Commedia Dell'Arte - Primeiro Ato


Redruth, 04 de Janeiro de 1.122 d.C.


Uma noite escura, com nuvens pesadas trazendo outra nevasca, escondendo a lua cheia sob o céu da velha Ilha da Bretanha...

No coração da floresta de pinos, o silêncio sepulcral é quebrado por um distante uivo de lobo selvagem; e pelo galope acelerado de um alazão negro, trazendo um cavaleiro apressado, envolto em pele de urso e brandindo sua espada brilhante, cavalgando como se a própria morte estivesse em seu encalço...

Talvez ela esteja...

Ao longe é possível avistar as imponentes torres góticas da Cathedral de Saint Michell, que anunciam ao cavaleiro a proximidade da capital do Reino de Devon...

Foram duas horas de cavalgada desde sua partida do Castelo da Ordem Sagrada Fleur d’ Liz. Normalmente a distância levaria pouco mais de uma hora, mas com a neve acumulada na trilha principal, a viagem noturna do cavaleiro levou um tempo a mais que o normal...

Ele está preocupado... Pode ser tarde demais...

O imponente cavalo de guerra avança pelas ruas de pedra bruta, entre casas simples e mansões imponentes... Já passa da meia-noite e, por isso, não existe nenhum morador a saudá-lo.

A cidade dorme tranqüila...

O cavaleiro se aproxima da Cathedral, fazendo uma oração silenciosa, mas seu destino é outro...

Duas quadras dali, ele vê a rústica construção de dois andares, em estilo enxaimel, com fumaça saindo da chaminé e as luzes do andar inferior ainda acessas...

O cavaleiro sorri pela primeira vez na noite...

Ele desce do lombo do animal, amarrando-o na pilastra de madeira, e caminha lentamente sobre a neve (que está na altura de seu joelho), até a porta de madeira encimada por uma placa rústica onde lia-se “Taverna Macário”.

O cavaleiro deixa sua pesada pele de urso no vestíbulo, aos cuidados de uma linda jovem, mas não abandona sua preciosa espada...

Normalmente não são permitidas armas naquele estabelecimento – mas a proprietária sabe que um Cavaleiro da Ordem jamais se separa de suas espadas especialmente forjadas em defesa da fé cristã...

Pantaleón não é especialmente alto ou forte com outros cavaleiros, mas sua inteligência fora suficiente para ascender ao posto de líder dos Cavaleiros Púrpuras. Seus cabelos curtos são loiros, assim como sua barba dourada, em contraste com sua pele avermelhada. Mas é a sua postura leonina que o diferencia dos demais... Age e pensa como um leão, indomável e selvagem, por vezes arrogante, mas na verdade ele SABE que é melhor que seus oponentes! As donzelas suspiram por ele, que mesmo casado com Lady Penélope, não consegue evitar entregar-se aos prazeres da luxúria...

Era justamente isto que lhe motivou a cruzar a floresta na calada da madrugada...

No salão principal da taverna, poucos homens continuam bebendo e fartando-se com os assados servidos pelas lindas donzelas (enquanto suas parcas reservas são lentamente subtraídas de seus bolsos...). O cheiro da cerveja e dos assados impregna-se no ar, misturado com o perfume barato das messalinas, com suas roupas sumárias, exibindo-se para milicianos, clérigos, lenhadores, nobres e pastores rústicos...

Mas só havia uma razão para ele estar ali...

Consuelo...

A jovem de trinta anos, cabelos dourados curtos, feições delicadas e sorriso encantador, de lábios vermelho-sangue e olhos felinos, que herdou a Taverna de seu falecido marido – envenenado em circunstâncias ainda não esclarecidas...

Muito jovem para viver enlutada, a bela tratou de continuar o “negócio” de seu marido – mantendo a melhor cerveja, os melhores assados e as garotas mais lindas da cidade, a disposição de todo aquele que pudesse pagar o preço justo, é claro!

Nesta noite, ela estava usando um longo vestido vermelho e preto, bordado com pedras preciosas, extremamente decotado (o que valorizava seus lindos seios) e relativamente curto (na altura de seu joelho – um escândalo em eras medievais), revelando seu pezinho desnudo, com correntes de ouro nos tornozelos...

Ela não pode esconder seu sorriso ao ver o principal Cavaleiro da Ordem Sagrada de novo em seu estabelecimento...

Não foi preciso dizer nada...

O casal subiu as escadas de madeira e se dirigiu a um dos quartos “principais”, com uma cama de feno no centro, duas tochas nas paredes, uma lareira acesa e uma tina de madeira com água quente, emanando seu vapor sobre o quarto.

Eles entraram...

Ela trancou a porta...

Ele finalmente deixou a sua espada apoiada em cima da lareira...

Ela ajudou a tirar as placas de metal de sua pesada armadura...

Ele ajudou a soltar o vestido e o espartilho negro...

Ela arranhou o peito peludo dele...

Ele mordeu com volúpia o pescocinho dela...

Ela abaixou as ceroulas dele, libertando o pau duríssimo...

Ele levantou as anáguas dela, dedilhando seu sexo já molhado...

Ela jogou o cavaleiro sobre a cama e o cavalgou...

Ele gemeu... baixinho... enquanto apertava-lhe os seios rosadinhos...

Ela subia e descia... cada vez mais rápido... gemendo alto...

Ele tomou a iniciativa, deixando sua fêmea de quatro...

Ela empinou o bumbum...

Ele empurrou sua lança de carne na bucetinha dela...

Ela gritou com a primeira estocada...

Ele segurou firme suas ancas e continuou...

E continuou...

E continuou...

Até que seu gozo inundou a xaninha dela...

E ambos, exaustos, relaxaram na tina de água quente...

Meia hora depois, ele se levantou, vestiu sua armadura e se foi, da mesma forma que chegou, sem sequer dizer uma única palavra...

Obviamente, deixou uma bolsa com 250 moedas de ouro...

Consuelo não é messalina...

Desde a morte de seu marido, jamais havia tocado outro homem...

Mas, afinal de contas, quem recusaria uma generosa doação?

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Prólogo e Introdução - Commedia Dell'Arte

PRÓLOGO:


Redruth, 04 de Janeiro de 1.122 d.C.


Para variar, está nevando lá fora...

Já é o décimo-sexto dia seguido de nevasca sobre Devon...

Não falta muito para sermos engolidos pelo gelo!

Quando eu era criança, adorava ver a neve caindo...

Branca, pura, leve, flutuando entre os galhos das árvores centenárias que cercam as nossas terras...

Ah, que saudades da infância...

Pela manhã, corria livre pela floresta de pinheiros, segurando meu punhal como se fosse uma espada, caçando coelhos e até javalis!

A tarde, mergulhava no Rio Ambroise, vencendo suas corredeiras geladas só com a força dos meus braços e pernas pequenas...

E ao anoitecer, sentado ao redor da lareira, ouvia histórias dos cavaleiros templários contadas por meu avô, enquanto saboreava um delicioso ensopado!

Engraçado... falando assim... parece que faz tanto tempo...

Será que algum dia voltarei a vê-los?

Meu avô... minha mãe... meus irmãos pequenos?

Como será que eles estão se virando sem mim?

Espero que estejam bem...

Pelo menos, ouvi que a Ordem é bastante generosa com as famílias de seus aprendizes...

Ah, mas que imensa falta de educação a minha, não?

Sequer me apresentei a vocês!

Sou Pedrolino Pierrot, filho de Raffaele Pierrot e neto do lendário cavaleiro Sir Jean-Pierret Pierrot, bravo combatente e herói de Lorient durante a Primeira Cruzada cristã à Jerusalém! Como se não bastasse, meu avô ajudou Sir Lestrade a fundar o Reino de Devon e até mesmo a Ordem Sagrada Fleur d’ Liz... onde estou enclausurado... vendo a neve cair!

As horas se arrastam aqui dentro das muralhas...

As tarefas são sempre as mesmas... banais... repetitivas...

Acordo todos os dias às 03:00 para fazer minhas orações na capela, auxiliando o Monsenhor Christian nas homilias...

Às 05:00, vou para o estábulo tratar dos cavalos...

Às 06:00, com o nascer do sol, recebo um esfregão e ferramentas para cuidar dos jardins, do cemitério e de todas as áreas abertas – além é claro de tirar o excesso de neve!

O frio é tão grande durante o inverno, que sinto meus dedos dos pés e mãos, além dos braços e pernas, sangrando – mesmo quando protegidos pelas botas e casacos de pele...

E coitado daquele aprendiz que não fizer um bom trabalho! O próprio Monsenhor Christian se encarrega de aplicar-lhes chibatadas...

Ah, quanto sangue já jorrou de minhas costas!

Às 08:00, faço a primeira refeição do dia – bem espartana por sinal! Um bolo sem sabor, acompanhado por tiras de carne seca e uma caneca de cerveja escura quente. Nos primeiros dias, não conseguia engolir a comida, o que me deixou fraco, e percebi que era importante comer (até mesmo para suportar o treinamento...).

Terminada a refeição, eu e os outros aprendizes seguimos para a imensa biblioteca, onde nossos mestres nos ensinam a ler, escrever, pensar...

São horas e mais horas perdidas entre palavras, pensamentos, idéias, teorias... O bom de estar nesta Ordem é que podemos dissecar livros, e temos liberdade até para ler a Bíblia Sagrada!

Tudo bem... eu ainda não entendo bem certas passagens... mas já posso vislumbrar razões suficientes para defender a fé cristã contra as ameaças abissais que nos rodeiam!

Afinal, este é o principal objetivo desta Ordem, não é mesmo?

Deixamos a biblioteca por volta das 17:00, e temos pouco tempo para vestir nossas pesadas armaduras metálicas, empunhar nossas espadas e finalmente seguir para as aulas de combate!

De longe, as minhas prediletas!

Aprendemos com o lendário Sir Pantaleón inúmeras técnicas de batalhas, estratégias de combate, ataque, defesa, manejo de armas comuns e exóticas, enfim... Aprendemos a pelejar!

Apesar da fome e do cansaço, não reclamo do treinamento... Muito pelo contrário! Sempre que posso, repito os ensinamentos, manipulando meu esfregão como se fosse uma espada forjada por irlandeses, e enfrentando árvores como se fossem mouros!

Às 20:00, faço a segunda refeição do dia: sempre o mesmo ensopado de peixe, com um pedaço de pão duro feito pedra... exceto nos dias de festa, quando verdadeiros banquetes são servidos aos convidados e aos membros da Ordem!

Infelizmente, estes eventos são raros... muito raros!

Depois do jantar, assistimos oura missa celebrada pelo Monsenhor Christian... Tenho que confessar que, as vezes, chego a dormir durante suas pregações!

Por sorte, ele nunca percebeu, pois o castigo recebido por um garoto recrutado no mesmo dia em que entrei foi muito além da surra – ele foi banido da Ordem e o nome de sua família foi desonrado para sempre!

Às 22:00, devemos retornar ao nosso claustro para descansar e dormir...

Para acordar novamente às 03:00 da manhã...

Para outra jornada exatamente igual...

Sem nenhum dia de repouso...

É claro que estou exausto, mas creio que não fui abençoado pelo dom do sono fácil! Por isso fico aqui, olhando pela janela do meu quarto, acompanhando cada floco de neve bailando no ar...

Também é por isso que estou aqui, escrevendo este diário...

Todos os dias, desde que entrei aqui, faço um pequeno risco na rocha, sinalizando a passagem de mais um dia.

Hoje contei 2.347 riscos na parede...

Quantos outros riscos existirão, antes que eu possa receber as bênçãos de Sir Pantaleón, aceitando-me como um legítimo irmão de armas?


INTRODUÇÃO:

Bem vindos à Redruth, capital do Reino de Devon – situado na península de Cornwall, no extremo sudoeste da ilha da Grã-Bretanha. Estamos no Anno Domini Nostri Iesu Christi de 1.122, em pleno inverno rigoroso...

A região fria e tempestuosa, de solo pobre e rochoso (o que inviabiliza a agricultura), com um litoral tomado por gigantescos paredões de pedra bruta e mares revoltos (o que prejudica sobremaneira a navegação), convenientemente distante de Londres, nunca havia despertado o interesse dos nobres... e por isso, manteve-se como reduto de criminosos exilados e selvagens druidas por séculos a fio!

Tudo mudou graças ao sonho de Sir Lestrade e um grupo de seletos cavaleiros templários, veteranos da Primeira Cruzada, que ao retornarem à sua terra natal, não suportaram a “paz” por muito tempo...

Seguindo as referências obtidas em um sonho, o grupo de cavaleiros partiu para a região selvagem em busca de uma delicada flor de lis, nascida sobre a rocha, como um sinal da “aliança de Deus para com seus filhos guerreiros”.

De fato, em 1.042, nos arredores da vila de Redruth, o grupo de templários encontrou a flor – e decidiram fundar ali a “pedra-fundamental” de uma nova Ordem de Cavaleiros – chamada de “Ordem Sagrada Fleur d’ Liz” (dedicada a defender a fé cristã contra toda e qualquer ameaça).

Em menos de dez anos, enquanto erguiam as muralhas do futuro castelo-mosteiro, os “cavaleiros púrpuras” cavalgavam sob o luar, brandindo espadas e agindo como investigadores, delegados, juízes e executores, decapitando criminosos, prostitutas, bruxas, judeus, mouros e outros povos pagãos, impondo a fé católica, apostólica romana (por vezes de modo agressivo) aos moradores da região...

É claro que este movimento não foi visto com bons olhos pelo Rei Bretão – mas como seus cofres estavam baixos; a Igreja entendia como “razoável” os resultados obtidos pelos “garotos” (embora não aprovassem os seus métodos); e a região nunca despertou interesse; eles decidiram oficializar o comando de Lestrade – nomeando-lhe Senhor de Devon e exigindo lealdade à coroa britânica...

Lestrade aceitou as condições.

No ano de 1.055, nascia oficialmente o Reino de Devon, cuja capital seria Redruth (por sua proximidade com o Templo da Ordem). Segundo boatos, Sir Lestrade seria um vampiro imortal e que até hoje comandaria o seu reino, manipulando nobres e regentes com suas determinações emanadas das torres escuras (onde viveria recluso e protegido da Inquisição). Mas é claro que não passam de boatos, certo?

Todos os anos, a Ordem promove um recrutamento de garotos e garotas, com exatamente onze anos de idade, interessados em ingressar na vida monástica ou em sagrar-se Cavaleiros. Apesar do treinamento rigoroso, as vagas são disputadas (até mesmo porque oferece a todos a chance única de subir na hierarquia social medieval).

Pedrolino Pierrot, obviamente, não possui aptidões militares. Pelo contrário: possui uma alma sensível, por vezes boêmia e degenerada, além de questionar os dogmas da religião que a Ordem defende. Ainda assim, permanecesse em suas fileiras, como um “favor especial” ao seu avô, Jean-Pierre (um dos fundadores da Ordem e do próprio reino).

É claro que isto não é visto com bons olhos pelo atual regente da Ordem: Monsenhor Christian. Mas no fim das contas, o desastrado aprendiz acabou sendo útil em sua eterna batalha contra o Cavaleiro Pantaleón!

A rivalidade entre eles nasceu quando Lady Brighella, Madre Superior da Ordem (e dizem as más línguas: amante do Monsenhor Christian) apaixonou-se pelo jovem e talentoso cavaleiro – despertando ciúme doentio no regente da Ordem Sagrada...

Pantaleón é o arquétipo do paladino! Excelente guerreiro e estrategista militar, com experiência e talento raros em seus pares... além de despertar paixão em todas as donzelas do reino! Vaidoso, por vezes arrogante, consegue ser amado e odiado com intensidade por todos...

Ele é noivo de Lady Penélope, linda donzela de madeixas douradas, filha do atual Rei de Devon. Mas a bela sabe que seu noivo é muito cortejado, e seu ciúmes é exagerado, beirando a neurose! Mas ela tem razão num ponto: o coração do cavaleiro está balançado por uma mulher...

Uma cortesã... Consuelo de Azevedo!

Consuelo é dona da Taverna “Macário” – a maior e melhor freqüentada de Redruth... Todos sabem que lá a cerveja está sempre gelada e as meninas sempre quentes! Mas nenhuma delas desperta paixões como a própria Consuelo...

Entre seus admiradores ilustres, podemos citar Lorde Enrico (comandante da milícia local); o médico Joseph; o cavaleiro Pantaleón; e o próprio Monsenhor Christian!

É claro que isto prejudicou mais a relação entre ambos!

E também por isso, o Monsenhor mantém Pierrot no “esquadrão” treinado por Pantaleón – pois na condição de líder, ele responderá por toda e qualquer bobagem cometida pelo neófito...

Bem diferente é a situação de Phillip, o brilhante aprendiz de Pantaleón, que está a um passo de sagrar-se cavaleiro, apesar da pouca idade...

Phillip é irmão mais velho de Andrew, igualmente talentoso, mas por ser caçula, não pôde ingressar na Ordem Sagrada – contentando-se em trabalhar na Milícia local.

Andrew também freqüenta a Taverna Macário, mas seu objetivo é outro: seu sonho é casar-se com Strawberry, uma jovem cortesã belíssima, mas para isso, terá que “comprá-la” de Consuelo, que exige uma fábula em moedas de ouro (pois sabe o quão valiosa é sua menina-mercadoria)...

Em síntese, estes são os personagens da nossa estória...

Espero que se divirtam!

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Querido Diário...


Querido diário!

Hoje completei 17 anos...

Seria um dia de festa, regado a coca-cola e bolo de chocolate, com as minhas amigas do colégio fofocando sobre os gatinhos, enquanto meus sobrinhos correm pela casa, loucos para estourar os balões coloridos...

Ah, quem é que eu quero enganar?

Eu não tenho sobrinhos... e nem amigas no colégio...

Eu só tenho... Ele!

Minha mãe, deitada no sofá, assistindo à novela das nove, ainda me falou:

Bem que você podia ficar em casa, pelo menos no dia do seu aniversário, né filha?

Mas é claro que não dei ouvidos, fechando a porta de casa e saindo sem sequer responder.

Antes mesmo de passar pelo portão, notei que ele não estava sozinho. Vi o cigarro escuro, incerto na penumbra, e logo entendi tudo. Meu anjo presunçoso me olhou sorridente, e entrei no carro fingindo que não tinha notado o Carlinhos no banco de trás.

Ele me perguntou, indicando com a cabeça o banco de trás:

- E aí? Não vai dizer nada?

Eu me virei e vi o Carlinhos todo refestelado no banco, com os olhos vermelhos e as pupilas dilatadas. Sorri e perguntei:

- Você está chapado?

Ele fez que sim com a cabeça e o meu anjo completou, orgulhoso:

- E bebemos uma garrafa de vodka com catuaba!

Ironicamente respondi:

- Beleza... Já devem estar bem calibrados!

As luzes da cidade refletiam-se nas janelas do carro. As lojas ainda estavam abertas, lotadas de famílias ávidas por torrar seu 13º salário com as compras natalinas. Nas calçadas, casais e famílias caminhavam sem saber que dentro do carro eu estava junto com dois homens que iam me levar sabe Deus onde!

Deixamos a zona sul da Cidade Maravilhosa, em direção à Ponte Rio-Niterói (obviamente congestionada a esta hora). Embaixo destas pilastras passa um braço do mar. É silencioso, imperceptível, como meus pensamentos – mudos e dissimulados, sabiamente escondidos sob a couraça. Escorrem. Dilaceram.

Chegamos à São Gonçalo... mais precisamente à sua zona portuária...

De manhã, aqui perto, tem um mercado de peixe. Sente-se o cheiro do mar vindo das mãos dos pescadores que, com as unhas escurecidas pelas entranhas dos peixes, tiram água de um balde e borrifam os corpos frios e cintilantes dos animais ainda vivos e pulsantes.

Nós estávamos indo justamente naquela direção, mas de noite, a atmosfera muda completamente. Ao sair do carro, notei que o cheiro do mar tinha se transformado em cheiro de maconha e haxixe; e jovens com piercings substituíam os velhos pescadores bronzeados; mas a vida continuava a ser vida – sempre e de qualquer forma!

Carlinhos mal se agüentava nas próprias pernas, e ficou em silêncio o tempo todo. Meu anjo e eu também não falamos – como das outras vezes em que estivemos naquele edifício sujo e decadente...

Ele tirou um molho de chaves do bolso da calça e enfiou uma delas no buraco da fechadura. A pesada porta de ferro rangeu. Ele teve que fazer força para abrir... e depois que entramos, repetir o esforço para fechá-la, fazendo um grande barulho.

Eu não falava. Não tinha nada para perguntar. Sabia muito bem o que é que estávamos nos preparando para fazer.

Subimos as escadas de madeira, tão frágeis e desgastadas quanto as paredes imundas do edifício, repletas de rachaduras das mais variadas espessuras. Paramos em frente de uma porta branca, através da qual se ouvia música. Assustada, perguntei:

- Mas tem alguém?

Meu anjo torto respondeu:

- Não... A gente esqueceu o rádio ligado antes de sair...

Carlinhos foi direto para o banheiro, deixando a porta aberta. Eu podia vê-lo, segurando um membro molenga e enrugado. Já meu anjo foi até o outro quarto, para abaixar o volume do rádio, enquanto eu fiquei na sala, observando curiosa todos os quartos que dava para ver de lá.

Ele voltou sorrindo, me beijo na boca e, apontando um dos quartos, ordenou:

- Espera lá na Câmara dos Desejos... A gente chega lá daqui a pouco...

Eu não consegui segurar uma gargalhada. “Câmara dos Desejos”? Nome estranho para um quarto onde se trepa!

Entrei no quarto – bem pequeno e espartano. Na parede havia centenas de fotos de modelos nuas (incluindo desde recortes de revistas adultas, cartazes de gravuras eróticas japonesas e posições ilustradas do Kamasutra). Sob a velha cama box de casal, uma bandeira do Flamengo fazia as vezes de lençol e cobertor.

Ainda pensei comigo: “Parabéns, dona Camylla! Você se superou desta vez! Conseguiu chegar ao fundo do poço!

Meu anjo chegou trazendo uma venda escura nas mãos. Virou-me de costas e vendou-me com ela. Fiquei completamente cega, rindo nervosa, enquanto sentia suas mãos abaixando as alças do meu vestido.

Ele comentou baixinho:

- Você parece a Deusa Têmis...

Ouvi o interruptor da luz dar seu dique e em seguida já não podia ver absolutamente mais nada. Percebi passos e sussurros, enquanto duas mãos soltavam o meu soutien. Fiquei de fio-dental, meias altas e botas de salto agulha. Podia me ver vendada e nua, e imaginava no meu rosto apenas os lábios que dentro em pouco iriam saborear alguma coisa deles.

De repente as mãos aumentaram: agora eram quatro. Era fácil distinguir porque duas estavam em cima, apalpando meus seios, e duas embaixo, roçando meu sexo através da calcinha e acariciando minha bunda.

Não conseguia sentir o cheiro de álcool e marijuana de Carlinhos. Talvez ele tivesse escovado os dentes no banheiro. Enquanto eu me imaginava cada vez mais dominada por aqueles dois homens e começava a me excitar, senti, nos ombros, o contato de um objeto gelado.

Talvez um copo.

As quatro mãos continuavam a me tocar, mas o copo esmagava a minha pele com mais força. Assustada, perguntei:

- Quem é, porra?

Uma risadinha no fundo e depois uma voz conhecida:

- O Roberto, bebê... Não se preocupe... Eu só estou trazendo um drinque para você...

Roberto era o melhor amigo do meu anjo. Eles estavam sempre juntos – nas baladas, na faculdade, na praia...

Eu já havia elogiado seu corpo uma vez... Será este o meu presente de aniversário?

Ele aproximou o copo da minha boca e engoli um pouco de uísque vagabundo. Lambi os lábios e outra boca me beijou com paixão, enquanto as mãos continuavam a me acariciar e o Roberto me dava bebida.

Certamente era um quarto homem me beijando...

- Que bunda gostosa você tem... macia... branquinha... durinha... Posso dar uma mordida?

Não conhecia esta voz, mas achei engraçado o seu pedido:

- Faz e pronto! Não pergunta! Só quero saber uma coisa: quantos vocês são?

Meu anjo respondeu:

- Fique tranqüila, amor...

E senti uma língua lambendo as vértebras da minha espinha. Agora a imagem que eu tinha de mim era mais sedutora: vendada, seminua, cinco homens me lambendo, me acariciando, me mordendo e excitando todo o meu corpo...

Eu estava no centro das atenções e eles faziam comigo tudo o que era permitido na “Câmara dos Desejos”. Não se ouvia uma só voz: só suspiros e carícias.

E quando um dedo enfiou-se bem devagar na minha grutinha, senti um repentino calor e compreendi que a razão estava me abandonando. Eu me rendia ao toque das mãos deles, e sentia bem viva a curiosidade de saber quem eram, como eram. E se o prazer fosse fruto das ações de um homem feio e babão? Naquele momento, eu não me importava. Agora me envergonho, diário, mas sei que se lamentar depois de ter feito as coisas não serve para nada.

- Bom... falta o último componente...

Curiosa, perguntei ao meu anjo o que seria este “componente”!

- Não se preocupe... Pode tirar a venda... A gente vai jogar outro jogo...

Hesitei um segundo antes de tirar a venda, mas depois puxei-a lentamente pela cabeça, e vi que eu e meu anjo estávamos sozinhos no quarto. Perplexa, perguntei:

- Cadê os outros?

- Estão te esperando no outro quarto...

- Que se chama...

- Hummmm... “Sala da Fumaça”... vamos apertar um baseado...

Eu juro, diário, que eu queria ir embora e deixá-los lá. Aquela pausa me esfriou e a realidade se apresentou em toda a sua crueza. Mas eu não podia, agora tinha começado, e tinha que ir até o fim a qualquer custo!

Deu para entrever as silhuetas no quarto escuro, iluminado só por três velas apoiadas no chão. Do pouco que podia notar, a forma dos rapazes presentes não era feia (e isso me consolou!).

No segundo quarto havia uma mesa redonda com cadeiras ao redor. O meu anjo presunçoso se sentou.

- Você também fuma?

- Não, Carlinhos... eu nunca fumo!

O Roberto, meu barmen, deu um gole na garrafa de Old Eight e falou:

- Essa não... A partir de hoje você também fuma, gracinha...

- Não! Desculpe decepcionar vocês... mas quando eu digo NÃO, é NÃO MESMO! Eu nunca fumei, não vou fumar agora e não sei se algum dia fumarei... Acho inútil e, por isso mesmo, deixo para vocês...

- Pelo menos, não vai nos privar de uma bela vista, vai? Senta aqui!

Disse Carlinhos, batendo a mão no tampo da mesa...

Eu me sentei na mesa, com as pernas abertas, os saltos das botas enfiados na madeira e o sexo aberto à visão de todos. Meu anjo aproximou a cadeira e a vela acesa do meu púbis para iluminá-lo. Apertava o baseado voltando os olhos primeiro para a erva cheirosa e depois para a minha xotinha. Seus olhos brilhavam... Enfim ordenou:

- Comece a se tocar!

Enfiei um dedo na minha fenda, bem devagarinho, e os cinco rapazes desviaram a atenção do fumo para se dedicar à visão do meu sexo. Um deles (que não o conhecia) se levantou e me beijou os ombros. O garoto negro bombadinho me tomou entre seus braços e me encaixou em seu corpo, tentando entrar com sua haste dentro de mim. Eu estava inerte. O olhar baixo e apagado. Vazio. Não quis olhar.

Carlinhos se levantou e bradou:

- Ei! Não senhor! A gente combinou... Essa noite, ela não vai ser penetrada por ninguém!

Roberto foi até o outro quarto e pegou de volta a venda negra que antes cobria meus olhos. Vendaram-me de novo e uma mão me obrigou a ajoelhar sobre a mesa. Meu anjo ordenou:

- Agora, Mylla, a gente vai passar o baseado... e cada vez que um de nós estiver com ele na mão, vai estalar os dedos e tocar a sua cabeça. Você vai se aproximar do escolhido e vai chupar até ele gozar. Cinco vezes, Mylla. Cinco! De agora em diante, a gente não vai falar mais nada. Bom trabalho, meu amor!

E na minha boca cinco gostos diferentes se encontraram. Cinco sabores de cinco homens. Cada sabor com sua história. Em cada poção a minha vergonha. Durante aqueles momentos, tive a sensação e a ilusão de que o prazer não era só carnal, que era beleza, alegria, liberdade. E estando nua no meio deles, senti que pertencia a um outro mundo. Desconhecido. Mas quando sai por aquela porta, senti o coração despedaçado e uma vergonha indescritível.

Depois me abandonei em cima da cama e senti meu corpo se entorpecendo. Ao meu lado, meu celular tremia incontrolável pela quinta vez. Sabia que era a minha mãe. Vi que já eram duas e meia da manhã.

Nesse meio tempo alguém entrou, estendeu-se em cima de mim e me comeu. Um outro o seguiu e apontou o pênis para a minha boca. E quando um terminava, o outro descarregava em cima de mim o seu líquido esbranquiçado. E os outros também.

Suspiros, lamentos e grunhidos. E lágrimas silenciosas.

Voltei para casa cheia de esperma, com a maquiagem borrada, e vi que minha mãe me esperava dormindo no sofá. Da porta avisei:

- Estou aqui, mãe... cheguei!

Ela estava muito sonolenta para me repreender pelo horário, por isso, acenou com a cabeça e foi para o seu quarto. Entrei no banheiro, me olhei no espelho, e não vi mais a imagem daquela menina alegre de alguns anos atrás. Vi olhos tristes, que o lápis preto escorrendo pelo rosto tornava ainda mais miseráveis. Vi uma boca que tinha sido violentada diversas vezes naquela noite e que tinha perdido o seu frescor. Me sentia invadida, emporcalhada por corpos estranhos.

Tomei um banho demorado, tentando limpar os vestígios do semem, mas mesmo agora, quando escrevo neste diário, sinto que minha vagina emana o indefectível cheiro do sexo.

Feliz aniversário, Mylla...

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Opera-Rock: OURO DE TOLO


O astro-rei se despede de Jundiaí, tingindo de dourado a “terra da uva e do trabalho”...
Após tanto calor durante o dia, o despontar das primeiras estrelas, acompanhadas por uma leve brisa noturna, são um alívio mais do que bem vindo!
Bem no coração da cidade, um belo edifício se destaca, com suas paredes envidraçadas refletindo as nuvens, dando uma dimensão ainda mais interessante deste dia perfeito...
E é justamente ali, na janela espelhada do quinto andar, que uma morena observa o movimento no principal centro de comércio da cidade...
Seus longos cabelos negros, lisos como de uma gueixa, contrastavam com sua pele branquinha, delicada e sensível ao calor infernal...
Seu rosto, diziam, lembrava uma boneca de porcelana – feições finas, traços delicados, boca discreta mas com “covinhas” quando sorria...
E o que falar de seus olhos?
Negros como duas jabuticabas maduras, sempre atentos aos detalhes...
Seu apelido, desde os tempos da faculdade de Direito era “A Gata” – nem tanto por seus atributos físicos, pois era baixinha, falsa magra (boas curvas, mas reveladas apenas aos poucos privilegiados que conquistaram seu coração e a levaram para a cama), sempre usando roupas sóbrias; mas principalmente porque agia como uma predadora prestes a dar o bote certeiro...
Foi assim, graças a este talento inato e muita dedicação aos estudos, que Amanda conquistou sua vaga no departamento jurídico do principal escritório de direito empresarial da cidade.
Tudo bem que Amanda esperava atuar no exterior, trabalhando como advogada internacional, com compromissos em Nova York, Tóquio e Londres, fazendo auditorias em mega conglomerados e reuniões com empresários poderosos... Mas orientada por seus professores da graduação, concordou em ganhar experiência com discussões sobre ICMS, IPI, IOF e ISS incidentes sobre empresas familiares fraudulentas...
Seu espírito investigativo, sua narrativa concisa (permeada de ironia) e sua dedicação ao trabalho fizeram com que “A Gata” ganhasse destaque, assumindo o posto de Advogada-Chefe com menos de três anos naquele escritório... Isto, é claro, despertou admiração e inveja dos colegas...
Mas é claro que nenhum desses colegas invejosos permanecia no escritório após o expediente comum...
Por esta razão, ali estava ela...
Sozinha em sua sala...
Tomando café expresso e observando o dia se esvaindo...
Lentamente...
Amanda olha para sua mesa e vê três pilhas de processos judiciais, separadas por seu notebook, seu telefone fixo (agora em silêncio, mas que tocou durante o dia todo), sua impressora multifuncional, além é claro de muitos livros jurídicos, grampeadores, furadores de papel, canetas, réguas, trilhos etc.
Estou vivendo o sonho...
Ela olha no calendário e vê que hoje é dia 20...
Droga! Esqueci de pagar a prestação do carro!
A Gata abre sua bolsa, revira sua bagunça de papéis, recibos de estacionamento, batom, absorvente e centenas de outros itens, até encontrar o grosso carnê que acompanhou seu lindo Smart Fortwo MHD Coupé 2010, vermelho e branco (um tanto quanto berrante demais para seu gosto, mas enfim, era o que tinha na concessionária...).
Amanda acessa seu Internet Banking e faz o pagamento da prestação.
Ufa... um problema a menos...
Ela joga o copinho de café vazio no lixo e retoma seu trabalho, estudando teses e defesas possíveis ante o óbvio “animus laedendi” (ou seria “lucrandi”?) de seus clientes em face do Fisco nacional...
Duas horas se passam...
A noite, a eterna, a elemental... possui a Terra!
A noite envolve a realidade, com muitos sonhos e grandes asas estreladas... O sol nasce e se põe, mas fulgura bem longe o seu clarão. O sol é apenas um visitante...
Ao anoitecer, a cidade reluz ao longe, com pequenas chamas na escuridão. Mais perto, miríades de luzes se estilhaçam nas longas extensões da rede elétrica...
Mas nada prende a noite!
A noite respira, a noite palpita como um coração. A noite anseia. A noite exige. A noite vive!
A noite tem outra face...
Ás vezes perigosa... Freqüentemente emocionante...
Sempre eterna em sua beleza!
Amanda olha mais uma vez para a janela, contemplando a lua prateada que reina absoluta sobre Jundiaí... e decide que é hora de ir embora.
Ela desliga seu notebook, guarda na bolsa Louis Vutton seu Blackberry, pega as chaves de seu Smart e de seu lindo apartamento na Chácara Urbana. Aproveita e pega os cinco ingressos do Wet n’ Wild que adquiriu pela Internet para levar seus sobrinhos no final de semana...
A Gata tranca o escritório e chama o elevador...
As portas duplas metálicas se abrem, revelando dentro do pequeno vestíbulo, um rapaz loiro, alto, olhos verdes, barba cerrada, tipo atlético, na casa dos seus 30 e poucos anos, vestindo um terno escuro, corte europeu, e um sapato com mais horas de vôo do que ela própria. Um tipo (raro) que dá vontade de rir COM ELE e não DELE!
Ela entra na cabine séria.
Ele está sorridente, porque “rico ri a toa”, como diria Toquinho...
As portas duplas se fecham e o elevador começa a descida.
4º Andar:
Ela olha para o cara, com o canto dos olhos, curiosa...
Ele olha para o espelho, ajeitando o cabelo...
3º Andar:
Ela olha diretamente para ele e esboça um sorriso.
Ele sorri amistosamente.
2º Andar:
Ele solta no ar um protocolar “que calor, não?
Ela sorri irônicamente.
1º Andar:
Ela responde: “está demais... perfeito para...
Ele completa: “...um chopp?
Térreo:
Ela sorri, sem graça, e diz: “Sim... mas eu tenho compromisso...
Ele sorri, sem graça, e diz: “Que pena... bom... a gente se vê...
As portas se abrem e o bonitão vai embora...
As portas se fecham novamente e ela, sozinha, se olha no espelho.
1º Subsolo:
Idiota! Que compromisso você tem, criatura? Cuidar de sua cadela pincher e ver reprise de Arquivo X na TV?
2º Subsolo:
Ainda furiosa consigo mesma, ela deixa o elevador e vai caminhando até o seu diminuto veículo. Acelera com força e chega a derrapar na garagem.
A Gata ganha as ruas estreitas do centro, mas pouco consegue avançar, já que o fluxo do tráfego é enorme neste horário...
O jeito é ligar o rádio e relaxar um pouco...
Ela sintonizou na Rádio Nova Brasil FM, especialista em música brasileira.
E a primeira música que ouviu foi do Capital Inicial – “Leve Desespero”:

Eu não consigo mais me concentrar,
Eu vou tentar alguma coisa para melhorar... 
É importante, todos me dizem,
Mas nada me acontece como eu queria...
Estou perdido, sei que estou!
Cego para assuntos banais...
Problemas do cotidiano,
Eu já não sei como resolver...
Sob um leve desespero,
Que me leva, que me leva daqui!
Então é outra noite num bar,
Um copo atrás do outro...
Procuro trocados no meu bolso,
Dá pra me arrumar um cigarro?
Eu não consigo mais me concentrar!
Eu vou tentar alguma coisa para melhorar... 
Já estou vendo TV como companhia!
Sob um leve desespero,
Que me leva, que me leva daqui!
Talvez, se você entendesse...
O que está acontecendo,
Poderia me explicar...
Eu não saio do meu canto,
As paredes me impedem,
Eu só queria me divertir!
As paredes me impedem... 
Eu já estou vendo TV como companhia!
Sob um leve desespero...
Que me leva, que me leva daqui!

A Gata dá um soco no volante e diz em voz alta para si mesma:
Que merda... minha vida sintetizada em uma letra de música de gosto duvidoso... eu mereço!
Um filme passa em sua cabeça...
Ela se lembra da infância feliz, despreocupada, brincando em parques de diversões e em gramados verdejantes...
Ela se lembra dos primeiros bailes, no quintal de casa, quando o simples dançar com os meninos causava um arrepio na pele...
Ela se lembra do primeiro beijo... e da primeira vez...
Ela se lembra da alegria ao passar no vestibular...
E se lembra das tensões nas provas...
E se lembra de seu elegante baile de formatura...
E da felicidade após ter conquistado sua carteirinha da OAB...
E tudo isso... para quê?
Para que tantas noites de sono?
Para que tantas horas de trabalho e estudo?
Por um carro “moderninho”, um apartamento lindo (e vazio de móveis e de alma), celulares e computadores de última geração?
Por que tanta melancolia depois de tantas conquistas?
Por que tanto spleen em sua vida?
No rádio, outra canção: “Dom Quixote”, dos Engenheiros do Hawaii:

Muito prazer, meu nome é otário!
Vindo de outros tempos, mas sempre no horário!
Peixe fora d'água, borboletas no aquário...
Muito prazer, meu nome é otário!
Na ponta dos cascos e fora do páreo!
Puro sangue, puxando carroça...
Um prazer cada vez mais raro,
Aerodinâmica num tanque de guerra...
Vaidades que a terra... um dia há de comer!
"Ás" de Espadas, fora do baralho,
Grandes negócios, pequeno empresário...
Muito prazer: me chamam de otário...
Por amor... às causas perdidas!
Tudo bem, até pode ser,
Que os dragões sejam moinhos de vento...
Tudo bem, seja o que for,
Seja por amor às causas perdidas...
Por amor... às causas perdidas!

Amanda finalmente chega em seu apartamento. Estaciona o carro. Desliga o rádio. Pega sua bolsa. Abre a porta do veículo. Caminha até o elevador. Sobe até o 11º andar. Cruza o corredor escuro. Abre a porta do seu “lar doce lar”...

A cidade enlouquece sonhos tortos...
Na verdade nada é o que parece ser...
As pessoas enlouquecem calmamente... 
Viciosamente... sem prazer...

Contempla seus móveis planejados e seus equipamentos de última geração (todos obviamente conectados à Grande Rede). Olha para seus livros na estante (“que nada dizem de importante... servem só para quem não sabe ler!”) e para sua pequena cadelinha de olhar triste...

A maior expressão da angústia, 
Pode ser a depressão,
Algo que você pressente! 
Indefinível...
Mas não tente se matar, 
Pelo menos essa noite não!

A Gata vai até a sacada do apartamento. Ela precisa respirar...

As cortinas transparentes não revelam,
O que é solitude, o que é solidão...
Um desejo violento bate sem querer... 
Pânico, vertigem, obsessão!

Ela precisa... voar!

A maior expressão da angústia, 
Pode ser a depressão,
Algo que você pressente... 
Indefinível!
Mas não tente se matar,
Pelo menos essa noite não!

Ela se debruça sobre a sacada...
Olhando o belo jardim e a piscina do seu imponente condomínio...

Tá sozinha, tá sem onda, tá com medo?
Seus fantasmas, seu enredo, seu destino...
Toda noite uma imagem diferente,
Consciente, inconsciente, desatino...

Seu salto alto escorrega no piso de mármore carrara, e seu corpo é projetado em direção ao abismo...
Ela começa a queda...
Cada vez mais rápido...
Caindo...
Em seus lábios, um derradeiro sorriso...
Caindo...
Típico, de quem encontrou “a paz derradeira, que vem nos redimir”!
Caindo...
Caindo...
Caindo...

A maior expressão da angústia, 
Pode ser a depressão,
Algo que você pressente... 
Indefinível!
Mas não tente se matar,
Pelo menos essa noite não!

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