terça-feira, 19 de junho de 2012

Dança Cigana


Itupeva. Cidade do interior paulista, com 45 mil habitantes, a cerca de 60 km à noroeste da capital bandeirante. Nascida às margens do Rio Jundiaí, durante o ciclo do café, só atingiu o status de município em 1964. Seu nome vem do Tupi, e significa “cachoeira rasa”, “queda d’água rasteira” ou “cascata pequena”. Ou seja: está no seu DNA o tamanho diminuto!

Hoje Itupeva conta com muitas indústrias, o maior parque de diversões da América Latina, o maior parque aquático do país, um hotel resort, um “outlet” de grandes marcas... mas seu maior orgulho é o único semáforo, no principal cruzamento da cidade, que funciona como ponto de referência e (dizem as más línguas) como ponto turístico!

Como todas as cidades do interior de SP, Itupeva também tem uma pracinha central, em frente à Igreja Matriz, com um coreto branco e alguns bancos de concreto. E é ali que começa a nossa história...

Domingo de manhã. Um sol de lascar. Saída da missa e dos cultos evangélicos. Feira pública com excelente pastel, acompanhados, claro, por uma garapa gelada. Gente velha, gente nova, gente feia, gente bonita (rara, por sinal), gente dali e gente de fora. Toda misturada.

Em meio aquela agitação, um violeiro com cara de cigano trazia um violão às costas e um caixote de madeira nas mãos. Vestia-se à moda pantaneira: botas de couro, calça jeans surrada, camisa rota vermelha e chapéu escuro. Tinha a pele morena, queimada de sol, e olhos castanhos. Barba por fazer. Jeitão rústico mas com um “quê” de fetiche.

Ele subiu as escadas do coreto e posicionou seu caixote bem no centro. Sentou-se, com as pernas cruzadas, de modo a apoiar seu violão nas coxas. Começou a arranhar algumas sonoridades, chamando a atenção.

Crianças o rodearam. Em seguida, moças com risinhos tímidos. Logo, todo mundo. Começou seu show com “Menino da Porteira”, e a gurizada aplaudiu. Tocou então “Rosa do Meu Ranchinho”, arrancando suspiros das mulheres. Após a “Galopeira”, enxugando o suor da testa, ouviu um velho pedir-lhe “Noites de Paraguai”, uma bela guarânia.

Tentando localizar o solicitante em meio à multidão, viu de repente um lindo rosto, cujos olhos negros penetravam profundamente em sua alma.

Os longos cabelos negros se estendiam até a metade das costas. Pele morena, quase jambo. Seu rosto apresentava algumas linhas de expressão e covinhas, denunciando que havia dobrado o cabo da boa esperança já há alguns anos. Seus lábios grossos tinham um tom escarlate vibrante, tornando-se ainda mais belo ante seu sorriso. Vestia-se com um vestido de cetim estampado, ligeiramente decotado, um pouco acima dos joelhos. Usava uma sandália rasteira branca e trazia nas mãos uma sacola de compras da feira. Tinha canelas e coxas grossas, encimadas por um bumbum enorme. Seus seios não eram tão grandes, mas mesmo assim, não destoavam do conjunto da obra. Linda demais!

Mas ao seu lado, havia um homem que mais parecia um estereótipo de caminhoneiro: grisalho e bigodudo, vestia-se com uma camiseta regata do Corinthians, bermuda de tactel preta e chinelão branco e azul. Mais parecia um urso – grande, gordo e peludo. Estava suando sob o sol e visivelmente impaciente (pois estava perdendo a Fórmula 1 na TV).

Entre a Bela e a Fera, uma princesinha de mãos dadas a ambos. Linda e morena como a mãe, gordinha como o pai. Usava um vestido rosa, com muitos babados, apesar de já ter uns 06 anos de idade. Lambuzava-se com os fios de queijo que vinham de seu pastel, enquanto rebolava ao som do violeiro cigano. Uma gracinha, de fato!

Nem tanto quanto sua mãe... que sorria para o violeiro, toda derretida!

O flerte fora percebido pela platéia, pois era muito ostensivo...

Terminando “Noites de Paraguai”, tocou “Saudade Morena” e a romântica “Perdidos de Amor”. Dois disparos certeiros contra o mesmo alvo, fazendo a morena corar de emoção. Um casal de velhinhos comentou:

- Assanhada! E o marido não vê?

- Hehehe... Cego não é... Tá só afrouxando a corda...

- Eu, hein?

No início de “Cigana”, o pasmo é total. A morena soltou a mão da filha e, em três saltos, subiu as escadas para dentro do coreto, como que entregue à atrevida sedução musical. Sob o embalo vibrante da polca cigana, sensualmente bailou descalça, levantando seu vestido e enfeitiçando a platéia. Explodem aplausos!

Quem roubou o coração de quem? Ele dela ou ela dele? Agora ninguém saberia com certeza absoluta...

Durante a dança ousada, não faltaram os mal-criados com seus brados:

- FIU, FIU!!!

- AÍ, BELEZINHA!!! MOSTRA MAIS!!!

- MOSTRA TUDO!!!

Foi o estopim para que o marido bigodudo finalmente tomasse uma atitude! Ele deixou a filha para trás e também subiu no palco, agarrando o braço da esposa e ordenando:

- BASTA, ROSÁLIA! JÁ CHEGA!

- AI, SEU BRUTO! ESTÁ ME MACHUCANDO!

- EU DISSE CHEGA!

E sua mão pesada esbofeteou o rosto delicado de sua esposa, causando espanto à platéia. A menina correu até lá, gritando “MAMÃE!!!”

Como “em briga de marido e mulher não se mete a colher”, a platéia não intervém, mas permanece atenta, pois enquanto Rosália era arrastada para as escadas, o violeiro largou seu violão e, num frenesi típico de quem vê a amada correndo perigo, empurrou o bigodudo, gritando:

- COVARDE!

- COVARDE É A PUTA QUE TE PARIU, CIGANO DE MERDA!

E os dois machos se atracaram, rolando pelo chão, trocando socos, chutes e cabeçadas. Rosália abraçou a filha e correu para o canto do palco, acuada e assustada. A menina chorava soluçando.

A luta estava equilibrada, apesar do bigodudo ter o dobro do tamanho e da largura do violeiro. Mas o cigano escondia nos punhos da camisa um canivete afiado, cuja lâmina dilacerou o peito do grandalhão, que gritou de dor, enquanto seu sangue escorria pelo chão. Rosália entrou em estado de choque, ao ver seu marido caído, já sem vida. Mas a pequena partiu para cima do algoz de seu pai, berrando desesperada. O violeiro largou a arma ensangüentada e segurou a criança, com lágrima nos olhos...

- Sinto muito... querida... eu não... queria...

- VOCÊ MATOU MEU PAPAI!!!! MEU PAIZINHO!!!

Diante do desespero da menina, a multidão finalmente se inflamou:

- ASSASSINO!!!

- LADRÃO DE MULHER!!!

- VAMOS LINCHÁ-LO!!!

- MORTE AO CIGANO!!!

Quando os primeiros cidadãos subiram pelas grades do coreto, o cigano correu para o seu banquinho e gritou:

- ESPEREM! VEJAM ISSO!

Ele cravou a lâmina suja contra o próprio peito... e todos perceberam que era uma lâmina falsa! Neste instante, o bigodudo se levantou do chão, com a camiseta ensopada de sangue falso, sorrindo triunfante, abraçado com a mulher e a criança!

A platéia foi ao delírio com palmas ensurdecedoras!

Itupeva acabara de assistir ao maior show teatral de sua história!

Quando a menina correu o chapéu, este rapidamente encheu-se de moedas e notas...

A trupe subiu no coreto mais uma vez e curvou-se diante da platéia, agradecida e extasiada!

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