quinta-feira, 24 de maio de 2012

Querido Diário...


Querido diário!

Hoje completei 17 anos...

Seria um dia de festa, regado a coca-cola e bolo de chocolate, com as minhas amigas do colégio fofocando sobre os gatinhos, enquanto meus sobrinhos correm pela casa, loucos para estourar os balões coloridos...

Ah, quem é que eu quero enganar?

Eu não tenho sobrinhos... e nem amigas no colégio...

Eu só tenho... Ele!

Minha mãe, deitada no sofá, assistindo à novela das nove, ainda me falou:

Bem que você podia ficar em casa, pelo menos no dia do seu aniversário, né filha?

Mas é claro que não dei ouvidos, fechando a porta de casa e saindo sem sequer responder.

Antes mesmo de passar pelo portão, notei que ele não estava sozinho. Vi o cigarro escuro, incerto na penumbra, e logo entendi tudo. Meu anjo presunçoso me olhou sorridente, e entrei no carro fingindo que não tinha notado o Carlinhos no banco de trás.

Ele me perguntou, indicando com a cabeça o banco de trás:

- E aí? Não vai dizer nada?

Eu me virei e vi o Carlinhos todo refestelado no banco, com os olhos vermelhos e as pupilas dilatadas. Sorri e perguntei:

- Você está chapado?

Ele fez que sim com a cabeça e o meu anjo completou, orgulhoso:

- E bebemos uma garrafa de vodka com catuaba!

Ironicamente respondi:

- Beleza... Já devem estar bem calibrados!

As luzes da cidade refletiam-se nas janelas do carro. As lojas ainda estavam abertas, lotadas de famílias ávidas por torrar seu 13º salário com as compras natalinas. Nas calçadas, casais e famílias caminhavam sem saber que dentro do carro eu estava junto com dois homens que iam me levar sabe Deus onde!

Deixamos a zona sul da Cidade Maravilhosa, em direção à Ponte Rio-Niterói (obviamente congestionada a esta hora). Embaixo destas pilastras passa um braço do mar. É silencioso, imperceptível, como meus pensamentos – mudos e dissimulados, sabiamente escondidos sob a couraça. Escorrem. Dilaceram.

Chegamos à São Gonçalo... mais precisamente à sua zona portuária...

De manhã, aqui perto, tem um mercado de peixe. Sente-se o cheiro do mar vindo das mãos dos pescadores que, com as unhas escurecidas pelas entranhas dos peixes, tiram água de um balde e borrifam os corpos frios e cintilantes dos animais ainda vivos e pulsantes.

Nós estávamos indo justamente naquela direção, mas de noite, a atmosfera muda completamente. Ao sair do carro, notei que o cheiro do mar tinha se transformado em cheiro de maconha e haxixe; e jovens com piercings substituíam os velhos pescadores bronzeados; mas a vida continuava a ser vida – sempre e de qualquer forma!

Carlinhos mal se agüentava nas próprias pernas, e ficou em silêncio o tempo todo. Meu anjo e eu também não falamos – como das outras vezes em que estivemos naquele edifício sujo e decadente...

Ele tirou um molho de chaves do bolso da calça e enfiou uma delas no buraco da fechadura. A pesada porta de ferro rangeu. Ele teve que fazer força para abrir... e depois que entramos, repetir o esforço para fechá-la, fazendo um grande barulho.

Eu não falava. Não tinha nada para perguntar. Sabia muito bem o que é que estávamos nos preparando para fazer.

Subimos as escadas de madeira, tão frágeis e desgastadas quanto as paredes imundas do edifício, repletas de rachaduras das mais variadas espessuras. Paramos em frente de uma porta branca, através da qual se ouvia música. Assustada, perguntei:

- Mas tem alguém?

Meu anjo torto respondeu:

- Não... A gente esqueceu o rádio ligado antes de sair...

Carlinhos foi direto para o banheiro, deixando a porta aberta. Eu podia vê-lo, segurando um membro molenga e enrugado. Já meu anjo foi até o outro quarto, para abaixar o volume do rádio, enquanto eu fiquei na sala, observando curiosa todos os quartos que dava para ver de lá.

Ele voltou sorrindo, me beijo na boca e, apontando um dos quartos, ordenou:

- Espera lá na Câmara dos Desejos... A gente chega lá daqui a pouco...

Eu não consegui segurar uma gargalhada. “Câmara dos Desejos”? Nome estranho para um quarto onde se trepa!

Entrei no quarto – bem pequeno e espartano. Na parede havia centenas de fotos de modelos nuas (incluindo desde recortes de revistas adultas, cartazes de gravuras eróticas japonesas e posições ilustradas do Kamasutra). Sob a velha cama box de casal, uma bandeira do Flamengo fazia as vezes de lençol e cobertor.

Ainda pensei comigo: “Parabéns, dona Camylla! Você se superou desta vez! Conseguiu chegar ao fundo do poço!

Meu anjo chegou trazendo uma venda escura nas mãos. Virou-me de costas e vendou-me com ela. Fiquei completamente cega, rindo nervosa, enquanto sentia suas mãos abaixando as alças do meu vestido.

Ele comentou baixinho:

- Você parece a Deusa Têmis...

Ouvi o interruptor da luz dar seu dique e em seguida já não podia ver absolutamente mais nada. Percebi passos e sussurros, enquanto duas mãos soltavam o meu soutien. Fiquei de fio-dental, meias altas e botas de salto agulha. Podia me ver vendada e nua, e imaginava no meu rosto apenas os lábios que dentro em pouco iriam saborear alguma coisa deles.

De repente as mãos aumentaram: agora eram quatro. Era fácil distinguir porque duas estavam em cima, apalpando meus seios, e duas embaixo, roçando meu sexo através da calcinha e acariciando minha bunda.

Não conseguia sentir o cheiro de álcool e marijuana de Carlinhos. Talvez ele tivesse escovado os dentes no banheiro. Enquanto eu me imaginava cada vez mais dominada por aqueles dois homens e começava a me excitar, senti, nos ombros, o contato de um objeto gelado.

Talvez um copo.

As quatro mãos continuavam a me tocar, mas o copo esmagava a minha pele com mais força. Assustada, perguntei:

- Quem é, porra?

Uma risadinha no fundo e depois uma voz conhecida:

- O Roberto, bebê... Não se preocupe... Eu só estou trazendo um drinque para você...

Roberto era o melhor amigo do meu anjo. Eles estavam sempre juntos – nas baladas, na faculdade, na praia...

Eu já havia elogiado seu corpo uma vez... Será este o meu presente de aniversário?

Ele aproximou o copo da minha boca e engoli um pouco de uísque vagabundo. Lambi os lábios e outra boca me beijou com paixão, enquanto as mãos continuavam a me acariciar e o Roberto me dava bebida.

Certamente era um quarto homem me beijando...

- Que bunda gostosa você tem... macia... branquinha... durinha... Posso dar uma mordida?

Não conhecia esta voz, mas achei engraçado o seu pedido:

- Faz e pronto! Não pergunta! Só quero saber uma coisa: quantos vocês são?

Meu anjo respondeu:

- Fique tranqüila, amor...

E senti uma língua lambendo as vértebras da minha espinha. Agora a imagem que eu tinha de mim era mais sedutora: vendada, seminua, cinco homens me lambendo, me acariciando, me mordendo e excitando todo o meu corpo...

Eu estava no centro das atenções e eles faziam comigo tudo o que era permitido na “Câmara dos Desejos”. Não se ouvia uma só voz: só suspiros e carícias.

E quando um dedo enfiou-se bem devagar na minha grutinha, senti um repentino calor e compreendi que a razão estava me abandonando. Eu me rendia ao toque das mãos deles, e sentia bem viva a curiosidade de saber quem eram, como eram. E se o prazer fosse fruto das ações de um homem feio e babão? Naquele momento, eu não me importava. Agora me envergonho, diário, mas sei que se lamentar depois de ter feito as coisas não serve para nada.

- Bom... falta o último componente...

Curiosa, perguntei ao meu anjo o que seria este “componente”!

- Não se preocupe... Pode tirar a venda... A gente vai jogar outro jogo...

Hesitei um segundo antes de tirar a venda, mas depois puxei-a lentamente pela cabeça, e vi que eu e meu anjo estávamos sozinhos no quarto. Perplexa, perguntei:

- Cadê os outros?

- Estão te esperando no outro quarto...

- Que se chama...

- Hummmm... “Sala da Fumaça”... vamos apertar um baseado...

Eu juro, diário, que eu queria ir embora e deixá-los lá. Aquela pausa me esfriou e a realidade se apresentou em toda a sua crueza. Mas eu não podia, agora tinha começado, e tinha que ir até o fim a qualquer custo!

Deu para entrever as silhuetas no quarto escuro, iluminado só por três velas apoiadas no chão. Do pouco que podia notar, a forma dos rapazes presentes não era feia (e isso me consolou!).

No segundo quarto havia uma mesa redonda com cadeiras ao redor. O meu anjo presunçoso se sentou.

- Você também fuma?

- Não, Carlinhos... eu nunca fumo!

O Roberto, meu barmen, deu um gole na garrafa de Old Eight e falou:

- Essa não... A partir de hoje você também fuma, gracinha...

- Não! Desculpe decepcionar vocês... mas quando eu digo NÃO, é NÃO MESMO! Eu nunca fumei, não vou fumar agora e não sei se algum dia fumarei... Acho inútil e, por isso mesmo, deixo para vocês...

- Pelo menos, não vai nos privar de uma bela vista, vai? Senta aqui!

Disse Carlinhos, batendo a mão no tampo da mesa...

Eu me sentei na mesa, com as pernas abertas, os saltos das botas enfiados na madeira e o sexo aberto à visão de todos. Meu anjo aproximou a cadeira e a vela acesa do meu púbis para iluminá-lo. Apertava o baseado voltando os olhos primeiro para a erva cheirosa e depois para a minha xotinha. Seus olhos brilhavam... Enfim ordenou:

- Comece a se tocar!

Enfiei um dedo na minha fenda, bem devagarinho, e os cinco rapazes desviaram a atenção do fumo para se dedicar à visão do meu sexo. Um deles (que não o conhecia) se levantou e me beijou os ombros. O garoto negro bombadinho me tomou entre seus braços e me encaixou em seu corpo, tentando entrar com sua haste dentro de mim. Eu estava inerte. O olhar baixo e apagado. Vazio. Não quis olhar.

Carlinhos se levantou e bradou:

- Ei! Não senhor! A gente combinou... Essa noite, ela não vai ser penetrada por ninguém!

Roberto foi até o outro quarto e pegou de volta a venda negra que antes cobria meus olhos. Vendaram-me de novo e uma mão me obrigou a ajoelhar sobre a mesa. Meu anjo ordenou:

- Agora, Mylla, a gente vai passar o baseado... e cada vez que um de nós estiver com ele na mão, vai estalar os dedos e tocar a sua cabeça. Você vai se aproximar do escolhido e vai chupar até ele gozar. Cinco vezes, Mylla. Cinco! De agora em diante, a gente não vai falar mais nada. Bom trabalho, meu amor!

E na minha boca cinco gostos diferentes se encontraram. Cinco sabores de cinco homens. Cada sabor com sua história. Em cada poção a minha vergonha. Durante aqueles momentos, tive a sensação e a ilusão de que o prazer não era só carnal, que era beleza, alegria, liberdade. E estando nua no meio deles, senti que pertencia a um outro mundo. Desconhecido. Mas quando sai por aquela porta, senti o coração despedaçado e uma vergonha indescritível.

Depois me abandonei em cima da cama e senti meu corpo se entorpecendo. Ao meu lado, meu celular tremia incontrolável pela quinta vez. Sabia que era a minha mãe. Vi que já eram duas e meia da manhã.

Nesse meio tempo alguém entrou, estendeu-se em cima de mim e me comeu. Um outro o seguiu e apontou o pênis para a minha boca. E quando um terminava, o outro descarregava em cima de mim o seu líquido esbranquiçado. E os outros também.

Suspiros, lamentos e grunhidos. E lágrimas silenciosas.

Voltei para casa cheia de esperma, com a maquiagem borrada, e vi que minha mãe me esperava dormindo no sofá. Da porta avisei:

- Estou aqui, mãe... cheguei!

Ela estava muito sonolenta para me repreender pelo horário, por isso, acenou com a cabeça e foi para o seu quarto. Entrei no banheiro, me olhei no espelho, e não vi mais a imagem daquela menina alegre de alguns anos atrás. Vi olhos tristes, que o lápis preto escorrendo pelo rosto tornava ainda mais miseráveis. Vi uma boca que tinha sido violentada diversas vezes naquela noite e que tinha perdido o seu frescor. Me sentia invadida, emporcalhada por corpos estranhos.

Tomei um banho demorado, tentando limpar os vestígios do semem, mas mesmo agora, quando escrevo neste diário, sinto que minha vagina emana o indefectível cheiro do sexo.

Feliz aniversário, Mylla...

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