por ela, desta vez Aysha respondeu:

- Se você enxergasse as coisas como eu enxergo, talvez entenderia...

- E como você enxerga?

- Vou lhe responder com outra pergunta: o que é o amor para você?

Não pude conter uma gargalhada...

- O amor é uma piada sem graça! Vivo muito bem sem isso! E para você, o que é o amor, hein? Me diz o que é o amor...

- Respondo-lhe depois... Antes, peço que busque lá em seu âmago, a imagem da primeira pessoa que vem à sua cabeça...

Fiz o que ela mandou. Fechei meus olhos e pensei na primeira pessoa... A imagem surgiu com tanta clareza quanto o real. Era um lindo jovem negro, careca e musculoso, com um sorriso maravilhoso, usando roupas de caçador e empunhando uma lança afiada, emanando uma luz intensa...

Somente depois de alguns segundos sua luz clareou minha memória e me fez lembrar quem era... Uma pessoa muito importante para mim no passado... Permaneci em transe, mas consegui esboçar algumas palavras trêmulas:

- R-res...ponda-me... o... que é... o amor...

Aysha segurou minha mão direita e a levou até seu seios, ordenando:

- Toque-me!

- M-mas... o que... você... está... fazend...

Meu corpo estremeceu, num súbito voejar de sentimentos e extasiantes sensações ao sentir meus pêlos pubianos eriçando sobre a minha pele, como se fossem pequenas árvores prestes a serem arrancadas do solo úmido e quente por uma forte ventania...

Ainda com os olhos fechados, vi meu gozo rodopiar incessantemente dentro de minha grutinha...

Suas mãos inquietas enroscaram em meus cabelos, assim como sua língua percorria meu corpo, me bebendo toda, me deixando zonza de tanto prazer...

Senti algo estranhamente diferente do que sentia durante as relações sexuais mecânicas que mantinha com meus amos...

Senti algo verdadeiro!

Senti que podia olhar e ir adiante!

Senti que podia ir além e que o infinito é só o começo!

Enfim, senti minhas pernas fraquejando... e meu corpo sendo tomado por tremores incontroláveis, enquanto meu sexo escorria um líquido farto por minhas coxas...

Ainda ofegante, vi Aysha se afastar de mim, limpando sua boca com as costas das mãos, e dizendo friamente:

- Isto, Malika... é o amor!

Me senti atordoada e permaneci calada o resto do dia. Fiquei sem entender o que Aysha havia feito comigo.

Ao anoitecer, encontrávamos no camarim, nos preparando para o show daquela noite. Angustiada como sempre, disse que não iria atuar de novo.

- Não diga isso, Aysha... Você é muito estranha, sabia? O que fez comigo pela manhã? Sinto-me mal até agora!

- Apenas te mostrei o que realmente penso e sinto... Não suporto viver dessa maneira! De onde vim, não existem pessoas vendendo outras como mercadorias! Não há comércio de sexo! As pessoas vivem livremente para fazer o que quiser! O contato com a natureza fazia de nós pessoas mais humanas!

- Foi lá com seu povo que você aprendeu tudo o que sabe sobre o amor?

- Claro! Aqui as pessoas tratam o prazer como um elemento isolado! Lá, o prazer é visto como mero coadjuvante, intimamente ligado ao amor!

Naquele exato momento, o Senhor Joaquim e o seu assistente Nicolau entraram no camarim. Pelo visto, estava muito bravo...

- Andem logo vocês duas... Estamos com a casa cheia e o show está atrasado!

Aysha se levantou da cadeira e falou:

- Eu não atuarei hoje, Senhor Joaquim... Desculpe...

Ela não devia ter dito aquilo, pois o Senhor Joaquim não estava num dos seus melhores dias. Ele agarrou os cabelos dela, puxando-os como se fossem rédeas, e bradou:

- Ora, sua vadia! Não me faça perder a paciência contigo!

Em seguida, esbofeteou seu rosto, a ponto de deixar a marca de seus dedos em suas bochechas. Nunca vi tanto ódio no olhar de Aysha!

Ajudei-a a ficar em pé, e nós duas fomos para o palco, onde os outros atores já nos aguardavam. Aysha permanecia em silêncio, fulminando o Sr. Joaquim com seu mais assustador olhar ferino...

O mestre de cerimônias anunciou:

- E COMEÇA AGORA O MAIOR ESPETÁCULO DE TODOS OS TEMPOS! VEJAM, SENHORAS E SENHORES, A GUERRA DE TRÓIA!!!

As cortinas se abriram e lá estávamos todos nós, representando soldados gregos e troianos, empunhando espadas e bordunas...

Neste momento, o Sr. Joaquim, sentado no seu trono no centro do palco, interpretando o Rei Xerxes, percebeu o grande erro que cometera, ao dar uma espada verdadeira para Aysha...

Rápida como um leopardo, minha amiga correu em direção dele com a espada em punho, e num movimento perfeito, cravou a lâmina afiada nas entranhas de nosso dono. Antes de morrer, Joaquim ainda tentou segurar suas próprias vísceras, mas era tarde... Não havia nada a ser feito!

Aysha tentou usar a mesma espada outra vez, mas a arma prendeu-se nos ossos da costela de seu algoz, e ela não teve forças para sacá-la, antes que as lanças afiadas dos seguranças do teatro trespassassem seu lindo corpo em oito pontos diferentes...

Desesperada, me levantei e abracei o que restou de Aysha...

Seu sangue quente banhou meu corpo...

E minhas lágrimas lavaram seu rosto bonito...

As cortinas se fecharam...

E o público aplaudiu de pé... por vários minutos...

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