quarta-feira, 20 de junho de 2012
Pedagogia das Calçadas
São Paulo, a maior metrópole da América Latina, tem muitas
faces. Às vezes perigosa. Freqüentemente emocionante. Sempre eterna em sua
beleza. Pelo menos, esta é a visão dos moradores dos Jardins, que vivem suas
vidas em palacetes suspensos, tão seguros quanto seus veículos blindados, que
desfilam pela Rua Oscar Freire, admirando suas vitrines imponentes e sonhando
com a aquisição de caríssimos produtos supérfluos – essenciais para suas vidas
vazias...
Mas foi ali, naquelas calçadas niveladas e arborizadas, onde
os postes sequer mostram sua fiação, entre restaurantes, cafés e as principais
marcas internacionais, que uma insólita aula de português aconteceu.
Waldinéia, ou simplesmente Néia, estava sentada em um dos
bancos de concreto olhando para uma calça jeans, toda rasgada, mas que custava
R$ 5.000,00. As elegantes senhoras, habitués daquele ambiente, fuzilavam-na com
o olhar. Néia sentia-se como uma célula cancerígena durante uma sessão de
radioterapia...
Desde menina, Néia sempre trabalhou em casa de família. Era
uma excelente cozinheira. Nunca se importou em acordar com as galinhas e
enfrentar horas de coletivo, cruzando a metrópole até chegar às mansões mais
requintadas da Zona Sul paulistana...
Quando era jovem, suas curvas avantajadas de mulata renderam-lhe
diversos “agrados” dos patrões e seus filhos, incapazes de assumi-la publicamente
perante uma sociedade hipócrita (uma negra? Empregada?), mas interessados em freqüentar
seu quartinho na calada da madrugada...
Mas o tempo passou, suas curvas se foram (juntamente com os
seus dentes), e tudo que restou foi uma velha negra, analfabeta e obesa, com
muitas pústulas pelo corpo, inviabilizando seu trabalho.
E mesmo com os programas sociais do governo, Néia sabia que
viver em São Paulo era muito caro – e dependia das migalhas dos endinheirados,
sempre ávidos a colaborar com as classes menos favorecidas... desde que estes
se mantivessem longe de suas vidas perfeitas!
Este foi o erro de Néia...
Mendigar na elegantíssima Oscar Freire?
Mas não foi através da truculência policial que nossa heroína
fora atacada... Pelo menos, não desta vez!
Uma elegante senhora, vestida como sósia da “Super Nanny”,
conduzia um grupo de vinte garotinhas encantadoras – todas loirinhas,
gordinhas, entre oito e nove aninhos, vestidas com sapatinhos pretos, meias
brancas na altura das canelinhas roliças, saias xadrez, blusinhas brancas (com
o distintivo de um elegante colégio particular bordado sobre o peito) e cabelos
presos para trás.
Este “exército” marchava veloz pelas calçadas, contemplando
o luxo, quando a sua “capitã” ergue as mãos, exigindo a parada imediata das
pequenas. Todos os quarenta e dois olhos se voltam para aquela mulher negra,
vestindo roupas sujas, emanando um cheiro asqueroso, invadindo um território
onde obviamente não era bem vinda, e tomando para si um banco, ao lado de uma
caneca de metal enferrujada com alguns trocados e segurando um cartaz, onde
dizia:
TENHA PIEDADE DESTA POBRE INFELIZ. EU DEIXI O HOSPITAU DI
MANHA DISPOIS DE UMA OPERAÇÃO DE TUBERCULOSE. TÔ FAMINTA E NUM TENHU DINHEIRU
PRÁ COMPRAR O MENOR BOCADO DE COMIDA. ALÉM DO MAIS, TÔ DESEMPREGADA E ANGUSTIADA.
AJUDE COM QUALQUER TROCADO. QUE DEUS O BENÇOE.
A “capitã” ajeitou os óculos fundo de garrafa e respirou
fundo. Ordenou:
- Senhoritas, queiram ler atentamente a redação que vemos
aqui...
As meninas se aglomeraram diante do cartaz, lendo em
silêncio por alguns minutos. Quando as primeiras terminaram, a elegante senhora
as indagou solenemente:
- Então, senhoritas? Algum comentário?
- Eu, madame!
- Está cheio de erros, madame!
- Eu! Eu sei, madame!
- Madame, não está escrito corretamente!
A professora respira fundo e continua:
- Senhoritas, na verdade, este cartaz é um insulto! Uma
pedra no lago da Língua Portuguesa! Se Camões o lê-se, certamente voltaria
correndo para seu próprio túmulo! Sofia, o correto é “eu deixi o hospitau esta
manha” ou “eu deixei o hospital esta manhã”?
- O correto é “eu deixei o hospital esta manhã”, madame!
- Muito bem, Sofia! “Eu deixei” é o pretérito perfeito do
verbo “deixar”, mas quem pode me dizer o que é o pretérito perfeito?
- É o tempo verbal que indica já ter passado a ação do verbo!
- Muito bem, Josy! Hummmm... que tal um pequeno exercício
para a senhora? Conjugue “estar faminta” no presente do subjuntivo, por
favor...
Néia, assustada, olhou para os lados. Não viu ninguém. Então
perguntou:
- Q-quem, madame? E-eu?
- Sim, a senhora! Vamos!
- Er... deixa ver... o presente... do subjuntivo... é... ah,
sim... é mais do que perfeito... quer dizer... “eu estaria faminta”? ou... “ele
estaria faminto”... ou ainda “nós estamos famintos”?
- Oh, meu Deus! Que lástima! Uma resposta desta merece um
Chapéu de Burro enfiado na cabeça da senhora!
- CHAPÉU DE BURRO, CHAPÉU DE BURRO!!! (todas as garotas em
côro).
- NÃO!!! NÃO!!! CHAPÉU DE BURRO NÃO!!! Por favor... por
favor... A culpa não é minha... Eu tava doente... Ontem me operaram... Uma
ferida horrível...
- Horrível é este seu texto! Que prazer maldoso a senhora
sente em torturar a língua pátria? Nós vivemos em uma sociedade de comunicação,
onde a sintaxe de sua mensagem, deve ser o diapasão da eficácia que desejas
auferir! Nada impede que a senhora use aforismos, fórmulas concisas fortes,
cáusticas como um grito! Poderia ser “Eu não tenho dinheiro” ou “Estou com fome”.
Poderia ainda bailar com a delicadeza da rima dos versos alexandrinos... Maria
Cláudia, dê-nos uma idéia geral de como você redigiria seu cartaz...
- Madame, que tal: “Senhoras e senhores, desta pobre
criatura tenham piedade. No hospital, ainda ontem, sofri cirurgia de severa
gravidade”?
- Delicioso, Maria Cláudia! Como disse o poeta: “Seja qual
for o assunto, agradável ou que oprima, é sempre mister expressá-lo em rima”.
Uma bela lição!
- Madame, se eu virar mendiga, cometerei os mesmos erros
gramaticais?
- De forma alguma, Anne Cecille... Vamos em frente... Antes,
porém, passe-me este cartaz, por obséquio!
Após a passagem do pequeno exército, tudo o que restou
naquele banco foi uma velha negra, obesa e desdentada, chorando copiosamente,
profundamente envergonhada da própria ignorância.
Alguns minutos depois, um outro transeunde tentou
consolá-la:
- Coitadinha... Chorando porque está com fome e frio, jogada
à rua da amargura?
Néia, esfregando os olhos inchados com as mãos sujas,
respondeu, aos soluços:
- N-não... senhor... É que... sniff... de novo... ich...
tirei nota baixa em redação!
E apontou para seu cartaz, onde a Madame escreveu em letras
garrafais:
REDIJA UM CARTAZ MELHOR SE QUISER NOSSA CARIDADE!


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