quarta-feira, 23 de maio de 2012

A Fome...

O aroma de decadência é perfume para mim...

Como uma antiga amante, o ar poluído me beija a face.

Sei que cheguei em casa quando ouço um pneu cantando no asfalto, ou quando vislumbro um raio de neon iluminando o sonho da cidade.

Mesmo quando a Fome espreita as fronteiras de meu consciente, mesmo quando cambaleio através da névoa do delírio, sei que este é meu lugar.

Aqui a mesa de jantar está sempre posta.

Aqui a música da vida acompanha cada refeição.

Amantes passeiam de mãos dadas.

Sinto a Fome crescer dentro de mim.

A Besta se contorce.

Suas vidas poderiam ser minhas, mas não devo alimentar-me desse casal.

Embora não possa ser destruída, a Besta deve ser controlada.

Cada noite é uma batalha a ser vencida!

Já me alimentei de muitos...

Suas faces flutuam à minha frente - alguns me assombram, outros me agradecem.

Lábios imploram por prazer e recebem êxtase.

Olhos arregalados suplicam por vida, mas encontram apenas alívio.

Ante minha Fome, seus destinos estão selados.

Minha necessidade foi o seu fim.

Meu desejo o último cravo em seus caixões.

Os que morreram não eram criminosos?

Aqueles rostos já não haviam encarado a morte antes que eu os encontrasse?

Eles já me conheciam quando nossos caminhos se cruzaram...

Morte gera morte, assim como a vida gera a vida!

Eu sou a Besta!

Um som de violência chega aos meus ouvidos...

É uma melodia que canta para minha necessidade e me desperta a Fome. Sigo a música até sua fonte: um cafetão trajando vestes de cores berrantes...

Ele esbofeteia uma mulher maquiada, que cai ao chão. Tira o dinheiro de sua bolsa.

Parasita.

Lentamente aproximo-me dele.

Câncer.

Seus olhos frios encontram os meus.

Doença.

Bebo a sua essência.

Pó.

Sou a Besta e a Besta devo tornar-me.

"Aquele que luta com monstros deve acautelar-se; para não tornar-se também um monstro. Quando se olha muito tempo para um abismo, o abismo também olha para você" - Friedrich Wilhelm Nietzsche, "Além do Bem e do Mal"

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