quinta-feira, 24 de maio de 2012
Opera-Rock: OURO DE TOLO
O astro-rei se despede de Jundiaí, tingindo de dourado
a “terra
da uva e do trabalho”...
Após tanto calor durante o dia, o despontar das
primeiras estrelas, acompanhadas por uma leve brisa noturna, são um alívio mais
do que bem vindo!
Bem no coração da cidade, um belo edifício se destaca,
com suas paredes envidraçadas refletindo as nuvens, dando uma dimensão ainda
mais interessante deste dia perfeito...
E é justamente ali, na janela espelhada do quinto
andar, que uma morena observa o movimento no principal centro de comércio da
cidade...
Seus longos cabelos negros, lisos como de uma gueixa,
contrastavam com sua pele branquinha, delicada e sensível ao calor infernal...
Seu rosto, diziam, lembrava uma boneca de porcelana –
feições finas, traços delicados, boca discreta mas com “covinhas” quando
sorria...
E o que falar de seus olhos?
Negros como duas jabuticabas maduras, sempre atentos
aos detalhes...
Seu apelido, desde os tempos da faculdade de Direito
era “A
Gata” – nem tanto por seus atributos físicos, pois era baixinha, falsa
magra (boas curvas, mas reveladas apenas aos poucos privilegiados que
conquistaram seu coração e a levaram para a cama), sempre usando roupas
sóbrias; mas principalmente porque agia como uma predadora prestes a dar o bote
certeiro...
Foi assim, graças a este talento inato e muita
dedicação aos estudos, que Amanda conquistou sua vaga no departamento jurídico
do principal escritório de direito empresarial da cidade.
Tudo bem que Amanda esperava atuar no exterior,
trabalhando como advogada internacional, com compromissos em Nova York, Tóquio
e Londres, fazendo auditorias em mega conglomerados e reuniões com empresários
poderosos... Mas orientada por seus professores da graduação, concordou em ganhar
experiência com discussões sobre ICMS, IPI, IOF e ISS incidentes sobre empresas
familiares fraudulentas...
Seu espírito investigativo, sua narrativa concisa
(permeada de ironia) e sua dedicação ao trabalho fizeram com que “A Gata”
ganhasse destaque, assumindo o posto de Advogada-Chefe com menos de três anos
naquele escritório... Isto, é claro, despertou admiração e inveja dos
colegas...
Mas é claro que nenhum desses colegas invejosos permanecia
no escritório após o expediente comum...
Por esta razão, ali estava ela...
Sozinha em sua sala...
Tomando café expresso e observando o dia se esvaindo...
Lentamente...
Amanda olha para sua mesa e vê três pilhas de processos
judiciais, separadas por seu notebook, seu telefone fixo (agora em silêncio,
mas que tocou durante o dia todo), sua impressora multifuncional, além é claro
de muitos livros jurídicos, grampeadores, furadores de papel, canetas, réguas,
trilhos etc.
“Estou vivendo o sonho...”
Ela olha no calendário e vê que hoje é dia 20...
“Droga! Esqueci de pagar a prestação do
carro!”
A Gata abre sua bolsa, revira sua bagunça de papéis,
recibos de estacionamento, batom, absorvente e centenas de outros itens, até
encontrar o grosso carnê que acompanhou seu lindo Smart Fortwo MHD Coupé 2010, vermelho e branco (um tanto quanto
berrante demais para seu gosto, mas enfim, era o que tinha na
concessionária...).
Amanda acessa seu Internet
Banking e faz o pagamento da prestação.
“Ufa... um problema a menos...”
Ela joga o copinho de café vazio no lixo e retoma seu
trabalho, estudando teses e defesas possíveis ante o óbvio “animus laedendi” (ou seria “lucrandi”?) de seus clientes em face do
Fisco nacional...
Duas horas se passam...
A noite, a eterna, a elemental... possui a Terra!
A noite envolve a realidade, com muitos sonhos e
grandes asas estreladas... O sol nasce e se põe, mas fulgura bem longe o seu
clarão. O sol é apenas um visitante...
Ao anoitecer, a cidade reluz ao longe, com pequenas
chamas na escuridão. Mais perto, miríades de luzes se estilhaçam nas longas
extensões da rede elétrica...
Mas nada prende a noite!
A noite respira, a noite palpita como um coração. A
noite anseia. A noite exige. A noite vive!
A noite tem outra face...
Ás vezes perigosa... Freqüentemente emocionante...
Sempre eterna em sua beleza!
Amanda olha mais uma vez para a janela, contemplando a
lua prateada que reina absoluta sobre Jundiaí... e decide que é hora de ir
embora.
Ela desliga seu notebook, guarda na bolsa Louis Vutton seu Blackberry, pega as chaves de seu Smart e de seu lindo apartamento na Chácara Urbana. Aproveita e
pega os cinco ingressos do Wet n’ Wild
que adquiriu pela Internet para levar seus sobrinhos no final de semana...
A Gata tranca o escritório e chama o elevador...
As portas duplas metálicas se abrem, revelando dentro
do pequeno vestíbulo, um rapaz loiro, alto, olhos verdes, barba cerrada, tipo
atlético, na casa dos seus 30 e poucos anos, vestindo um terno escuro, corte
europeu, e um sapato com mais horas de vôo do que ela própria. Um tipo (raro)
que dá vontade de rir COM ELE e não DELE!
Ela entra na cabine séria.
Ele está sorridente, porque “rico ri a toa”, como diria Toquinho...
As portas duplas se fecham e o elevador começa a
descida.
4º Andar:
Ela olha para o cara, com o canto dos olhos, curiosa...
Ele olha para o espelho, ajeitando o cabelo...
3º Andar:
Ela olha diretamente para ele e esboça um sorriso.
Ele sorri amistosamente.
2º Andar:
Ele solta no ar um protocolar “que calor, não?”
Ela sorri irônicamente.
1º Andar:
Ela responde: “está demais... perfeito para...”
Ele completa: “...um chopp?”
Térreo:
Ela sorri, sem graça, e diz: “Sim... mas eu tenho
compromisso...”
Ele sorri, sem graça, e diz: “Que pena... bom... a gente se
vê...”
As portas se abrem e o bonitão vai embora...
As portas se fecham novamente e ela, sozinha, se olha
no espelho.
1º Subsolo:
“Idiota! Que compromisso você tem, criatura? Cuidar
de sua cadela pincher e ver reprise de Arquivo X na TV?”
2º Subsolo:
Ainda furiosa consigo mesma, ela deixa o elevador e vai
caminhando até o seu diminuto veículo. Acelera com força e chega a derrapar na
garagem.
A Gata ganha as ruas estreitas do centro, mas pouco
consegue avançar, já que o fluxo do tráfego é enorme neste horário...
O jeito é ligar o rádio e relaxar um pouco...
Ela sintonizou na Rádio
Nova Brasil FM, especialista em música brasileira.
E a primeira música que ouviu foi do Capital Inicial – “Leve Desespero”:
“Eu não consigo mais me concentrar,
Eu vou tentar alguma coisa para melhorar...
É importante, todos me dizem,
Mas nada me acontece como eu queria...
Estou perdido, sei que estou!
Cego para assuntos banais...
Problemas do cotidiano,
Eu já não sei como resolver...
Sob um leve desespero,
Que me leva, que me leva daqui!
Então é outra noite num bar,
Um copo atrás do outro...
Procuro trocados no meu bolso,
Dá pra me arrumar um cigarro?
Eu não consigo mais me concentrar!
Eu vou tentar alguma coisa para melhorar...
Já estou vendo TV como companhia!
Sob um leve desespero,
Que me leva, que me leva daqui!
Talvez, se você entendesse...
O que está acontecendo,
Poderia me explicar...
Eu não saio do meu canto,
As paredes me impedem,
Eu só queria me divertir!
As paredes me impedem...
Eu já estou vendo TV como companhia!
Sob um leve desespero...
Que me leva, que me leva daqui!”
A Gata dá um soco no volante e diz em voz alta para si mesma:
“Que merda... minha vida sintetizada em uma
letra de música de gosto duvidoso... eu mereço!”
Um filme passa em sua cabeça...
Ela se lembra da infância feliz, despreocupada,
brincando em parques de diversões e em gramados verdejantes...
Ela se lembra dos primeiros bailes, no quintal de casa,
quando o simples dançar com os meninos causava um arrepio na pele...
Ela se lembra do primeiro beijo... e da primeira vez...
Ela se lembra da alegria ao passar no vestibular...
E se lembra das tensões nas provas...
E se lembra de seu elegante baile de formatura...
E da felicidade após ter conquistado sua carteirinha da
OAB...
E tudo isso... para quê?
Para que tantas noites de sono?
Para que tantas horas de trabalho e estudo?
Por um carro “moderninho”, um apartamento lindo (e
vazio de móveis e de alma), celulares e computadores de última geração?
Por que tanta melancolia depois de tantas conquistas?
Por que tanto spleen em sua vida?
No rádio, outra canção: “Dom Quixote”, dos Engenheiros
do Hawaii:
“Muito prazer, meu nome é otário!
Vindo de outros tempos, mas sempre no
horário!
Peixe fora d'água, borboletas no aquário...
Muito prazer, meu nome é otário!
Na ponta dos cascos e fora do páreo!
Puro sangue, puxando carroça...
Um prazer cada vez mais raro,
Aerodinâmica num tanque de guerra...
Vaidades que a terra... um dia há de comer!
"Ás" de Espadas, fora do baralho,
Grandes negócios, pequeno empresário...
Muito prazer: me chamam de otário...
Por amor... às causas perdidas!
Tudo bem, até pode ser,
Que os dragões sejam moinhos de vento...
Tudo bem, seja o que for,
Seja por amor às causas perdidas...
Por amor... às causas perdidas!”
Amanda finalmente chega em seu apartamento. Estaciona o
carro. Desliga o rádio. Pega sua bolsa. Abre a porta do veículo. Caminha até o
elevador. Sobe até o 11º andar. Cruza o corredor escuro. Abre a porta do seu “lar
doce lar”...
“A cidade enlouquece sonhos tortos...
Na verdade nada é o que parece ser...
As pessoas enlouquecem calmamente...
Viciosamente... sem prazer...”
Contempla seus móveis planejados e seus equipamentos de
última geração (todos obviamente conectados à Grande Rede). Olha para seus
livros na estante (“que nada dizem de importante... servem só para quem não sabe ler!”)
e para sua pequena cadelinha de olhar triste...
“A maior expressão da angústia,
Pode ser a depressão,
Algo que você pressente!
Indefinível...
Mas não tente se matar,
Pelo menos essa noite não!”
A Gata vai até a sacada do apartamento. Ela precisa
respirar...
“As cortinas transparentes não revelam,
O que é solitude, o que é solidão...
Um desejo violento bate sem querer...
Pânico, vertigem, obsessão!”
Ela precisa... voar!
“A maior expressão da angústia,
Pode ser a depressão,
Algo que você pressente...
Indefinível!
Mas não tente se matar,
Pelo menos essa noite não!”
Ela se debruça sobre a sacada...
Olhando o belo jardim e a piscina do seu imponente
condomínio...
“Tá sozinha, tá sem onda, tá com medo?
Seus fantasmas, seu enredo, seu destino...
Toda noite uma imagem diferente,
Consciente, inconsciente, desatino...”
Seu salto alto escorrega no piso de mármore carrara, e seu corpo é projetado em
direção ao abismo...
Ela começa a queda...
Cada vez mais rápido...
Caindo...
Em seus lábios, um derradeiro sorriso...
Caindo...
Típico, de quem encontrou “a paz derradeira, que vem
nos redimir”!
Caindo...
Caindo...
Caindo...
“A maior expressão da angústia,
Pode ser a depressão,
Algo que você pressente...
Indefinível!
Mas não tente se matar,
Pelo menos essa noite não!”


1 comentários:
Aff... AMO LOBÃO E RAUL!!!
24 de maio de 2012 às 20:07Parabéns pela Opereta, Pierrot!
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