terça-feira, 29 de maio de 2012
Prólogo e Introdução - Commedia Dell'Arte
PRÓLOGO:
Redruth,
04 de Janeiro de 1.122 d.C.
Para
variar, está nevando lá fora...
Já
é o décimo-sexto dia seguido de nevasca sobre Devon...
Não
falta muito para sermos engolidos pelo gelo!
Quando
eu era criança, adorava ver a neve caindo...
Branca,
pura, leve, flutuando entre os galhos das árvores centenárias que cercam as
nossas terras...
Ah,
que saudades da infância...
Pela
manhã, corria livre pela floresta de pinheiros, segurando meu punhal como se
fosse uma espada, caçando coelhos e até javalis!
A
tarde, mergulhava no Rio Ambroise, vencendo suas corredeiras geladas só com a
força dos meus braços e pernas pequenas...
E
ao anoitecer, sentado ao redor da lareira, ouvia histórias dos cavaleiros
templários contadas por meu avô, enquanto saboreava um delicioso ensopado!
Engraçado...
falando assim... parece que faz tanto tempo...
Será
que algum dia voltarei a vê-los?
Meu
avô... minha mãe... meus irmãos pequenos?
Como
será que eles estão se virando sem mim?
Espero
que estejam bem...
Pelo
menos, ouvi que a Ordem é bastante generosa com as famílias de seus
aprendizes...
Ah,
mas que imensa falta de educação a minha, não?
Sequer
me apresentei a vocês!
Sou
Pedrolino Pierrot, filho de Raffaele Pierrot e neto do lendário cavaleiro Sir
Jean-Pierret Pierrot, bravo combatente e herói de Lorient durante a Primeira
Cruzada cristã à Jerusalém! Como se não bastasse, meu avô ajudou Sir Lestrade a
fundar o Reino de Devon e até mesmo a Ordem Sagrada Fleur d’ Liz... onde estou
enclausurado... vendo a neve cair!
As
horas se arrastam aqui dentro das muralhas...
As
tarefas são sempre as mesmas... banais... repetitivas...
Acordo
todos os dias às 03:00 para fazer minhas orações na capela, auxiliando o
Monsenhor Christian nas homilias...
Às
05:00, vou para o estábulo tratar dos cavalos...
Às
06:00, com o nascer do sol, recebo um esfregão e ferramentas para cuidar dos
jardins, do cemitério e de todas as áreas abertas – além é claro de tirar o
excesso de neve!
O
frio é tão grande durante o inverno, que sinto meus dedos dos pés e mãos, além
dos braços e pernas, sangrando – mesmo quando protegidos pelas botas e casacos
de pele...
E
coitado daquele aprendiz que não fizer um bom trabalho! O próprio Monsenhor
Christian se encarrega de aplicar-lhes chibatadas...
Ah,
quanto sangue já jorrou de minhas costas!
Às
08:00, faço a primeira refeição do dia – bem espartana por sinal! Um bolo sem
sabor, acompanhado por tiras de carne seca e uma caneca de cerveja escura
quente. Nos primeiros dias, não conseguia engolir a comida, o que me deixou
fraco, e percebi que era importante comer (até mesmo para suportar o
treinamento...).
Terminada
a refeição, eu e os outros aprendizes seguimos para a imensa biblioteca, onde
nossos mestres nos ensinam a ler, escrever, pensar...
São
horas e mais horas perdidas entre palavras, pensamentos, idéias, teorias... O
bom de estar nesta Ordem é que podemos dissecar livros, e temos liberdade até
para ler a Bíblia Sagrada!
Tudo
bem... eu ainda não entendo bem certas passagens... mas já posso vislumbrar
razões suficientes para defender a fé cristã contra as ameaças abissais que nos
rodeiam!
Afinal,
este é o principal objetivo desta Ordem, não é mesmo?
Deixamos
a biblioteca por volta das 17:00, e temos pouco tempo para vestir nossas
pesadas armaduras metálicas, empunhar nossas espadas e finalmente seguir para
as aulas de combate!
De
longe, as minhas prediletas!
Aprendemos
com o lendário Sir Pantaleón inúmeras técnicas de batalhas, estratégias de
combate, ataque, defesa, manejo de armas comuns e exóticas, enfim... Aprendemos
a pelejar!
Apesar
da fome e do cansaço, não reclamo do treinamento... Muito pelo contrário!
Sempre que posso, repito os ensinamentos, manipulando meu esfregão como se
fosse uma espada forjada por irlandeses, e enfrentando árvores como se fossem
mouros!
Às
20:00, faço a segunda refeição do dia: sempre o mesmo ensopado de peixe, com um
pedaço de pão duro feito pedra... exceto nos dias de festa, quando verdadeiros
banquetes são servidos aos convidados e aos membros da Ordem!
Infelizmente,
estes eventos são raros... muito raros!
Depois
do jantar, assistimos oura missa celebrada pelo Monsenhor Christian... Tenho
que confessar que, as vezes, chego a dormir durante suas pregações!
Por
sorte, ele nunca percebeu, pois o castigo recebido por um garoto recrutado no
mesmo dia em que entrei foi muito além da surra – ele foi banido da Ordem e o
nome de sua família foi desonrado para sempre!
Às
22:00, devemos retornar ao nosso claustro para descansar e dormir...
Para
acordar novamente às 03:00 da manhã...
Para
outra jornada exatamente igual...
Sem
nenhum dia de repouso...
É
claro que estou exausto, mas creio que não fui abençoado pelo dom do sono
fácil! Por isso fico aqui, olhando pela janela do meu quarto, acompanhando cada
floco de neve bailando no ar...
Também
é por isso que estou aqui, escrevendo este diário...
Todos
os dias, desde que entrei aqui, faço um pequeno risco na rocha, sinalizando a
passagem de mais um dia.
Hoje
contei 2.347 riscos na parede...
Quantos
outros riscos existirão, antes que eu possa receber as bênçãos de Sir
Pantaleón, aceitando-me como um legítimo irmão de armas?
INTRODUÇÃO:
Bem
vindos à Redruth, capital do Reino de Devon – situado na península de Cornwall,
no extremo sudoeste da ilha da Grã-Bretanha. Estamos no Anno Domini Nostri Iesu Christi de 1.122, em pleno inverno
rigoroso...
A
região fria e tempestuosa, de solo pobre e rochoso (o que inviabiliza a
agricultura), com um litoral tomado por gigantescos paredões de pedra bruta e
mares revoltos (o que prejudica sobremaneira a navegação), convenientemente
distante de Londres, nunca havia despertado o interesse dos nobres... e por
isso, manteve-se como reduto de criminosos exilados e selvagens druidas por
séculos a fio!
Tudo
mudou graças ao sonho de Sir Lestrade e um grupo de seletos cavaleiros
templários, veteranos da Primeira Cruzada, que ao retornarem à sua terra natal,
não suportaram a “paz” por muito tempo...
Seguindo
as referências obtidas em um sonho, o grupo de cavaleiros partiu para a região
selvagem em busca de uma delicada flor de lis, nascida sobre a rocha, como um
sinal da “aliança de Deus para com seus filhos guerreiros”.
De
fato, em 1.042, nos arredores da vila de Redruth, o grupo de templários
encontrou a flor – e decidiram fundar ali a “pedra-fundamental” de uma nova
Ordem de Cavaleiros – chamada de “Ordem Sagrada Fleur d’ Liz” (dedicada a
defender a fé cristã contra toda e qualquer ameaça).
Em
menos de dez anos, enquanto erguiam as muralhas do futuro castelo-mosteiro, os “cavaleiros
púrpuras” cavalgavam sob o luar, brandindo espadas e agindo como
investigadores, delegados, juízes e executores, decapitando criminosos,
prostitutas, bruxas, judeus, mouros e outros povos pagãos, impondo a fé
católica, apostólica romana (por vezes de modo agressivo) aos moradores da
região...
É
claro que este movimento não foi visto com bons olhos pelo Rei Bretão – mas como
seus cofres estavam baixos; a Igreja entendia como “razoável” os resultados
obtidos pelos “garotos” (embora não aprovassem os seus métodos); e a região
nunca despertou interesse; eles decidiram oficializar o comando de Lestrade –
nomeando-lhe Senhor de Devon e exigindo lealdade à coroa britânica...
Lestrade
aceitou as condições.
No
ano de 1.055, nascia oficialmente o Reino de Devon, cuja capital seria Redruth
(por sua proximidade com o Templo da Ordem). Segundo boatos, Sir Lestrade seria
um vampiro imortal e que até hoje comandaria o seu reino, manipulando nobres e regentes
com suas determinações emanadas das torres escuras (onde viveria recluso e
protegido da Inquisição). Mas é claro que não passam de boatos, certo?
Todos
os anos, a Ordem promove um recrutamento de garotos e garotas, com exatamente onze
anos de idade, interessados em ingressar na vida monástica ou em sagrar-se
Cavaleiros. Apesar do treinamento rigoroso, as vagas são disputadas (até mesmo
porque oferece a todos a chance única de subir na hierarquia social medieval).
Pedrolino
Pierrot, obviamente, não possui aptidões militares. Pelo contrário: possui uma
alma sensível, por vezes boêmia e degenerada, além de questionar os dogmas da
religião que a Ordem defende. Ainda assim, permanecesse em suas fileiras, como
um “favor especial” ao seu avô, Jean-Pierre (um dos fundadores da Ordem e do próprio reino).
É
claro que isto não é visto com bons olhos pelo atual regente da Ordem: Monsenhor
Christian. Mas no fim das contas, o desastrado aprendiz acabou sendo útil em sua
eterna batalha contra o Cavaleiro Pantaleón!
A
rivalidade entre eles nasceu quando Lady Brighella, Madre Superior da Ordem (e
dizem as más línguas: amante do Monsenhor Christian) apaixonou-se pelo jovem e
talentoso cavaleiro – despertando ciúme doentio no regente da Ordem Sagrada...
Pantaleón
é o arquétipo do paladino! Excelente guerreiro e estrategista militar, com
experiência e talento raros em seus pares... além de despertar paixão em todas
as donzelas do reino! Vaidoso, por vezes arrogante, consegue ser amado e odiado
com intensidade por todos...
Ele
é noivo de Lady Penélope, linda donzela de madeixas douradas, filha do atual
Rei de Devon. Mas a bela sabe que seu noivo é muito cortejado, e seu ciúmes é
exagerado, beirando a neurose! Mas ela tem razão num ponto: o coração do
cavaleiro está balançado por uma mulher...
Uma
cortesã... Consuelo de Azevedo!
Consuelo
é dona da Taverna “Macário” – a maior e melhor freqüentada de Redruth... Todos
sabem que lá a cerveja está sempre gelada e as meninas sempre quentes! Mas
nenhuma delas desperta paixões como a própria Consuelo...
Entre
seus admiradores ilustres, podemos citar Lorde Enrico (comandante da milícia
local); o médico Joseph; o cavaleiro Pantaleón; e o próprio Monsenhor
Christian!
É
claro que isto prejudicou mais a relação entre ambos!
E
também por isso, o Monsenhor mantém Pierrot no “esquadrão” treinado por
Pantaleón – pois na condição de líder, ele responderá por toda e qualquer
bobagem cometida pelo neófito...
Bem
diferente é a situação de Phillip, o brilhante aprendiz de Pantaleón, que está
a um passo de sagrar-se cavaleiro, apesar da pouca idade...
Phillip
é irmão mais velho de Andrew, igualmente talentoso, mas por ser caçula, não
pôde ingressar na Ordem Sagrada – contentando-se em trabalhar na Milícia local.
Andrew
também freqüenta a Taverna Macário, mas seu objetivo é outro: seu sonho é
casar-se com Strawberry, uma jovem cortesã belíssima, mas para isso, terá que “comprá-la”
de Consuelo, que exige uma fábula em moedas de ouro (pois sabe o quão valiosa é
sua menina-mercadoria)...
Em
síntese, estes são os personagens da nossa estória...
Espero
que se divirtam!


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